Pão de mel como metáfora

em 24 de junho de 2016

Antes da metáfora, duas historinhas:

1.

Eu me habituei a “esquecer” um ou dois pães de mel nas sacolas de pano que ganhava Flip afora. O que era para ser o lanchinho da tarde sumia da memória na correria entre mesas e festas, e os esquecidos eram jogados na mala ao voltar de madrugada. No fim do domingo, “acidentalmente” voltava para Curitiba com 8 ou 10 deles na bagagem.

Posto que p = f (em que: p = pão de mel; f = felicidade instantânea), eu tinha pelo menos uma semana para me curar da abstinência de Flip; bastava comer apenas um por dia. Sobravam pelo menos uns dois para deixar na mochila do dia a dia, para aqueles momentos em que a carência bate e a gente precisa de um pouco de carinho urgente.

De 2012 a 2014 tive 3 anos para isso, mas não aprendi a lição: pães de mel têm um prazo de validade; felicidade instantânea pode vencer. A interrogação era sempre a mesma, ao ser surpreendido meses depois por um pão de mel mofado no fundo da mochila: por que não o comi antes?

2.

O mimimi da coluna anterior tem menos impacto quando posto em perspectiva. Admito que, mesmo sem pão de mel na Flip, tive acesso à iguaria umas três vezes ainda em 2015. Numa das ocasiões, provei de manhã um pão de mel feito na noite anterior.

E deixa eu te contar: se o negócio já é bom quando conservado no potão de whey, você não faz ideia de como ele é gostoso assim, recém feitinho.

*

A comparação dessas duas historinhas me deu o que pensar. Pensando nelas que me dei conta da segunda grande lição de vida que o pão de mel podia me ensinar 1 – levo a sério quando digo que ele é amor.

A lição parte da constatação que sou um esquecido. Não sei se I was born this way ou me acostumei a ser assim. É um pouco dos dois: já sou meio assim, mas adotar um estilo de vida meio offline (celular no silencioso, notificações desativadas) só ajuda. E ser esquecido é uma boa na maioria dos joguinhos amorosos. Se você se acostuma a isso, você não se preocupa em esperar 3 dias para ligar após o primeiro encontro, não calcula o tempo que levou para receber uma mensagem de texto (não convém responder rápido demais: parece desespero, diz Aziz Ansari), não confere se a mensagem já foi visualizada e quando ele ficou online pela última vez.

Disse que sou meio assim, mas a gente constrói esse “ser” o tempo todo, né? Parte é procrastinação (“ah, depois eu respondo com calma”). Outra parte acontece porque não é lá muito cool ser carentão (e puxar papo equivale a isso para muita gente), o que faz você perceber que ficar sozinho nem é ruim – se você gosta de ler, já sabe como funciona. E assim se vai guardando o afeto, acumulando pra demonstrar somente quando houver uma saudade justificável: se você economiza, sobra mais para quando precisa, não?

Só que tem um problema em ser meio esquecido. Aliás, um não: alguns. Mas finjamos que é só um: pode parecer descaso. Gelo puro e simples. Ninguém é obrigado a saber que você compensa a tendência em ser meio sentimental com uma vida offline; que você pensou nele aquele tempo todo, mas não quis incomodar. O cara só vai ver que você demorou 24 horas para responder uma mensagem. Gelo.

Digo por mim: meu “sdds” tenta resumir de forma fofinha (e cool) que a falta que sinto de alguém transbordou um pouquinho. Para a outra pessoa, contudo, o “sdds” pode não significar nada depois de tanto tempo sem contato – não tem nota de rodapé no WhatsApp.

É o pão de mel que venceu.

*

Isso já me aconteceu algumas vezes. Nada que já não tenham descrito como bad timing, falta de sincronia, mas eu precisei do pão de mel para entender as coisas. E perceber que é uma besteira acumular sentimento (pra que serve o amor só em pensamentos?) e tentar lidar com o coração como quem faz lição de economia.

Nada se compara a pão de mel novinho todo dia. Basta reaprender a fazer.

  1. A primeira lição de vida estava implícita na coluna anterior: parar de tentar comprar amor com pão de mel. Não deu certo após a Flip de 2013 (ele adoçou uma sessão de “Os amantes passageiros”, filme que não vi na íntegra até hoje) e foi igualzinho em 2014 (tava terminando o mestrado e prestes a mudar de cidade, não daria certo de qualquer forma). Em 2015, jurei ter aprendido com meus erros, prometi que só dividiria pão de mel com amigos e… comi quase todos os que ganhei – só dei uns três de presente. Mas semanas (e muitas lágrimas) depois de um desses presentes “de amigo”, consegui admitir para mim mesmo que não queria amizade, queria era ser o seu namorado. Agora eu vejo: não é porque uma linda história de amor (teve até casamento! certeza que a lembrancinha foi pão de mel) começou com pão de mel que vou conseguir algo parecido. Para muitas pessoas, um pão de mel é apenas um pão de mel. Tem quem coma sem nem sentir o gosto direito.

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