Crítica: A Bruxa

em 21 de novembro de 2016

Informações

  • Título: A Bruxa (The Witch)
  • Diretor: Robert Eggers
  • Roteiro: Robert Eggers
  • País: Estados Unidos, Canadá
  • Ano: 2016
  • Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson

Fazer um filme de gênero é filmar dentro das expectativas. Um gênero é, na verdade, exatamente isso: um quadro de expectativas dentro do qual se pode encaixar um filme. A questão é que um filme dentro demais das expectativas perde a graça, enquanto um que as subverta demais escapa ao gênero.

A Bruxa é um filme de gênero e, mais que isso, um filme que se insere firmemente em uma tradição. Histórias de bruxas e, principalmente, histórias a respeito de mulheres julgadas injustamente como bruxas são quase um gênero em si, indo muito além dos filmes de terror e A Bruxa consegue articular essas duas tradições de forma bastante eficiente.

Logo no início, o filme estabelece que bruxas de fato existem em seu universo e o terror vai além do psicológico. Contudo, a impressão interna, a paranoia e mesmo a histeria nunca estão fora da possiblidade. Todos os acontecimentos realmente foram orquestrados pela bruxa? Ou parte deles é apenas coincidência? Algumas das reações da família não podem ser simplesmente histéricas, apesar da existência real de poderes demoníacos? Ao estabelecer essas ambiguidades, o filme estabelece um jogo de expectativas que é boa parte do que o sustenta.

O longa tem como protagonista Thomasin, a filha mais velha de uma família de puritanos que é expulsa da comunidade onde vivem. Isolados nas fronteiras da floresta, eles entrarão em contato com forças ocultas e, mais que isso, com a corrupção da própria família.

Na primeira cena, no tribunal que expulsa a família, Robert Eggers evoca as ideias normalmente associadas ao puritanismo: vigilância, fundamentalismo, intolerância. Aos poucos, conforme a família passa mais tempo fora da sociedade de controle, essas ideias vão se desconstruindo e o que emerge é um ambiente em que a natureza e suas forças estão prontas para tomar conta.

Eggers sabe o que se espera de uma história sobre o protestantismo mais radical e ele entrega suas referências com perfeição: Arthur Miller, A Paixão de Joana D’arc, A Fonte da Donzela. Os supercloses vistos ligeiramente de cima são mais que uma homenagem a Dreyer, são um anúncio do que está em jogo no filme: o sofrimento e redenção de uma jovem.

Thomasin passa a ser hostilizada por sua mãe quando Sam, o bebê da família, desaparece na sua frente. Não parece ser gratuita a escolha de uma menina de aparência angelical e longos cabelos loiros, em contraste com a mãe magra demais, envelhecida antes do tempo. Como em qualquer história de bruxas, existe aqui uma narrativa a respeito da sexualidade feminina e sua repressão. É o sexo que leva o irmão de Thomasin a ser possuído pelo demônio, uma desgraça anunciada pelos olhares que ele já havia lançado à irmã. A desgraça, A Bruxa parece dizer, é inevitável.

O que acontece com a família é uma consequência de seus próprios defeitos e do universo que tentam criar. A vitória da natureza já está anunciada na fala do pai: a natureza humana é ruim, nascida para o pecado, é preciso uma intervenção divina para salvar-se da danação. E o espectador espera que a narrativa lhe dê essa intervenção, mas, de forma paradoxalmente surpreendente, ela entrega exatamente o que foi anunciado.

Não há sustos ou reviravoltas em A Bruxa, mas uma atmosfera constante de contaminação e decadência. Uma claustrofobia cada vez maior que explode em um final cruel e redentor. Não é um filme de terror que olha para seus antecedentes mais próximos, os filmes de assassinato dos anos 90, mas busca sua tradição muito anterior, quando um filme como O Bebê de Rosemary seria considerado terror.

Quando o longa estreou em Sundance se falou muito em um renascimento do gênero. Já fora da cartela dos grandes estúdios, o terror poderia encontrar seu lugar no cinema alternativo, onde os orçamentos menores permitiriam mais ousadia e abordagens mais autorais. Isso funciona aqui: são as camadas e a ausência da tensão no sentido comum que tornam A Bruxa um filme eficiente. É sua crueza e aparente simplicidade (aparente apenas, os cuidados estéticos são primorosos), sua apresentação como uma “história folclórica” que tornam o filme perturbador.

Uma história folclórica é uma história que releva algo sobre o universo que habitamos. Uma lenda é uma forma mítica de explicar o estado das coisas. Uma história que fala do medo da sexualidade feminina, da repressão e a respeito da vitória da natureza sobre uma humanidade corrupta ganha uma força excepcional quando vendida com essa roupagem.

Ao final, A Bruxa é um filme extremamente bem feito. A riqueza de referências e cuidado estético permitem a construção de uma metáfora que, ao mesmo tempo que transcende o gênero, confirma suas formas mais antigas. O terror de A Bruxa é o terror do expressionismo alemão e é excelente ver que ele ainda pode ter fôlego.

Um comentário para “Crítica: A Bruxa

  1. Bela resenha, Isadora, parabéns. Esse foi um dos melhores filmes que vi esse ano, posso dizer sem medo de ser injusto. O cuidado com a construção simbólica do filme e as amarrações entre terror como gênero e terror como fruto histórico são primorosos.

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