Na toca do poeta

em 4 de dezembro de 2016
Ferreira Gullar - Fronteiras do Pensamento

“Guilherme, como você preferir. Abr” – eu não esperava que Ferreira Gullar perdesse seu tempo de poeta checando e-mails, muito menos respondendo a um moleque desconhecido. Mas aconteceu. Topou uma entrevista sobre Em alguma parte alguma, seu livro mais recente. Fiquei tão ansioso que nem percebi que Gullar, aos oitenta, sabia que, na internet, “abraço” vira “abr”.

Eu era um estudante universitário no primeiro semestre do curso de letras, precisava fazer um trabalho sobre um poema de Gullar e achei, meio sem pensar em nada, que seria uma boa entrevistá-lo. Foi só depois de acertar data e horário que a ficha caiu: um rapaz imberbe, com dificuldade em fazer escansão de versos, vai conversar sobre poesia com o último dos grandes poetas.

Fui para o Rio, me perdi, me encontrei, apertei o dois, o zero e depois o dois num interfone de um prédio velho na Rua Duvivier. A voz rouca de quem já viu muito perguntou quem era. E era apenas eu, meu deus, me perdoe. No elevador, não havia espaço para todas as indagações que subiram comigo. Pisei no hall e Ferreira Gullar me aguardava na porta, comprido, compridíssimo. Boa tarde, me apontou a mesa, disse qualquer coisa e foi ao banheiro.

Fiquei alguns minutos sozinho na toca do poeta. Comecei a me sentir sufocado. As paredes, abarrotadas de quadros, não tinham espaço para respirar. A tevê transmitia uma partida de tênis arrastada demais. Fora o sol preguiçoso das três da tarde, nenhuma luz. Desci do estado etéreo quando me dei conta de que não tinha nada preparado, e agora eu era Hefesto despencando do Monte Olimpo durante nove dias. Não sabia por onde começar, mas comecei mesmo assim quando Gullar voltou com um copo d’água, sentou-se à minha frente e batucou os dedos largos.

Conversamos por quase três horas e, no fim da tarde, saí de seu apartamento com o melhor trabalho de graduação da história – um medíocre oito e meio –, com declarações polêmicas e inéditas – repetições de outras entrevistas – e a certeza de que eu também deveria ser poeta – sou muito pragmático. Caminhei até a praia de Copacabana alguns centímetros acima do chão e me sentei ao lado de outro grande poeta, este um pouco mais bronzeado, rígido e mudo. Ficamos os dois em silêncio, observando aquela quantidade de pernas brancas, pretas, amarelas. Drummond até pareceu disposto a também me dar uma entrevista, talvez até tivesse algo interessante para dizer, mas eu não quis perguntar nada. Já tinha todas as respostas do mundo.

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