O Tribunal da Quinta Feira, de Michel Laub

em 8 de dezembro de 2016

Em O Animal Agonizante, de Philip Roth, David Kepesh, após ouvir o tortuoso relato de traição de seu filho e das culpas daí derivadas, o diagnostica: “a virtude é uma perversão como qualquer outra”.

Embora Kepesh seja um personagem menos que exemplar, ele não quer dizer que boas ações são em si perversas. O que ele identifica na fala do filho e que o faz proferir uma sentença tão implacável não é a vontade de ser bom, mas a vontade de ser visto como bom. É menos a traição que o deixa culpado e mais a percepção de que a partir daquele momento não se encaixa mais no modelo do que seria “uma boa pessoa”.

Porém pessoas não são geralmente boas ou ruins, são apenas pessoas. Fruto de histórias pessoais e não pessoais e sujeitas a baixezas, egoísmos e ações desprezíveis sem que isso necessariamente as coloque no grupo dos monstros psicopatas totalmente indiferentes ao destino da humanidade. E é sobre essa possiblidade que trata o novo de Michel Laub, O Tribunal da Quinta Feira. 

Laub já esteve às voltas com esse tema em seus dois romances anteriores, o erro profundamente humano e impensado que é suficiente para colocar um personagem essencialmente bom na categoria das “pessoas ruins”. Contudo, aqui a premissa é mais radical porque fatores que nos outros livros poderiam surgir como atenuantes foram retirados.

Se em Diário da Queda o narrador entrelaça seu erro com a complicada história de culpa e vingança do judaísmo e A Maçã Envenenada  é quase um romance de formação, onde os erros do protagonista são perdoáveis pela jornada de maturidade que ele realizará, aqui o protagonista é apenas um publicitário de meia idade que pode ser definido de forma bastante exata como um escroto.

José Victor tem 43 anos, nasceu e cresceu na classe média paulistana, é diretor de criação de uma agência de publicidade e está comendo a estagiária. Além disso, durante pelo menos 7 dos 10 meses durante os quais está comendo a estagiária, ele também foi casado. O livro começa com o fim de seu casamento, motivado por seu envolvimento com Dani, mas que talvez também tenha em si motivado o início desse envolvimento. Porque justamente as coisas, a vida e os relacionamentos não são tão simples.

O poder do livro está em que Laub não tenta atenuar, desculpar ou apresentar seu protagonista em uma luz favorável. Ele busca apenas inseri-lo em uma biografia plausível e realista, com os clichês e particularidades que foram uma história de vida que o leitor pode reconhecer como semelhante à sua ou de conhecidos.

Essa identificação e humanidade são necessárias porque são elas que permitem ao romance acessar seu tema central: a prontidão do julgamento e o dano que resulta de nossa vontade de sermos guardiães da virtude.

A vida de José Victor é colocada no tribunal quando sua ex-mulher acessa sua caixa de emails e descobre, entre outras coisas, a traição. Compreensivelmente ferida, ela seleciona trechos e os envia as amigas, que enviam as outras amigas e, com a rapidez característica da internet, a intimidade de José Victor se torna domínio público.

É uma das melhores escolhas narrativas de Laub que marido e mulher estejam nesse tribunal com atos condenáveis: Ele traiu e mentiu, ela expôs uma intimidade. É a experiência e o quadro de valores do leitor que atribuirá pesos e medidas aos atos de cada um já que o autor contextualiza ambos os “crimes” no sofrimento de seus personagens. O verdadeiro vilão, o único que não merece algum tipo de perdão de escritor ou narrador, é a massa anônima da internet.

Logo que seus emails se tornam públicos, o protagonista passa a receber toneladas de mensagens anônimas e são elas um dos momentos mais geniais do livro. Uma delas diz: “Quero ouvir as piadas e risos quando os presos estuprarem você […] Se não fizerem isso eu mesma me encarrego do que precisa ser feito […]. Se liga porque eu ando com uma tesoura afiada na bolsa seu misógino enrustido seu porco.” O autor não precisa de mais para elaborar sobre a hipocrisia, ou a perversão, da virtude.

É a satisfação pessoal. O pequeno espasmo de felicidade que sentimos quando vemos como somos uma pessoa melhor, mais evoluída, mais consciente do que o próximo. O profundo espetáculo de discurso igualitário, ecológico, iluminado, zen, não-consumista que se armou na internet. O livro não é sobre a “polícia do politicamente correto”, não é uma crítica ao fato de que racistas e misóginos já não podem ser racistas e misóginos em paz. É uma análise do fetiche da virtude, da vontade de jogar os “menos evoluídos” na fogueira que tanto se vê na internet atualmente.

Uma prova metaliterária da urgência e da precisão dessa crítica é que o próprio romance foi julgado quando sua sinopse surgiu nas redes. O livro não lançado foi acusado de ser uma revisão de histórias já exploradas; de ser mais uma obra de um autor homem pintando mulheres de loucas; de ser misógino. Promessas que, talvez para o desapontamento de alguns, Laub não entrega.

O que sim ele entrega é uma radiografia de relações humanas menos do que exemplares e do jogo de consequências graves que podem surgir das ações de humanos imperfeitos, como o são todos. A introdução do tema do H.I.V. serve como uma lupa, uma forma de ampliar o peso e a gravidade dessas decisões, um recurso estilístico para dar ênfase à mensagem do livro.

Talvez, a maior crítica a ser feita é que embora envolvente e extremamente bem construída, a forma de Laub ecoa demais seus dois livros anteriores. A linha entre repetição e estilo é tênue e O Tribunal da Quinta Feira caminha perigosamente entre elas.

A parte isso, é um romance forte, atual, que equilibra os riscos que corre de forma a demonstrar o inegável talento de seu autor.

 

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