As vicissitudes religiosas de François Mauriac

em 16 de dezembro de 2016

Informações

  • Autor: François Mauriac
  • Tradutor: Rachel de Queiroz
  • Editora: Opera Mundi
  • Páginas: 225
  • Ano de Lançamento: 1970
  • Preço Sugerido: -

A fé religiosa pode ser um combustível catártico ímpar, forçando os limites filosóficos e dramáticos da escrita e da imaginação, participando, assim, como uma força verdadeiramente construtiva da literatura. Apesar dos propósitos proselitistas que costumam assolar a fé nas letras, empobrecendo-as, existem escritores e obras nos quais a crença oferece o escopo a partir do qual se constrói o enredo, os argumentos e os personagens. O francês François Mauriac é um dos escritores em que se pode observar essa situação, e as páginas de O deserto do amor, romance de 1925, são prova suficiente para atestá-lo.

O romance se inicia num bar na rua Duphot, num clima decadente, onde se encontra Raymond Courrèges, bebendo e mantendo uma pose juvenil que o permita dissimular sua meia-idade. Quando seu olhar se dirige à porta, ele vê entrar uma mulher muito conhecida, Maria Cross, com quem se relacionou durante a juventude. É essa entrada que dispara o gatilho de memórias cujo enredo é a real trama do livro: um triângulo amoroso composto de inusitados vértices, e vivido em suas desconcertantes e ferinas consequências.

O que Raymond recorda diante da entrada do casal é a adolescência em que, por conta do liceu, alternava a região de Bordeaux, onde morava, e a capital parisiense, onde estudava. O percurso era feito de bonde, e nestas ocasiões, ao lado de trabalhadores, o púbere Raymond sentava-se defronte a Maria, que vinha do cemitério em direção ao lar. Diante dos olhos dele, havia uma fêmea promissora das delícias do amor; diante dos dela, um fantasma do filho cuja morte ainda lhe mantinha vestida de preto. De início, nenhum dos dois tinha noção de que o que os unia não eram só aquelas viagens fortuitas, mas Paul Courrèges, pai dele e amante dela.

Como grande parte dos romances de Mauriac, a ação é gestada no seio de um típico lar burguês de traços aristocratizantes (bem à francesa), com homens proeminentes e não raro hipócritas, e mulheres submissivas e sofredoras. Mauriac constrói seu edifício literário de maneira ponderada e serena, com uma sensibilidade invejável, fornecendo às cenas e aos diálogos a cadência que os fazem mais expressivos e dotados de drama. Os arroubos são poucos e as sutilezas muitas, sendo que a narrativa ressalta com precisão os detalhes que interessam, deixando-os se impôr com todas as suas consequências.

A posição da mãe e esposa, Lucie, no tenso universo doméstico dos Courrèges é um belo exemplo disso. Ela é hostilizada pelo marido, deixada de lado pelos filhos e tratada condescendentemente pela sogra (que mora com a família), suportando o peso de não poder entrar em colapso para não comprometer a reputação e a respeitabilidade do clã. Como esposa exemplar e pia, range espiritualmente sob o peso da imagem que tem de sustentar, e todas as situações em que participa ressaltam sua inadaptação ao mundo do marido e dos filhos, por conta do papel de mãe cuja vida se restringe ao lar e à realidade doméstica.

Maria Cross é o contraponto dela. Na condição de viúva e mãe (antes que seu filho falecesse), buscou alguém cujo apoio lhe permitisse se sustentar, tendo encontrado ali Paul Courrèges, o respeitável médico bordelês. O sustento material provido por Paul era acompanhado pelo atendimento médico ao filho dela, mas vinha sob certas condições, dentre as quais a de tê-la como amante. O que demonstra o oco de sua reputação, e a deslealdade à pobre e cordata Lucie.

Num duro golpe, a morte se abate sobre o filho de Maria. A fatalidade desencadeia uma espiral de culpa sobre ela, que se desentende com Paul Courrèges na medida em que se recusa a despir o luto para pôr-se em trajes de núpcias. Alguns dias depois, voltando da vigília do túmulo de seu filho, é que ela começa a se relacionar com Raymond, sem saber que se tratava do herdeiro dos Courrèges. O amor de Maria por Raymond é de ordem maternal, desencontrado das intenções dele para com ela, já que este esperava tomá-la como sua guia no mundo do sexo, para cuja descoberta sua puberdade o impelia.

Estando o luto impedindo Maria de entregar-se aos desígnios lúbricos esperados tanto por Paul quanto por Raymond, ela sente-se ingrata àquele e culpada em relação a este, pois descobre suas origens familiares. Presa do destempero imperioso de pai e filho, tomados pela libido, ela percebe ter-se tornado o vértice de um triângulo amoroso abjeto, o que a faz tomar medidas desesperadas em relação ao pecado em que se vira lançada. Maria tenta suicidar-se.

No delírio do episódio, ela parece ter uma epifania que mostra a tragédia de sua situação, pois a gratidão que nutria por Paul (seu “protetor”) e o carinho por Raymond (avatar de seu filho perdido) parecem ter-se corrompido numa triste mundanidade profana das ambições e urgências pecaminosas deles:

– E agora lhe pergunto, doutor, que outra solução pode haver, além do sono? Tudo me parece tão claro agora! Compreendo o que não compreendia; os seres que nós acreditamos amar…esses amores que acabam tão miseravelmente…agora conheço a verdade… (…) Que loucura esperar atingir esse objeto!…Pense que não há nenhum outro caminho entre nós e esses seres do que o tocar, o abraçar…a volúpia, afinal! E contudo nós sabemos muito bem onde leva esse caminho, e por que ele foi traçado: para continuar a espécie, como o senhor diz, doutor, e somente para isso. Sim, compreenda, nós tomamos o único caminho possível, mas caminho que não foi traçado para aquilo que nós procuramos (…). O senhor sabe, doutor, quando se vê o relâmpago e se escuta o raio no mesmo segundo? Pois bem, em mim o prazer e o nojo se confundem, como o relâmpago e o raio: me atingem juntos. Não há intervalo entre o prazer e o nojo. (pp. 169-170)

A solução encontrada por Maria (amenizada pelo termo “sono” em vez de “morte”) aparece como um pico trágico poderoso aos olhos de Mauriac, católico convicto e sabedor da natureza pecaminosa do suicídio. A decisão dela resulta da constatação do “deserto do amor” que se forma e se adensa quando a vida é contida nela mesma, sem que haja algo que a transcenda; no caso de Mauriac, a crença numa centelha divina que nos habita e que nos permite ser mais do que seres carnais e materiais. O amor é um deserto, se torna vil e meramente carnal, pecaminoso, quando restrito no curto-circuito dos interesses mundanos, quando não se abre a algo mais do que sua imediaticidade material e sensível.

A gratidão de Maria a Paul e o carinho dela a Raymond poderiam tornar-se amor, mas não rompem sua materialidade lúbrica e pecaminosa mais imediata, tornando-se não fecundos (“prazer”), mas desérticos (“nojo”). Maria Cross é trágica porque encarna um dos conflitos fundamentais da literatura de Mauriac: até que ponto a vida com vistas à divindade inviabiliza a vida (degenerando em fanatismo, dogmatismo e impiedade) e até que ponto a vida mundana interdita a divina (tornando-se cinismo, hedonismo ou, mesmo, desespero). Como abraçar a joie de vivre sem deixar de lado as responsabilidades confessionais, como não adorá-las a ponto de tornar a vida um “pântano” odioso de pecado.

Mas há ainda algo mais. Ao escritor francês, e inscrito nos caracteres trágicos da trajetória de Maria Cross, o utilitarismo autocentrado e o hedonismo irresponsável dos Courrèges, patriarca e varão, redundam na mesquinharia desértica que é uma vida que não permite a transcendência. Isto torna os Courrèges pecadores mais devassos do que Maria: eles praticam conscientes o pecado e o justificam cinicamente, enquanto ela é enredada pelo pecado ao tentar alcançar o amor. Não é à toa que é sobre Maria que recai a solidariedade de Mauriac (Maria Madalena reloaded?), o tropeço no pecado no caminho em direção à virtude é o que a humaniza e, ao mesmo tempo, diviniza aos olhos do católico escritor francês.

O que Lucie Courrèges suporta calada, Maria Cross transforma em ação desesperada. Mas a fonte dessas atitudes não é muito diferente: advém de uma condescendência masculina entrelaçada ao utilitarismo do modo de vida burguês. E é isso, dentre outras coisas, que demonstra quão fecunda a fé religiosa se torna para a literatura dele: o rompimento com a moral pragmática burguesa, com a qual o escritor teve de se confrontar no seu caminho às letras, encontrando na religião uma abertura à transcendência que, apesar de seu ascetismo, oferece uma curiosa crítica à mesquinharia. Isto é, a religião oferece o escopo dentro do qual Mauriac desenha um humanismo piedoso dos que padecem com as implicações de uma existência rasteira, e oferece a ele o caminho não de uma vida de mortificação e penitência, mas de realização espiritual e de busca de uma plenitude existencial.

Curiosamente, Mauriac sai das demarcações existenciais estritas impostas pela moralidade pobre e castradora, encarnada no lar dos Courrèges, mas vai de encontro aos liames de outras demarcações, de ordem confessional. A religião se oferece a ele como uma ética que engrandece e que devolve a plenitude de sentido aos atos humanos, contrariamente à moralidade dominante, que os apequena e torna comezinhos seus interesses. A Mauriac, a religião é, finalmente, a linguagem que permite dar inteligibilidade e forma estética aos dramas e tragédias humanas, seja na silenciosa paciência (de Jó) de Lucie, seja no mergulho transido de Maria (Madalena) no coração dos dilemas de uma fé que se queira consequente a deus e aos homens, à alma e à carne ao mesmo tempo. Afinal de contas, é por meio do pecado de desejarem afoitamente a mesma mulher que Paul e Raymond voltam a se falar, e é a partir dele que Paul resolve redimir-se em relação a sua pobre mulher.

A superação do materialismo burguês e a busca por uma genuína solidariedade humana passam pela fé católica, a qual, aos olhos de Mauriac, permite superar o “deserto do amor” das paixões mundanas sem, com isso, deixar de tomá-las como vida real. François Mauriac é, ao fim e ao cabo, um humanista coerente ainda que muito idiossincrático, a quem a busca de uma fruição existencial não obstruía, mas se coadunava com os mistérios do crer – questão essa que acabou por tornar-se um dos mais poderosos núcleos de elaboração estética de sua obra.

Um comentário para “As vicissitudes religiosas de François Mauriac

  1. Recentemente quase comprei este livro de Mauriac. Estava com minha filha e lhe disse naquela ocasião que conhecia o autor, mas que nunca lera uma obra sua. Contudo, o título e a sinopse do livro me agradavam. Pesquisando na rede sobre Mauriac, fui presenteado com essa excelente resenha de Deschain que também não conhecia os escritos. Enfim, tive a dupla felicidade de conhecer duas boas letras, ou seja, vou comprar Mauriac e seguirei as resenhas de Deschain. Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *