O que deu para escrever em matéria de Elvira

em 20 de agosto de 2018

Eu finjo para mim mesmo que estou a caminho do museu porque acordei cedo e tenho tempo, porque é a primeira terça em muito tempo que não vou para o divã, porque é dia de entrar de graça no Masp. Sem coragem para a fila da exibição especial, ziguezagueio pela permanente a passos largos até encontrar as bailarinas de Degas, tanto as pintadas quanto a esculpida.

Meus contos, que também nunca são escritos, são experiências vividas. Momentos em que fiquei frente a frente com uma quebra de estrutura, com o impronunciável, o não passível de ser entendido.

Eu não sou Elvira Vigna. Para mim, é difícil não criar narrativas o tempo todo, não roteirizar o que deve acontecer a cada instante. Nada é espontâneo. Se estou na frente das bailarinas é para me emocionar lembrando de seu ensaio “Tentativas sobre o conto: as estatuetas de Degas” (de onde tirei o trecho), ou de sua fala na Semana Literária do Sesc-PR sobre arte: “as pessoas esperam bailarinas de tutu na rua, dançando Tchaikovski, pessoas aplaudindo; se apegam a um ideal que não corresponde ao mundo de hoje” (citação livre, o que a memória permitiu).

Não choro, mas não estou aqui para isso. Ou apenas para isso: sim, eu queria chorar um pouquinho. E talvez o faça mais pra frente, mas esse não é o ponto. Estou aqui também para me aproximar dela. E quase dá pra senti-la do meu lado dizendo que isso é ridículo, que seria bem melhor ler algo dela.

Faço isso e me dou conta de que, tantos anos depois, a lembrança não fazia jus ao texto. Lembrava de Degas, mãos sem acabamento, feminismo e cafés com Felipe, um amigo do mestrado, em que só fazíamos repetir “como Elvira é foda”. Elvira Vigna, aliás: na época, tinha zero intimidade. No ensaio, ela fala sobre quebras de estrutura, mote de sua literatura.

Não escrevo contos. Escrevo romances. Mas, na origem de cada um, há uma imagem dessas. Que não consigo esquecer, que volta e volta. Algo nelas é a parede, o silêncio, é a minha impossibilidade não só como escritora, como pessoa. É sobre isso que escrevo.”

O massa de roteirizar tudo é que não há muito espaço para o desconforto: a gente surta, mas não perde o controle. Mesmo temas mais incômodos são usados em favor do arco dramático. Se já falei sobre a morte em um texto ou outro, sempre foi com distanciamento, sem senti-la propriamente. Eu costumava até falar que havia uma redoma ao meu redor: quem realmente importava para mim nunca morria.

Há um ano Raquel me ligou e perguntou como eu me sentia. Eu entendi de imediato do que ela estava falando. Antes do obituário eu não tinha com quem desabafar (em respeito à decisão de Elvira e da família); depois, me peguei com nada a dizer. Não é como se desabafar desse conta, sabe? Na hora da quebra – de estrutura, de redoma –, quando ocorre o impronunciável, o peito não alivia ao encontrar os amigos e falar “puta que pariu, Elvira morreu”.

Se falar não alivia, escrever talvez. Desempregado, tempo não me faltava. O mais perto que cheguei de escrever algo foi um pré-projeto de doutorado que nunca foi submetido para avaliação e isto aqui. Não tinha conseguido até agora.

“E no entanto eu tento.”

Como leitor, aprendi a ser grato por quem encontra as palavras que não temos. Nesse ano sem escrever, ler os textos de Pedro Taam (“O legado de Elvira Vigna”), Maria Emilia Bender (“O que deu para fazer em matéria de obituário”) e Schneider Carpeggiani (“Há 30 anos, Elvira Vigna estreava na escrita”) foi como me sentir abraçado. Enquanto houvesse pessoas especiais escrevendo sobre ela, eu podia me sentir menos lixo por não fazer o mesmo.

Foi apenas com um texto de Eric Novello (“Elvira Vigna: o afeto”) que me dei conta da diferença entre o que eu tinha rascunhado – o pré-projeto de doutorado mais confuso que a USP teria recebido em décadas – e o que eu posso (ou quero) escrever. Eric escreve:

Elvira Vigna tinha o coração do tamanho do seu talento, e ela é uma gigante da nossa literatura. Poder conviver com ela quando eu era apenas um moleque dando os primeiros passos como autor foi um tremendo privilégio e sempre serei grato por isso. Lembro de uma vez em que estava me sentindo perdido com pressões de mercado, escrever isso ou aquilo, o que vende e o que não vende, naquela ansiedade que às vezes engole a gente sem motivo, e a Elvira me falou: ‘É o afeto, são as pessoas, é isso que importa. O resto é só o resto’.”

Desse privilégio imenso eu entendo. Se um “oi” descompromissado virava um convite dela para um café ou almoço, era só disso que eu conseguia falar com a Manu quando voltava para Curitiba – mesmo quando a razão principal para estar em São Paulo era “fazer uma escala até a Flip”. E isso era suficiente, já era bem mais do que eu podia esperar. Mas sobre esse tremendo privilégio eu posso escrever – ainda que não consiga direito – porque Elvira fez questão de me dar voz.

Mas tentamos. Não fazemos outras coisa além de tentar. Nunca dá certo. E tentamos outra vez, com outra quebra, e mais outra. Mas são todas iguais, as quebras. O assunto dos contos é sempre o mesmo. É a quebra. E ela não é dizível.

Em 2015 mudei para São Paulo pra aprender a me virar sozinho. Mas era um “me virar sozinho” capricorniano (ou seja, com um pé-de-meia feito durante o mestrado) com ascendente em Peixes e lua em Câncer (ou seja, cheio de gente maravilhosa me apoiando). E nessa empreitada não tive do que reclamar: a família construída aqui teve a melhor curadoria. Nunca imaginei que seria assim, mas Elvira se tornou uma parte importantíssima dessa família. Sendo o monstro literário que ela é, não precisava também ser um ser humano incrível. Mas era.

Fingi durante um tempão que eram outras as razões para a necessidade de me virar: tentar um doutorado sanduíche no exterior e não estar totalmente despreparado para a experiência; me dedicar mais à literatura e escrever um romance num teto todo meu; fazer um breve intercâmbio numa das maiores cidades do mundo antes de voltar pro Nordeste e estudar para concurso público. Não foi preciso pensar muito para perceber que aprender a me virar sem a família não passou de uma forma de garantir o chão quando não houvesse mais ela.

Porque às vezes todo mundo morre num acidente e você está sozinho. E porque às vezes é você quem morre pras pessoas que diziam amá-lo incondicionalmente, quando você deixa de esconder que é LGBT, de lutar contra isso e de dormir todo dia pedindo perdão por existir.

Elvira estava lá quando precisei. Quando o coração apertava pela possibilidade de mãinha cortar laços depois que eu saísse do armário, ela estava lá – e também estava quando eu só queria comemorar que ainda tinha mãe e pai, mesmo com as ressalvas religiosas. E não apenas: bem mãezona, ela marcava nossos cafés com bolo pra conferir tanto se eu estava comendo direitinho, quanto o que eu andava lendo, para saber se eu tinha resolvido tocar o foda-se para o emprego merda e se eu não estava esquecendo de usar camisinha. Para saber se eu estava bem.

Quando Elvira morreu, a dica mais preciosa que me deram foi: pensa no privilégio de tê-la conhecido e em todos os momentos bons que passaram. Parecia que após uma reunião secreta todo mundo acordou o discurso. Como diria Taylor Swift, “the rumors are terrible and cruel, but, honey, most of them are true”: os clichês têm sua verdade.

Privilégio é isso: não tem nada a ver com merecimento. Eu consigo citar sem titubear pelo menos sete pessoas que, se me acompanhassem, fariam do café com bolo um encontro que merecia ser gravado pra posteridade.

Pode, sim, ler Elvira Vigna imaginando que suas narradoras são ninjas que não se cansam de distribuir voadoras na nuca do patriarcado.

Eu não tenho certeza alguma, mas acredito que a última vez que ela me chamou foi após ler uma resenha minha para O amor dos homens avulsos, do Victor Heringer. Como de costume, ela fazia questão de ler meus textos; comme d’habitude, eu não me contentava em falar do livro a ser resenhado e escrevia sobre o que me desse na telha – o que incluía outros livros. E se eu queria falar de Elvira, então no meio da resenha tinha Elvira, por que não?

Ela tinha sumido por um tempo – sempre respeitei esses sumiços, ela sempre dava sinal de vida quanto estava melhor – e queria marcar um bolinho. Eu já tinha me acostumado com esses encontros e desligado o modo escritor da cabeça: em vez de anotar mentalmente tudo que acontecia ali, eu apenas desfrutava da companhia. Sempre haveria outros cafés com bolo. Ela sentiu que citá-la na resenha, do nada, foi como um carinho.

É nisso que me agarro nos dias em que me sinto um lixo, por não lembrar de tudo, por não ter prestado mais atenção nos silêncios. E nos dias que estou tão cansado que esqueço por um instante que não tenho mais como marcar um café com bolinho e falar do novo emprego, do contrato de aluguel com meu nome, dessa sensação de que agora vai. Isso: talvez um pouco de bem eu tenha feito a ela – mesmo que bem pouquinho quando comparado ao bem que ela fez a mim.

Mas tentamos.”

Quando comecei a resenhar literatura contemporânea brasileira, entrei numa onda completista, por assim dizer: para falar com propriedade a respeito de um autor, precisava ler sua obra completa. Conheci Elvira mais tarde – alguns dos escritores que “completei” já não me interessavam – e fui aos poucos lendo sua obra de trás pra frente, sempre comentando com ela. O último dela que li foi Coisas que os homens não entendem, de onde veio o trecho que segue.

E você vira o copo e estende o copo para o garçom, parado ao seu lado, que enche o copo outra vez, fodida, fodida e meio, para continuar a viver tem de começar, primeiro isso, o vinho, depois se vê o resto, é o primeiro de janeiro, caralho, Vavá, bebe comigo.

Nada que eu escreva estará à altura dela, mas um pensamento alivia esse instinto completista, que mais me paralisa do que incentiva: Elvira me marcou de tantas formas que este não precisa ser (e não será) meu único texto sobre ela.

E para continuar, sabe: tem de começar.

 

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