Crítica: A Bruxa

Fazer um filme de gênero é filmar dentro das expectativas. Um gênero é, na verdade, exatamente isso: um quadro de expectativas dentro do qual se pode encaixar um filme. A questão é que um filme dentro demais das expectativas perde a graça, enquanto um que as subverta demais escapa ao gênero.

A Bruxa é um filme de gênero e, mais que isso, um filme que se insere firmemente em uma tradição. Histórias de bruxas e, principalmente, histórias a respeito de mulheres julgadas injustamente como bruxas são quase um gênero em si, indo muito além dos filmes de terror e A Bruxa consegue articular essas duas tradições de forma bastante eficiente.

Logo no início, o filme estabelece que bruxas de fato existem em seu universo e o terror vai além do psicológico. Contudo, a impressão interna, a paranoia e mesmo a histeria nunca estão fora da possiblidade. Todos os acontecimentos realmente foram orquestrados pela bruxa? Ou parte deles é apenas coincidência? Algumas das reações da família não podem ser simplesmente histéricas, apesar da existência real de poderes demoníacos? Ao estabelecer essas ambiguidades, o filme estabelece um jogo de expectativas que é boa parte do que o sustenta.

O longa tem como protagonista Thomasin, a filha mais velha de uma família de puritanos que é expulsa da comunidade onde vivem. Isolados nas fronteiras da floresta, eles entrarão em contato com forças ocultas e, mais que isso, com a corrupção da própria família.

Na primeira cena, no tribunal que expulsa a família, Robert Eggers evoca as ideias normalmente associadas ao puritanismo: vigilância, fundamentalismo, intolerância. Aos poucos, conforme a família passa mais tempo fora da sociedade de controle, essas ideias vão se desconstruindo e o que emerge é um ambiente em que a natureza e suas forças estão prontas para tomar conta.

Eggers sabe o que se espera de uma história sobre o protestantismo mais radical e ele entrega suas referências com perfeição: Arthur Miller, A Paixão de Joana D’arc, A Fonte da Donzela. Os supercloses vistos ligeiramente de cima são mais que uma homenagem a Dreyer, são um anúncio do que está em jogo no filme: o sofrimento e redenção de uma jovem.

Thomasin passa a ser hostilizada por sua mãe quando Sam, o bebê da família, desaparece na sua frente. Não parece ser gratuita a escolha de uma menina de aparência angelical e longos cabelos loiros, em contraste com a mãe magra demais, envelhecida antes do tempo. Como em qualquer história de bruxas, existe aqui uma narrativa a respeito da sexualidade feminina e sua repressão. É o sexo que leva o irmão de Thomasin a ser possuído pelo demônio, uma desgraça anunciada pelos olhares que ele já havia lançado à irmã. A desgraça, A Bruxa parece dizer, é inevitável.

O que acontece com a família é uma consequência de seus próprios defeitos e do universo que tentam criar. A vitória da natureza já está anunciada na fala do pai: a natureza humana é ruim, nascida para o pecado, é preciso uma intervenção divina para salvar-se da danação. E o espectador espera que a narrativa lhe dê essa intervenção, mas, de forma paradoxalmente surpreendente, ela entrega exatamente o que foi anunciado.

Não há sustos ou reviravoltas em A Bruxa, mas uma atmosfera constante de contaminação e decadência. Uma claustrofobia cada vez maior que explode em um final cruel e redentor. Não é um filme de terror que olha para seus antecedentes mais próximos, os filmes de assassinato dos anos 90, mas busca sua tradição muito anterior, quando um filme como O Bebê de Rosemary seria considerado terror.

Quando o longa estreou em Sundance se falou muito em um renascimento do gênero. Já fora da cartela dos grandes estúdios, o terror poderia encontrar seu lugar no cinema alternativo, onde os orçamentos menores permitiriam mais ousadia e abordagens mais autorais. Isso funciona aqui: são as camadas e a ausência da tensão no sentido comum que tornam A Bruxa um filme eficiente. É sua crueza e aparente simplicidade (aparente apenas, os cuidados estéticos são primorosos), sua apresentação como uma “história folclórica” que tornam o filme perturbador.

Uma história folclórica é uma história que releva algo sobre o universo que habitamos. Uma lenda é uma forma mítica de explicar o estado das coisas. Uma história que fala do medo da sexualidade feminina, da repressão e a respeito da vitória da natureza sobre uma humanidade corrupta ganha uma força excepcional quando vendida com essa roupagem.

Ao final, A Bruxa é um filme extremamente bem feito. A riqueza de referências e cuidado estético permitem a construção de uma metáfora que, ao mesmo tempo que transcende o gênero, confirma suas formas mais antigas. O terror de A Bruxa é o terror do expressionismo alemão e é excelente ver que ele ainda pode ter fôlego.

Crítica: ‘Que Horas Ela Volta?’

O quartinho, geralmente pequeno, pouco arejado e escondido no espaço residencial, é um elemento simbólico das práticas de desigualdade e exclusão que envolvem aquelas que exercem a profissão de empregada doméstica. Tão comum nas casas e apartamentos das classes alta e média nas metrópoles brasileiras, tal quartinho delimita a fronteira entre o “nós” e o “elas”, mesmo que muitas vezes a faxineira, babá ou empregada seja considerada “quase da família”. Não nos enganemos: o “quase” aqui não é mero apêndice, mas finca uma distância, pois quem é quase, de fato não o é.

Que horas ela volta?, filme nacional dirigido e roteirizado por Anna Muylaert, é mais do que um filme: é uma tese. Seu discurso envolve análises sobre o comportamento das elites metropolitanas e a desigualdade brasileira, mas também sobre algumas das mudanças sociais em curso no Brasil nessas últimas décadas. Quase como que seguindo um modelo de artigo acadêmico, divide-se em partes bem delimitadas, com uma introdução que revisita as estruturas de hierarquia como já as conhecemos, passando à chegada de um elemento novo que desagrega e incita mudanças, depois à tomada de consciência que leva a novos comportamentos – provocando reações dos que querem conservar a velha ordem – e assim por diante, até uma conclusão que se permite otimista e até mesmo, por que não, com um quê de poética.

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Crítica: Homem Irracional

Woody Allen é possivelmente o maior obsessivo da história do cinema. Ao longo de cinquenta anos de carreira, em um ritmo de um filme por ano, o diretor trabalhou os mesmos temas repetidamente, tentando investigar as implicações das questões que o angustiam.

Dois dos grandes temas de Allen são como encontrar sentido para a vida em um mundo sem sentido e como, nesse mundo sem sentido, manter as balizas morais. O espectador atento já sabe o que deve acontecer quando um homem desiludido encontra uma garota jovem, ou quando um personagem aparece com uma cópia de Crime e Castigo em mãos.

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A lenta e agonizante morte dos DVDs

Ainda me lembro do primeiro DVD que ganhei: uma edição dupla da animação Monstros S.A. (2001). À época eu tinha nove anos (uau, quanto tempo!) e adorava brincar com um joguinho do disco de extras, no qual se podia passear por todo o cenário da história operando um cameraman (um monstrinho bem ao estilo do filme). O mais legal era quando passávamos em frente a um espelho e podíamos ver o tal monstrinho refletido nele. Era uma diversão só. Boba, pueril, mas que contribuiu para um aspecto importante da minha cinefilia, o de colecionar filmes.

Desde pequeno eu não me contentava em assistir apenas uma vez aos filmes de que gostava, sempre querendo revê-los, mas diante de uma limitada programação na TV aberta e de uma ainda insípida TV a cabo, a compra de DVDs me apareceu como uma alternativa. Diligentemente organizadas num sistema que só faz sentido na minha cabeça, minhas caixinhas estão aqui, expostas em zona nobre: a trilogia remasterizada de O Poderoso Chefão (parcelado em um punhado de meses, quando eu era estagiário e ganhava um salário de fome) descansa logo acima de uma edição especial de A Malvada; Watchman pode ser visto logo abaixo de Missão: Impossível 1; Gritos e Sussurros disputa espaço com Orfeu do Carnaval; e por aí vai, um paredão de mais de trezentos títulos comprados em um longo período de dedicação e dispêndio, de irresponsabilidade com o uso do cartão de crédito da mamãe (“Mais um filme, Viníciusssss?!”) e, posteriormente, de salários do estágio, do emprego, do job, do bico e da bolsa universitária.

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Crítica: Enquanto Somos Jovens

Noah Baumbach é um cineasta das crises. Das pequenas crises, inevitáveis, universais, humanas. Seu primeiro filme a alcançar notoriedade, A Lula e a Baleia, falava de uma família lidando com o divórcio. Não um divórcio com grandes traumas e reviravoltas, apenas uma família de classe média do Brooklyn lidando com seu esfacelamento, natural, superável, mas não menos dolorido.

Mais recentemente, Frances Ha ganhou de forma afetiva as centenas de jovens que se identificaram com ela: sem dinheiro, mas com uma família próspera suficiente para ajudar; aprendendo a trivial, mas ainda assim dolorida, realidade de que não se pode ser tudo o que quiser.

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Crítica: “Dívida de Honra” – Mulheres no Velho Oeste

Ao me deparar com o faroeste dirigido e estrelado por Tommy Lee Jones, confesso que de início senti certo desânimo e sono, e é a isso que se pode creditar o atraso desta crítica, escrita cerca de um mês depois da estreia do filme no Brasil, e a seu fraco desempenho de bilheteria, tendo rendido mundialmente cerca de U$ 2,5 milhões diante de um orçamento estimado em U$ 16 milhões1. Mas vamos combinar: sabemos que o ator não é muito afeito à vivacidade, sua própria carreira foi construída em torno dessa persona sisuda e de pouca paciência, em filmes como O Fugitivo (1993) e Onde os Fracos Não Têm Vez (2007). Credita-se a ele, inclusive, certa confissão de não se achar dotado de nenhum senso de humor e, por isso, não achar graça em nada. Assim, fica um pouco difícil pensar um momento adequado para assistir a esse filme (domingo à tarde nem pensar!) sem correr o risco de cochilar nos primeiros minutos.

Porém, pensando mais a fundo, lembramos que muitas vezes ele parece ter se esforçado em tentar nos surpreender, mesmo que incorporando um histriônico Harvey Dent/Duas Caras no ruim Batman Eternamente (1995) ou, mais recente, fazendo a insossa comediazinha romântica Um Divã para Dois (2012), com Meryl Streep.

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  1. Fonte: Imdb.

Crítica: ‘Mad Max: Fury Road’ – Who killed the world?

O primeiro filme da saga Mad Max data de 1979, uma produção australiana com menos de um milhão de dólares de orçamento, dirigida pelo estreante George Miller e estrelada por um desconhecido Mel Gibson. A produção era tão precária que de todo o elenco, só Max vestia roupas de couro legítimo, e os carros, tão logo passavam por batidas e capotamentos nas cenas de ação, eram submetidos a rápidos reparos e uma nova camada de tinta para servirem a outras cenas (em algumas sequências é realmente possível ver a tinta fresca se descolando das latarias). Ainda assim, nada disso impediu que o filme se transformasse imediatamente em um clássico, lançando seu protagonista, à época com 21 anos, à categoria de astro e inspirando duas continuações memoráveis. Rendendo mais de US$ 100 milhões ao redor do mundo, Mad Max passou décadas no topo da lista dos filmes mais rentáveis da história, até ser superado por A Bruxa de Blair em 19991.

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  1. Fonte: BOSCOV, Isabela. Mad Max. In: Cinemateca da Veja. Abril Coleções. São Paulo: 2008

Crítica: O Sal da Terra

À primeira vista, há algo de  curioso na forma aparentemente fluida com que Wim Wenders transita entre a ficção e o documentário: sua ficção é pouco realista, de narrativas soltas, planos longos, tempos esticados e estética rebuscada. Todos os recursos que afastam um filme da realidade, todas as preferências que teoricamente afastariam um cineasta do cinema do real. E que de fato, de alguma maneira, afastam. O Wim Wenders documentarista não está interessado no real, mas nos seres humanos que escapam a ele.

Seu primeiro documentário, Um Filme Para Nick, situa-se nos limites do gênero, forçando suas fronteiras. Não é um filme sobre Nicholas Ray nem, apesar do título, um filme para ele. É um filme sobre Wim Wenders para Wim Wenders, para que ele trabalhe a imagem que tinha do amigo e cineasta. Seus documentários seguintes todos são retratos do fazer artístico, do trabalho que leva um homem para além do cotidiano, do ordinário, do real.

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Êxodo audiovisual

Fernando Meirelles, diretor paulista de Cidade de Deus (2002) e Ensaio Sobre a Cegueira (2008), entre outros, sempre foi um dos meus realizadores prediletos. Enxergo nele uma capacidade rara para unir elegância estética e sensibilidade humana, em temas e histórias quase sempre muito próximas à realidade brasileira, levadas à grande tela em projetos ambiciosos que quase nunca decepcionam o seu público1.

Embora já prestigiado no mercado, suficientemente conhecido para arrebanhar nomes de peso para seus projetos, há tempos o realizador vem demonstrando cansaço diante do tour de force de se fazer um filme, especialmente para aqueles que, como ele, seguem pelo caminho independente, não oficialmente atrelados a um grande estúdio. Para estes, o processo de captura de recursos torna-se uma exaustiva batalha, uma luta em tentar se inserir em algum edital estatal de fomento ou conquistar parcerias no setor privado – que ainda se mostra resistente ao investimento no Cinema, dado o baixo retorno comercial. No Brasil, o cenário é ainda mais desanimador, com milhares de casos de realizadores em situações ainda mais precárias, justamente por não contarem com o mesmo prestígio internacional de Meirelles, um indicado ao Oscar.

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  1. À exceção talvez do fraco 360, de 2011, que não funcionou mesmo contando com um elenco estelar, incluindo Anthony Hopkins, Rachel Weisz e Jude Law.

Na cama com Paul Thomas Anderson

Há quem diga que não há amor em SP, mas não foi essa a minha experiência. Quando soube que mais um nordestino estava vindo para ficar, a cidade resolveu que me daria as boas-vindas de forma inusitada: uma madrugada cinematográfica com um dos meus diretores favoritos.

Segundo a tradição do cinema Belas Artes, a terceira (ou seria a penúltima?) sexta-feira do mês é dia de maratona noite adentro. Os filmes escolhidos não são aleatórios: ou têm o tema em comum ou pertencem à filmografia do mesmo diretor. Três coisas são certas: pelo menos uma das sessões é uma incógnita – ninguém sabe qual filme será exibido; quando o último filme termina, o metrô já voltou a funcionar; e os bravos que ficam até o final ganham um lanchinho a título de café da manhã.

No dia 20 de março de 2015, foi no Noitão – nome do evento – que se deu a pré-estreia do último filme de Paul Thomas Anderson, Vício Inerente. As três salas que o exibiram projetaram, logo depois, dois outros filmes do diretor – cujos títulos só foram revelados pouco antes da primeira sessão começar. Leia mais

Crítica: Cinquenta Tons de Cinza

O cinema sempre é, de certa forma, uma arte de sedução. Construir um filme é manipular o espectador, envolvê-lo, convencê-lo a aceitar sua história, a levá-la pra casa, dormir com ela, guardá-la na memória. O que torna um filme memorável é seu sucesso em conquistar o espectador.

É por isso que o desejo parece ser um material mais interessante para o cinema do que o sexo em si. Filmes como Amor à Flor da Pele e A Noite tornaram-se clássicos por conseguir imprimir na tela toda a tensão entre seus personagens.

Cinquenta Tons de Cinza é essencialmente um filme sobre sexo. Claro que existe uma trama, personagens, conflitos e diálogos, mas o que fez milhões de pessoas lerem o livro, e o que deve levá-las ao cinema, é o sexo. Leia mais

OSCAR 2015: Palpites

por Tiago Salvestrini Franceschini

É chegada a hora dos Oscars e, como bons cinéfilos (e palpiteiros) que somos, não poderíamos deixar de arriscar quais serão os laureados na cerimônia do dia 22 próximo, até porque acertamos todos ano passado nas categorias que nos propusemos a chutar.

Essa é uma cerimônia, aliás, que promete barbadas e algumas surpresas pontuais, a começar pela acirrada disputa entre Boyhood e Birdman. Se houver um novo descasamento entre Melhor Filme e Melhor Diretor, será a segunda vez na história que esse fato acontece três anos consecutivos (a primeira vez foi no triênio 1936 a 1938). Além disso, é a primeira vez que os maiores indicados – nove para cada um – são filmes classificados como comédias. Aos palpites:

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