A lenta e agonizante morte dos DVDs

Ainda me lembro do primeiro DVD que ganhei: uma edição dupla da animação Monstros S.A. (2001). À época eu tinha nove anos (uau, quanto tempo!) e adorava brincar com um joguinho do disco de extras, no qual se podia passear por todo o cenário da história operando um cameraman (um monstrinho bem ao estilo do filme). O mais legal era quando passávamos em frente a um espelho e podíamos ver o tal monstrinho refletido nele. Era uma diversão só. Boba, pueril, mas que contribuiu para um aspecto importante da minha cinefilia, o de colecionar filmes.

Desde pequeno eu não me contentava em assistir apenas uma vez aos filmes de que gostava, sempre querendo revê-los, mas diante de uma limitada programação na TV aberta e de uma ainda insípida TV a cabo, a compra de DVDs me apareceu como uma alternativa. Diligentemente organizadas num sistema que só faz sentido na minha cabeça, minhas caixinhas estão aqui, expostas em zona nobre: a trilogia remasterizada de O Poderoso Chefão (parcelado em um punhado de meses, quando eu era estagiário e ganhava um salário de fome) descansa logo acima de uma edição especial de A Malvada; Watchman pode ser visto logo abaixo de Missão: Impossível 1; Gritos e Sussurros disputa espaço com Orfeu do Carnaval; e por aí vai, um paredão de mais de trezentos títulos comprados em um longo período de dedicação e dispêndio, de irresponsabilidade com o uso do cartão de crédito da mamãe (“Mais um filme, Viníciusssss?!”) e, posteriormente, de salários do estágio, do emprego, do job, do bico e da bolsa universitária.

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Crítica: ‘Mad Max: Fury Road’ – Who killed the world?

O primeiro filme da saga Mad Max data de 1979, uma produção australiana com menos de um milhão de dólares de orçamento, dirigida pelo estreante George Miller e estrelada por um desconhecido Mel Gibson. A produção era tão precária que de todo o elenco, só Max vestia roupas de couro legítimo, e os carros, tão logo passavam por batidas e capotamentos nas cenas de ação, eram submetidos a rápidos reparos e uma nova camada de tinta para servirem a outras cenas (em algumas sequências é realmente possível ver a tinta fresca se descolando das latarias). Ainda assim, nada disso impediu que o filme se transformasse imediatamente em um clássico, lançando seu protagonista, à época com 21 anos, à categoria de astro e inspirando duas continuações memoráveis. Rendendo mais de US$ 100 milhões ao redor do mundo, Mad Max passou décadas no topo da lista dos filmes mais rentáveis da história, até ser superado por A Bruxa de Blair em 19991.

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  1. Fonte: BOSCOV, Isabela. Mad Max. In: Cinemateca da Veja. Abril Coleções. São Paulo: 2008

As modas e bodas do Hades

Lá estava a vasculhar e eis que vejo que Antonioni tinha vontade de fazer um filme em terras tupiniquins. Mês retrasado – fazer comentários sobre as coisas no calor do momento em que surgem e a capacidade de atualização andam lentas, algo que talvez se adeque a este texto – vi um artigo de Orlando Senna comentando sobre um projeto irrealizado de Antonioni em Brasília. No texto, Orlando fica sonhando com o projeto de Antonioni, Monica Vitti andando a esmo pelo palácio do planalto, comenta de como Welles faria a fita do Monsieur Verdoux, que no final caiu nas mãos de Chaplin. E eu penso: e não é que é? Os filmes que ficam na gaveta nos deixam às vezes mais horas imaginando do que vendo os filmes que saíram dela. Leia mais

A tristeza do palhaço

Que ano nefasto esse 2014. Que ano sombrio, especialmente às artes, em que as mortes sucedem-se como os dias e a tristeza por um já se torna tristeza por outros, antes mesmo de as lágrimas secarem. Na Literatura, Suassuna, Rubem Alves e João Ubaldo foram-se numa só semana, juntando-se a Gabriel Garcia Márquez. No Cinema, além das velhinhas Alicia Rhett (de …E O Vento Levou) e Lauren Bacall (O Espelho Tem Duas Faces), também se foi Shirley Temple, a eterna criança da Era de Ouro de Hollywood. Gabriel Axel, diretor oscarizado por A Festa de Babette, Maximillian Schell, ator premiado por Julgamento em Nuremberg e o vanguardista Alain Resnais (Vocês Ainda Não Viram Nada). O Brasil também perdeu os seus: os cantores Nelson Ned e Jair Rodrigues, o ator e diretor José Wilker (Giovanni Improtta), a vedete Virginia Lane, o ator Paulo Goulart e o diretor Eduardo Coutinho (Cabra Marcado Para Morrer), numa morte triste, besta, trágica, da mesma forma e no mesmo dia em que nos deixou o fabuloso Phillip Seymour Hoffman, um ator que ainda podia nos dar tanto. E justamente neste momento em que escrevo o adeus do Posfácio a Robin Williams, um ator que tanto nos alegrou, me choco com a tragédia aérea que levou o candidato à presidência, marido e pai de cinco filhos, Eduardo Campos. Que ano nefasto esse 2014 – e ainda nem acabou.

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E. Greco inventa A. Bioy Casares

“No abundaré sobre los peligros que acechan a esta isla, a la tierra y a los hombres, en el olvido de las profecias de Malthus; en cuanto el mar, hay que decir: en cada uma de las grandes mareas he temido el naufrágio total de la isla; en un café de pescadores, de Rabaul, oí que las islas Ellice o de las lagunas son inestables, unas desaparecen y otras emergen. (¿Estoy em ese arcuipiélago? El siciliano y Ombrellieri son mis autoridades).”  1

La invención de Morel é um romance de Adolfo Bioy Casares (1914-1999) sobre um condenado à morte que desembarca numa ilha um bocado enfermo. Emídio Greco (1938-2012), diretor Italiano, faz a sua versão de Bioy. O condenado não tem nome. Na ilha ele encontra construções um tanto estranhas. Uma piscina, um museu e uma igreja (que não se mostra no filme).

Na introdução do livro a que tive acesso, há um prólogo por Jorge Luis Borges (1899-1986) defendendo o livro de Bioy como perfeito, num século em que há primazia de tramas, e que nenhum século teve novelas de tão admiráveis argumentos como The Turn of the Screw, Der Prozess, The Invisible Man, Le voyageur sur la terre e “como esta que há logrado en Buenos Aires, Adolfo Bioy Casares2. Se o temor de transcorrer em prematuras ou parciais revelações o proíbe de examinar o argumento e as muitas sabedorias da execução de Casares, não julgo eu poder falar muito sobre o argumento da(s) obra(s). Leia mais

  1. BIOY CASARES, Adolfo. La invención de Morel. Buenos Aires, Argentina: Emecé editores S.A 2000, p. 121.
  2. Idem, p. 13.

Estrangeiro até a unha coçar a poeira

por Stefano Calgaro

Luchino Visconti faz seus filmes com um talentoso malabarismo entre a ópera (não só como quem dirige uma ópera, mas como um grande romance orquestrado) e o compromisso histórico. Visconti é aquele que sempre soube fazer seus filmes em adaptações literárias: Thomas Mann, Dostoiévski, Camus, Lampedusa, James L. Cain, salvo raras exceções em que o roteiro era apenas baseado em algum fato que o interessasse, geralmente de teor político. Há um certo panorama estilístico que se faz em seus filmes, como um leque que se abre, de modo que um historiador ou pesquisador da obra de Visconti ficaria tentado em separar seus filmes em fases, mas possivelmente aberta a uma separação em sua variação estética em relação ao tema. E daí ele se depara com um pedregulho no meio do caminho, chamado O Estrangeiro (L’Étranger, 1967).
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Nothing but a killer of sheep

por Stefano Calgaro

Após 12 Anos de Escravidão – filme que deu a sensação de necessário –, ficou aquele incômodo – inteiramente pessoal – do filme não ter ligação direta com o presente. Não sei por que, queria que o filme tivesse essa relação, da mesma forma que tem Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade: de ser o mesmo governo (ou forma de), que enforcou Tiradentes e os outros inconfidentes, aquele que, em sua contemporaneidade, instaura a ditadura, tortura, prende e mata para que seu poder não seja afetado, mas, ironicamente, agora celebra a Inconfidência; que a revolta reprimida antigamente seja compreendida para que as de sua contemporaneidade não sejam reprimidas, e a escandalosa força revolucionária do passado – citando Pasolini – não caia na inércia.

Então ficou aquela coisa na cabeça de o que vem de muito longe pode perder o impacto, cair na inércia e não nos atingir com tanta força para compreensão da nossa contemporaneidade. Não que 12 Anos não tivesse esse impacto e explicasse muito da contemporaneidade, mas não estava lá no filme essa ligação direta. Então me lembrei dos filmes que surgiram, direta ou indiretamente, por causa da escravidão nos Estados Unidos e suas consequências, pulando O Nascimento de uma Nação (durante a escravidão), O Cantor de Jazz e To Kill a Mockingbird para chegar na década de 70 e 80. Chego em Nothing But a Man e Killer of Sheep.

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Oscar 2014: Comentários

Domingo, 2 de março de 2014. No Brasil, domingo de carnaval, de desfile na Sapucaí e Bloco da Preta. Em Los Angeles e no mundo cinéfilo, dia da entrega dos 86° Academy Awards, no Dolby Theatre. E os Oscars foram para: Leia mais

A Fênix Lusitana de Bressane

por Stefano Calgaro

 

Sermões: a história de Antônio Vieira. O filme foi feito à maneira de Júlio Bressane, gravando filmes em pouquíssimos dias: este foi idealizado em 12/13 anos, mas gravado em 11/13 dias. E olha que conta no elenco Othon Bastos, José Lewgoy, Haroldo de Campos, Caetano Veloso, Paulo César Saraceni e mais algumas personalidades. Melhor ator (para Basthos) e melhor direção no festival de Brasília de 89.

Em Sermões, a história de Vieira, é a história do Brasil colonial seiscentista, que por sua vez se torna a história do Barroco brasileiro, pulando, através de suas metáforas visuais, do Brasil seiscentista ao Brasil do século XX. Ensaio poético sobre a vida de Antônio Vieira, que não será apenas constituído dos elementos comuns entre o cinema marginal e a estética barroca dentro do audiovisual. Mas o que está sujeito a ensaio é a junção entre o barroquismo cinematográfico e a herança barroca proveniente de Antônio Vieira, do barroco como escola estética (embora o termo encontre seus problemas); teremos Haroldo de Campos (vestido do que parece ser de jesuíta) lendo a proesia que inicia galáxias com um acompanhamento de cítara de Alberto Marsicano; teremos a persona angelical tupiniquim de Caetano Veloso cantando o poema de Gregório de Mattos, Triste Bahia; suas composições visuais; e o que muito me surpreendeu, tocar no assunto sobre a crítica feita por Sor Juana Inês de la Cruz a um sermão de Antônio Vieira, que mais tarde foi custar a ela uma disputa teológica, gerando as famosas carta Atenagórica e a respuesta a Sor Filotea de la Cruz – cuja primeira frase sua, de Juana, proferida no filme, vem desta carta:  y dice muy bien el Fénix Lusitano (pero ¿cuándo no dice bien, aun cuando no dice bien?) ; e o resto de sua fala é um poema seu, Procura desmentir los elogios que a un retrato de la poetiza inscribió la verdad, que llama pasión). Leia mais

Adeus, Eduardo Coutinho

Foi há aproximadamente dez anos, nos idos de 2004, que ouvi pela primeira vez o nome de Eduardo Coutinho. Meu irmão tinha ingressado há pouco na faculdade de Radio e TV e um de seus professores, o Alfredo, sugeriu uma resenha sobre Edifício Master (2002), um dos documentários mais recentes do diretor. Acabei por assistir ao filme apenas dois anos depois, agora quando eu começava minha trajetória acadêmica na UNICAMP, como parte integrante de uma disciplina de antropologia fílmica.

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Pasô(lini)contra-Plongée Édipo

por Stefano Calgaro

Pier Paolo Pasolini, filólogo, intelectual marxista, poeta, romancista, cineasta, teórico. Como Glauber (Rocha) disse sobre ele – e em seus filmes podemos ver isso – “é violento, tímido e irônico ao mesmo tempo”1. Ácido. Seco.

Édipo Rei (1967), filme de Pasolini sobre a tragédia homônima de Sófocles. Claro que, feito já na segunda metade do século XX, se o filme passasse longe de um viés do mito de Édipo (freudiano), faltaria algo (talvez?). E apesar da relação estabelecida por Pasolini através de seu prólogo e epílogo, não é só isso que coloca Édipo lá em cima. Leia mais

  1. ROCHA, Glauber, O Século do Cinema, pp. 276

15° Festival do Rio: The End

É bom, mas tem que acabar. Se até os filmes têm começo, meio e fim, por que seus festivais não haveriam de ter, não é mesmo? Mas dói o coração, porque é tão excitante saber que a cada novo dia teremos dez, quinze novos filmes na programação, e dos tipos mais variados, de diretores famosos ou novatos, documentários ou curtas de ficção, de comédia ou terror.

O Festival do Rio encerrou sua 15° na última quinta-feira (10) e os dois últimos filmes de minha programação – que somaram 19 títulos assistidos – foram: Only Lovers Left Alive (2013, mostra Panorama, trailer abaixo), novo longa do cult e maravilhoso Jim Jarmush, contando com muito estilo a história dos vampiros Adam (Tom Hiddelson) e Eve (a maravilhosa Tilda Swinton), vivendo o ócio dos séculos, até a chegada da irmã de Eve, Ava (Mia Wasikowska, como sempre muito bem); depois a sessão do doc luso-angolano I love Kuduro (2013, de Mario Patrocínio, mostra Midnight Música), sobre a febre desse ritmo em Angola, que já virou produto de exportação do país. Leia mais