Photo by Jane Cornwell

Sobre os tempos e o que é importante

Mantenho diários e cadernos de anotações desde os 8 anos. Tenho um blog privado onde escrevi dos 15 aos 20 anos. Um incontável número de rascunhos e notas espalhadas por aí. Fora tudo isso, ainda hoje e desde os 19 publico textos em sites aqui e ali. A necessidade de registro sempre me foi uma coisa muito louca e urgente. Era como se eu precisasse escrever para não esquecer da vida. Os anos poderiam passar e eu até poderia me lembrar das coisas todas de forma diferente, mas o registro sempre existiria para me dar um alô caso eu quisesse. Essa foi a minha forma de estar sempre em contato com os tempos e com o que eu era e pensava em cada um deles. Pura bobagem, pensei algumas boas vezes.

Na prática, foram raras-raríssimas as vezes em que reli qualquer coisa que escrevi. Mesmo aqui no Posfácio: acho que só reli textos que foram usados para o meu livrinho e mesmo assim foi difícil. Toda viagem de volta é acompanhada de uma porrada de vergonha bem no meio do estômago. O constrangimento em cada experiência espaçava cada vez mais a próxima. Eu criticava tudo. Das escolhas das palavras às escolhas da vida. Isso atrapalha tanto. Nunca consegui fazer uma narrativa longa por sempre acabar jogando elas fora antes de chegarem ao terceiro capítulo.

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Lugares que já não são

Se existem duas coisas que me fazem sair do caminho, mudar planos, me enfiar em lugares esquisitos, essas coisas são cemitérios e ruínas. Que são, parando para pensar, dois lados da mesma coisa.

Eu ainda me lembro da quebrada assustadora onde acabei parando para ver o cemitério de Budapeste; ou da chuva torrencial e da lama nas minhas calças, enquanto eu chafurdava pelo Père Lachaise atrás de Jim Morrison. Quando me perguntam se valeu a pena ter andado quatro dias até Machu Picchu, meu único motivo para responder sim são as ruínas que vi no caminho (de resto, e essa é a única “dica de viagem” que você verá nessa coluna: esqueça, pegue logo o trem). E nada, de todas as muitas coisas que eu já vi nesse mundo, me impressionou como Pompeia.

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A Flip da falta

“Por que você ainda vem à Flip?”, o Grilo Falante perguntava, insistente, enquanto desembarcava na rodoviária de Paray.

Ok, eu estava muito cansado – não bastava a viagem de madrugada, era necessário um acidente entre o ônibus e um caminhão? – e, pela primeira vez, não ficaria na festa todos os dias, mas isso era irrelevante: se a programação estivesse batuta, um energético seria suficiente para espantar o desânimo. Não estava, contudo. Nenhum nome me fez ficar online no início da venda dos ingressos e, pela primeira vez, fui sem comprar nada antes. Leia mais

Por que você não escreve?

Porque estava…
…cultivando um bigode.
…lendo. E, convenhamos, ler é bem mais gostoso do que escrever.
…abandonando livros. Talvez seja caso de “Ressaca Literária 2 – o retorno” ou pura falta de fôlego (e saco) para obras mais longas. Só sei que muita coisa boa ficou pelo caminho. Li apenas 10 páginas d’A amiga genial (Elena Ferrante), fiquei no primeiro quarto de Clímax (Chuck Palahniuk) e esqueci de continuar a leitura no auge do suspense de Aniquilação (Jeff Vandermeer).
…vivendo o karaoke’s way of life.
…experimentando outras famílias que não a minha – e aceitando de bom grado todo o amor que me foi dado.
…me movendo como Tautou.

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Sam & eu

O pedido parecera simples: escrever um manifesto sobre o dia dos pais. Não um manifesto qualquer no qual é citado cada definição para a paternidade, autoridade e patriarcalismo. Uma torrente de ideias feéricas transmitindo a verdade de todas as faces e gêneros de um antes conhecido pai de família.

Estava sentado na mesa da sala de estar, o computador aberto há duas horas, a garrafa de água não estava mais gelada, e redesenhei sentença por sentença. Evitei os pronomes masculinos, os clichês e lugares-comuns, as frases batidas – modificadas ou adaptadas. A voz para conduzir essa narração empoderada – ou seria empoleirada? – teria de ser neutra, mas carregada de emoção; firme, conquanto gentil. Cansada e ao mesmo tempo disposta. De leveza dúbia e, acima de qualquer circunstância, uma voz reconhecível para filhos desgarrados ou fãs de seus progenitores (e essa palavra estaria proibida, não faria sentido usá-la – eu falava de uma figura mais do que biológica). Leia mais

Cama de Gato

Na morte de 2014 e no nascimento de 2015 – praticamente um natimorto – eu tomei uma decisão (ou seria uma prospecção?) daquelas que ocorrem, estilo epifania/insight, sobre qual seria a minha meta. Nunca fui um fiel às minhas promessas de ano novo. Como diria Guimarães Rosa: “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior”; e como eu poderia manter uma promessa se dali um mês, quiçá uma semana, ou até na manhã de ano novo, curtindo uma ressaca de cachaça curtida, eu seria outra pessoa? Mas a minha meta foi: o profissional viria antes do pessoal em 2015.

Explico: entre 2008 e 2014 sempre coloquei minha vida pessoal em primeiro plano. Festas? Com certeza. Encontro com amigos? Sim, senhor. Uma desculpa para beber, namorar e não se preocupar com nada? Concordo. A labuta era só uma maneira de administrar essa vida pessoal no financeiro. Afinal, nem todos os amigos querem pagar uma rodada de suco pra galera. Leia mais

Uma colcha de retalhos

Não é que eu odeie efemérides. Apenas as considero totalmente desnecessárias de um modo geral. Pensando bem, na verdade, elas são uma manobra para lá de pobre para conseguir uma certa audiência para um veículo de comunicação. Usar a data de morte, de aniversário, de primeiro lançamento – sem ser com números redondos – não faz lá muito sentido para mim. Eu sou hipócrita. Usei e abusei, reutilizei e reciclei efemérides mil, contudo posso acusar minha pouca idade para dizer: considerava legal resgatar essas datas como uma forma de celebrar a memória de um ídolo.

Outra coisa que vejo se espalhando pelos quatro cantos da internet são marcas utilizando datas para criar algum post de trocadilhos ou mesmo de “homenagem”. Se antes datas como Dia dos Pais, Dia das Mães e Dia das Crianças eram alvos fáceis para propagandas de um mês, dois até, pelo menos ficávamos nisso. As datas fora do eixo comercial (dia do datilógrafo, dia do radialista, dia da comunicação…) são muletas para aleijados criativos. Me desculpem, mas é verdade. Pior, já fui vítima explorada por superiores insistindo que esses atalhos fáceis para preencher vácuos eram não somente necessários, mas estritamente importantes.

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E Mário saiu do armário

18 de junho de 2015: o dia em que Mário de Andrade saiu (ou melhor, foi tirado) do armário. E daí? Saiu ao público a chamada “carta secreta” de Mário para Manuel Bandeira – ou Manu, seu apelido –, que até hoje se encontrava escondida na Fundação Casa de Rui Barbosa, a pedido da família, pelo que dizem. Após certa movimentação judicial, iniciada por um jornalista, com base na Lei de Acesso à Informação, o texto foi finalmente revelado. Não é só um texto nem uma carta, mas também um documento (histórico) e – por que não? – um texto de Mário de Andrade, com seu estilo epistolar todo especial. E bonito, claro.

E daí? A carta, como todos esperavam – porque os boatos sempre chegam cedo –, realmente trata da homossexualidade do escritor. Sim, bem assim, direto ao ponto. Não se trata mais de um dos “indícios” sempre apontados pela crítica a partir da sua correspondência e também da sua literatura, indícios esses que agora se tornam automaticamente parte de uma estrutura toda coerente para o leitor. Nunca mais leremos nada seu do mesmo jeito. O que para alguns era só um boato é agora fato. As descrições dos corpos dos indígenas (homens) e da “flor inserida no…” de outro índio em O turista aprendiz podem ter todo um outro significado a partir de hoje. Mário é, finalmente, um escritor gay. Mas e daí? Essa é a questão. No fundo, nada muda, mas também tudo muda.

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Cartas de Babel

Como todo ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho dúvidas a respeito daquilo que faço. Por vezes me pego questionando pra que passar tanto tempo debruçado sobre textos que – possivelmente – não interessam ninguém. Afinal, pra que me dedicar tanto a poetas e escritores de países que a maioria das pessoas só acha num mapa com certa dificuldade, cujo idioma parece mais um amontoado de consoantes – isso quando lembra alguma coisa meramente inteligível.

Mas, como qualquer ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho certeza de que isso é a melhor coisa que eu podia fazer pelo mundo – que alguém, com certeza, vai ler aquilo e vai ter uma epifania. Ou que, pelo menos, alguém vai querer me dar uns bons trocados pelo tempo passado derretendo o cérebro contando sílabas poéticas e folheando o dicionário até criar bolhas nos dedos.

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A grande busca existencial (ou não) por cigarros

Há sempre um momento na vida em que você reavalia suas escolhas. Como cheguei aqui? É esse o caminho que quero seguir? É mesmo isso que eu desejo para minha existência? Claro, isso pode acontecer em experiências de quase morte, em saltos de penhasco ou, ainda, quando você vai e faz uma crise de abstinência no meio de um museu de arte contemporânea.

Ok, talvez eu tenha sido dramática, talvez eu não tenha realmente deitado no chão em convulsões, nem tido alucinações que envolviam instalações magnetizadas, nem ameaçado de morte a amiguinha. Mas amigo fumante, se há algo que eu não recomendo, é que você esqueça seus cigarros quando vai se aventurar no interior de Minas Gerais.

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1965, 1969 ou a desilusão à máquina de escrever

Gosto muito da decadência. Não de um modo todo gótico de ser, como se fosse um performer que não entendeu bem o método de Marina Abramović. Não sou decadente. Talvez isso seja já ultrapassado. Deixemos o decadentismo para o século XIX. Quando falo de decadência, falo de duas coisas ao mesmo tempo: a decadência segundo aqueles que não se veem decaídos e a decadência segundo aqueles que se veem decaídos à revelia. Nada por premeditação, mas sim por constatação. É daqueles momentos em que podemos dar os nomes aos bois, ainda que cada um dê nomes diferentes para as mesmas coisas (ou bois). Nesses momentos, sempre surgem ótimas criações artísticas, mas nem sempre elas conseguem dar conta desses dois pontos de vista de decadência que coloquei aqui.

Dois exemplos de uma arte da desilusão, ou melhor, da decadência que acho que trazem em si os dois tipos a que me referi: O desafio (1965), de Paulo César Saraceni, e Détruire dit-elle (1969), de Marguerite Duras. Apenas exemplos, não provas definitivas de uma hipótese. São dois filmes, sendo um deles – o segundo – também um livro (talvez um romance?). Vou me concentrar apenas nos filmes para facilitar o processo. A grande continuidade entre eles, acredito eu, é que nem sempre os ideais políticos de uma geração parecem exercer uma força possível contra a decadência, mas isso é posto não exatamente de uma maneira ostensiva, impondo-se uma interpretação e uma resolução para o mundo. O dilema é posto, ou ainda, o desafio maior, se ficarmos com Saraceni.

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Cúmplices

“A vida em si é uma citação.” – Jorge Luis Borges

Uma das coisas mais legais após a Flip são as turnês dos autores para quem não conseguiu estar em Paraty. Numa dessas oportunidades encontrei Enrique Vila-Matas sem saber que ele estaria no mesmo recinto, na Livraria Cultura no Conjunto Nacional da Paulista. O autor estava lá para lançar oficialmente Ar de Dylan e dando uns vistos nos livros de todo mundo. Narrei esse acontecimento na época.

Comecei a ler o livro ao chegar em casa e encontrei um personagem familiar, não aqueles costurados entre-narrativas como os de Roberto Bolaño, mas um da vida real. Tratava-se de Emilio Fraia, em uma passagem breve da narrativa por São Paulo e pelo Mercado Municipal da cidade. Fraia era o editor de Vila-Matas na Cosac Naify e, claro, tinha contato direto com o escritor quando ele estava pelo Brasil. Não sei ao certo se a passagem é inteira verdadeira ou se apenas parte dela. Leia mais