Menos livros, mais leituras

Aprecio o primeiro mês de cada ano. Mas não sou o tipo de pessoa que aproveita a época para fazer um plano de promessas a serem cumpridas. Gosto de pensar que tenho 12 meses à disposição para todas as novas ideias que quiser ou precisar executar.

Para 2015, no entanto, abri duas exceções. A primeira promessa que fiz foi voltar a escrever com regularidade a minha coluna no Posfácio (Oi, pessoas queridas!). E a segunda, relacionada aos meus livros, ocorreu mais por constatação e necessidade. Descobri, após um breve levantamento, que li 30 livros em 2014. Uma boa média, considerando minhas atividades maternas e profissionais. O que me assustou foi que percebi que, das três dezenas, apenas sete (7!!) foram livros impressos. O restante foi lido no Kindle. Isso me levou a outra descoberta: 2014 deve ter sido o ano em que comprei menos livros físicos nos últimos 20 anos (contrariando algumas pesquisas que apontaram queda na venda de livros digitais e preferência pelos impressos). Comprei apenas três livros no ano passado (não estou considerando nesta conta os livros ganhos – ganhei bastante coisa, fator que também deve ter contribuído para a diminuição nas compras). Leia mais

Uma notinha, peloamordedeus

Envolvida com o que neste mês? Basicamente, com a mesma atividade que exerço desde 2007, em pequenas, médias ou grandes proporções: assessoria de imprensa para o lançamento de um livro.

Desde a semana passada, estou executando a assessoria de um livro com grandes expectativas (sempre elas que me perseguem). O autor espera muito, a editora ainda mais. Natural que, devido à pressão, eu tenha acabado refletindo sobre tudo o que envolve uma assessoria de imprensa de um livro e tudo que pode minar estas expectativas.

Para muitos, a vida de um livro não começa quando ele sai da gráfica. Nem quando é assinado na sessão de autógrafos. Sequer quando entra nas prateleiras de uma livraria. Para muitos, um livro existe quando sai no jornal, na revista, na rádio, na TV, no Fantástico, no Jô (ah, o Jô…).

A minha posição sobre o assunto é contraditória de natureza. Eu sou assessora. Acho que, na maioria dos casos, a assessoria ajuda. Mas ela não é tudo isso. Ela não vai salvar o mundo. “Poxa, você é assessora e não valoriza ao extremo o peixe que vende?” Pois é. Mas quem me conhece sabe: eu nunca me privo de falar a verdade.

A assessoria de imprensa facilita o encontro do livro com o leitor. Mas não salva um livro de um fracasso editorial. Ganhar uma página inteira numa publicação ou ser capa do suplemento cultural ajuda institucionalmente (ô, se ajuda) a editora e o autor. Mas não garante vendas. O lado comercial não está tão ligado ao lado midiático. Pelo menos não para os autores estreantes e editoras pequenas ou médias (para as grandes e os best-sellers, a história é outra). A nota no jornal ou entrevista na TV é o primeiro passo de um caminho longo que todos os envolvidos com o livro ainda precisam percorrer. Fica mais difícil sem esse primeiro passo? Claro que fica. Mas de novo: ele não pode ser a única estratégia.

Em quase todos os casos, faço assessoria de imprensa para lançamentos locais (de editoras de Porto Alegre ou editoras de SP e RJ que farão sessão de autógrafos na cidade). Então, envio kit de imprensa, com livro + release, para veículos de Porto Alegre e Região Metropolitana.

As equipes das editorias de cultura e entretenimento mudam pouco. Com dois lançamentos por mês, imagina quantas vezes entrei em contato, por exemplo, com o editor de livros da Zero Hora desde 2007? Às vezes, falo mais com o Carlos André Moreira do que com a minha mãe. Definitivamente, falo mais com ele do que com meu irmão caçula.

Esta é uma relação que, além de construída, precisa ser mantida e respeitada. Não forço a barra, não insisto com livros que talvez não tenham interessado a editoria. Quando um cliente me diz “liga pra lá, liga muitas vezes, fala que precisa sair, manda e-mail até o jornalista dizer que sim”, simplesmente respondo: não posso e não quero. É preciso respeitar esse relacionamento de longa data. E pensar que, a publicação em qualquer veículo, depende da decisão do editor da área e da sua equipe. Uma vez expliquei para um autor: no dia que o teu livro chegar à redação, outros dez chegarão junto. Isto vale para Porto Alegre. Para redações de grandes veículos de São Paulo ou Rio de Janeiro, multiplique isso por dois ou três. Uma vez, vi a mesa da jornalista Raquel Cozer, quando ela ainda estava no Estadão. E vi outra foto de sua mesa já na Folha de SP (agora ela está em licença-maternidade, cuidando da linda Madalena). É assustador o volume de livros que esses jornalistas especializados recebem todos os dias.

E ainda não falei de blogs e sites de resenhas, que ajudam bastante na divulgação. Mas o fato é que, na mídia tradicional, é impossível destacar tudo. Humanamente impossível. Em muitos casos, é preciso dar tempo ao tempo. Uma hora, o livro pode sair em vários veículos bacanas. Foi o que aconteceu com o Quatro soldados, do Samir Machado de Machado. Ganhou ótimo destaque regional na semana do lançamento, e várias ótimas matérias quatro ou cinco meses depois da primeira sessão de autógrafos.

Esta, claro, não é uma ciência exata. Muitos livros, de autores reconhecidos, bombam na imprensa quando ainda estão quentes da impressão. Outros precisam de mais tempo. Outros nunca encontrarão esse caminho.

O que eu tento fazer, na minha rotina, é mesclar o interesse de autor/editora com o interesse do jornalista. Ver se eles combinam e deixar o processo o mais claro e objetivo possível. Mendigar uma “notinha peloamordedeus” não combina comigo. Prefiro vender uma boa pauta, entregar um bom livro e avisar: “dá uma olhada neste. Vai valer a pena”.

Entrego o restante para o santo protetor dos assessores de imprensa da área editorial. Em nome do editor, do livro e do celular ligado sempre. Amém.

Na Página 28 de Falso começo, de Pedro Gonzaga:

“mais do que o tempo da brincadeira
o que agora nos falta
é torak – o vilão visível
a lampadinha maligna no peito

em nossos quartos de adultos
erguemos os punhos a esmo
tentamos resistir solitários
ao cerco de vagos inimigos”

Fala que eu te escuto (ou quase)

Fevereiro foi um mês para pensar nas orelhas, estes importantes instrumentos de divulgação de um livro. No início do mês, recebi o convite de um amigo (que por acaso também é escritor) para que escrevesse e assinasse as orelhas do seu segundo romance, que será lançado em março. Aceitei o convite, honrada, não sem antes perguntar: tem certeza? É isto que quer? Vou realmente ajudar em algo? Quem sou eu para escrever qualquer meia orelha que seja? A verdade é que existe muita razão por trás dessas perguntas. Começando por mim.

 

Sempre que escolho um livro na livraria, faço um ritual de análise. Olho a capa. Leio a contracapa. Abro a segunda orelha. Foto do autor. Currículo do autor. E, por último, assinatura da orelha e currículo do autor da orelha (se estiver indicado). Já me disseram que tudo isso é mania de editor. Que o leitor por hobby e prazer não faz isso (não faz?). De qualquer forma, a sequência, para o bem ou para o mal, me ajuda a qualificar um livro. Especialmente quando este é o primeiro contato com um autor. Leia mais

Fantasminha Camarada

Quando eu pronuncio a palavra “ghostwriter” é comum ver a mesma reação nas pessoas. Claro que algumas não entendem (“gô o quê?”). Mas a grande maioria assume um olhar distante. Eu sei para onde a mente delas vai: ambientes luxuosos, taças de champanhe, reuniões à beira da piscina ou ao pé da montanha, gargalhadas com a cabeça reclinada e a chave do Porsche no bolso.

A mente delas viaja para lugares como os de O escritor fantasma, de Roman Polanski. Ewan McGregor mexendo em arquivos, desvendando mistérios, voando em jatinhos particulares, bebendo champanhe e fumando charutos cubanos. Tudo muito longe da realidade de um ghostwriter (pelo menos a minha realidade como escritora fantasma). Eu, do lado de cá, dispenso o “glamour”, embora sinta falta de um Cohiba de vez em quando. Em todo o caso, a minha atividade rende boas histórias de making of. E, graças a Deus, está passando longe do que acontece com a personagem desse filme… aquelas folhas todas voando no meio da rua… credo. Leia mais

Da arte de esquecer

Esqueça o fim do ano. Esqueça os sonhos e as decepções. Esqueça o livro genial que você escreverá no ano que chega. Esqueça o “sim” que você pode receber daquela editora. Ou o “não” que chegará daquela outra. Esqueça a resenha que nunca veio. Ou aquela que nocauteou o seu projeto. Esqueça a ideia revolucionária que você (e mais ninguém da área editorial) terá. Esqueça as ideias usuais que você (e outras milhares de pessoas) tem todos os dias.

A retrospectiva pessoal sempre pode ser cruel. Cheia de altos e baixos. Deste ano posso comemorar altos “nível Everest”, como estrear e manter minha coluna no Posfácio e iniciar um trabalho especial de edição para o Fronteiras do Pensamento. Beberei uma taça de champanhe por eles. E baixos “barracos e barraqueiros” que, certamente, me perseguirão como se eu fosse Ebenezer Scrooge. Um beijo para esses. Fiquem bem. Leia mais

Cadê a coluna?!

Existe, para o trabalho criativo e literário, um inimigo pior do que a falta de inspiração. Digo mais: inimigo cruel e vingativo. É a falta de tempo. Alguns (poucos e felizes) podem contar com o horário comercial ou um farto conjunto de horas para produzir um texto. Outros tornam-se mais malabaristas do que escritores, tentando equilibrar, ao longo do dia, o tempo dedicado ao emprego formal (aquele que paga as contas), alguns frilas (aqueles que pagam os extras), às lides domésticas e outros compromissos sociais. Quando tudo isso acaba é que sentam na frente do computador para, finalmente, escrever.

Por aqui, julho foi assim: trabalho pela manhã, cozinhar o almoço do Lucas, fazer o Lucas dormir, brincar com o Lucas, arrumar a casa, trabalhar mais, dar banho no Lucas, dar o jantar para o Lucas, fazer o Lucas dormir, comer nos intervalos das tarefas, trabalhar ainda mais e, das 23h às 2h, escrever. Este é, usualmente, o horário em que produzo a coluna do Posfácio (oi, meu editor!). Em julho, este período foi tomado por outras tarefas. E, naturalmente, a coluna atrasou. Leia mais

De todos esses livros que iremos ler (sim, com certeza, talvez…)

Para todo o amante das letras é inegável o fato de que, durante a vida, será impossível ler todos os livros que se gostaria. Que dó. Já falei de forma breve sobre esse assunto em uma coluna anterior. Mas a verdade, também inegável, é que tentamos burlar isso sempre que há alguma chance. Por menor que seja.

Imagine o cenário: as estantes da biblioteca estão abarrotadas. Mas você chega na livraria e aquele título, desejado há tempos, está em promoção. Você compra. Claro! Ou, então: aquela editora que você adora dá 50% de desconto e ainda garante o frete grátis! Você também compra. Ou, mais: a rede de supermercados resolve liquidar todo o estoque! Compre um, leve três. Você compra, compra e compra. Quando vejo alguns amigos surtados nas redes sociais já sei que há alguma promoção (e das boas) acontecendo.   Leia mais

Uma livraria para chamar de minha

Repletas de estantes cheias de livros. Para qualquer leitor, uma livraria é um lugar bacana. Um território sagrado para muitos. Alguns ou vários metros quadrados com muitos livros a serem descobertos. Um paraíso para perder-se, com a cabeça ora inclinada para a esquerda, ora inclinada para a direita, a encantar-se com cada lombada. Sempre gostei dessas visitas a livrarias. Aprecio, especialmente, vasculhar prateleiras para descobrir algum título, me deparar com um autor que não leio há tempos ou conhecer os lançamentos. A Internet, com suas lojas virtuais de livros, dinamizou o mercado. E me ajuda muito, reduzindo distâncias e oferecendo descontos irresistíveis. No entanto, possui uma ressalva: uso a loja virtual somente quando sei qual livro estou procurando. Para garimpar, uma ida à livraria é indispensável.

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A poção mágica

Uma pergunta, mesmo que velada, sempre é feita por quem trabalha no mercado editorial: o que faz com que um livro encontre milhares ou milhões de leitores e outros encalhem nas prateleiras? Existem leitores para todos os livros produzidos? É uma questão de sorte, ou fórmula secreta, ou poção mágica, ou pacto com o 666?

Difícil, nesta questão, entrar no mérito da qualidade literária. Isso é subjetivo. Eu posso gostar de Altair Martins e meu vizinho de banco no ônibus adorar Sidney Sheldon. Sheldon vende muito mais do que Martins. Não porque seja melhor. Mas porque, eu imagino, encontra eco nos anseios de leitura de muitas pessoas (um grupo muito, muito grande de pessoas).

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A primeira vez

Como foi a sua primeira vez? Onde foi? O que você sentiu? O que pensou? O que foi que te fisgou para sempre? Não, essa coluna não vai virar uma consultoria de sexo. Quero saber qual foi a sua primeira experiência com um livro… Quando segurou um livro pela primeira vez em suas mãos? O que lhe motivou a ter uma biblioteca (grande, pequena, especial…) ou sentir um carinho por uma livraria cheia de lançamentos ou clássicos a serem relidos?

Ao criar alguém desde o nascimento, as “primeiras vezes” viram uma espécie de obsessão. É sobre isso que tenho pensado nas últimas semanas: reviver essas minhas emoções inéditas e ajudar meu pequeno Lucas, de nove meses, a ter suas primeiríssimas experiências. Como foi que virei uma apaixonada por livros, com quase 300 exemplares em casa? Talvez porque, desde sempre, estive rodeada por eles, em casa e na escola.

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O caminho das pedras ou as pedras do caminho

Para muitas pessoas, o mercado editorial possui uma aura de luxo, glamour, fama e dinheiro (ou uma suíte no Copacabana Palace e muita champanhe). Nada contra o romantismo. Mas publicar livros vai além disso. Muito além. Exige trabalho se, nesta história, o protagonista estiver no lugar do escritor. Escrever pede inspiração, mas é penoso e dói às vezes (se for muito fácil, sem exigir transpiração, pode ter certeza que você está fazendo outra coisa: psicografia e não literatura). E não se esqueça dos 10% de direitos autorais. Só 10% (mas falarei sobre pouco dinheiro em uma coluna futura). Agora, se o personagem estiver no lugar do editor, é ainda mais complicado. Pois exige dinheiro para investir, compromissos fiscais e contábeis, relações com livrarias e porcentagens altas e, no meio de tudo isso (especialmente se for um pequeno editor), selecionar originais para futuros lançamentos. Ou seja: fazer todo o trabalho sozinho.

Assim, me perguntaram (foi o Volcof que me deu a ideia): qual o caminho das pedras para publicar um livro? Eu reformularia a questão. Ficaria desta forma: quais são as pedras do caminho editorial que você pode desviar para tentar publicar um livro.

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Um livro que puxa outro livro que puxa outro livro que puxa outro livro que… #vida

Escrevi isso no twitter há alguns dias. Pessoas que me seguem e que têm uma relação especial com os livros me deram RT. E achei que este seria o tema ideal para a minha coluna de estreia no Posfácio: os vários elos de uma corrente de trabalho, prazer e coincidências que a literatura proporciona em nossas vidas. Leia mais