Cartas de Babel

Como todo ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho dúvidas a respeito daquilo que faço. Por vezes me pego questionando pra que passar tanto tempo debruçado sobre textos que – possivelmente – não interessam ninguém. Afinal, pra que me dedicar tanto a poetas e escritores de países que a maioria das pessoas só acha num mapa com certa dificuldade, cujo idioma parece mais um amontoado de consoantes – isso quando lembra alguma coisa meramente inteligível.

Mas, como qualquer ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho certeza de que isso é a melhor coisa que eu podia fazer pelo mundo – que alguém, com certeza, vai ler aquilo e vai ter uma epifania. Ou que, pelo menos, alguém vai querer me dar uns bons trocados pelo tempo passado derretendo o cérebro contando sílabas poéticas e folheando o dicionário até criar bolhas nos dedos.

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Cartas de Babel

Uma das citações a respeito de tradução da qual eu mais gosto, é uma da teórica feminista Gayatri Chakravorty Spivak, se não me engano de um ensaio entitulado The Politics of Translation, no qual ela escreve que a tradução é o mais íntimo dos atos de leitura, de que ela se rende ao texto quando traduz. O texto, aliás, apesar de carregado em teoria (ou por causa disso) é um dos escritos mais bonitos que já li sobre tradução, prosseguindo com considerações a respeito de a tarefa do tradutor ser a de facilitar o amor entre o original e sua sombra.

Outra conclusão a respeito de tradução que me é especialmente cara é bem anterior: o prefácio do editor na primeira edição da tradução para o inglês da Talmude Babilônica, feita por Michael L. Rodkinson (de 1901): “Translation! That’s the sole secret of defense!”. Leia mais

Cartas de Babel

Se existe algo que se assemelhe a um mito fundador da tradução é a história da Torre de Babel: a menção bíblica a uma torre que foi construída tão alta que D’us resolveu não permitir que fosse completada, descendo para confundir os idiomas humanos – que, até então, falavam todos uma só língua. Existem inúmeras fontes e adendos para história, em tratados exegéticos rabínicos, em livros bíblicos apócrifos e até mesmo algumas versões distintas em fontes islâmicas.

No livro do Gênesis a história é mencionada muito brevemente, em uns poucos versículos, mas nessas outras fontes fica bastante claro que a construção dessa torre (possivelmente uma zigurate) tinha o objetivo de desafiar D’us. Leia mais

Sobre a memória

Tirando as apostas do Nobel que fiz junto com o Tiago, foi em 16 de abril de 2013 a última vez que escrevi para o site. Pouco menos de um ano. De lá pra cá insistentes promessas de que voltaria. Mas o dito retorno, nada.

Não que não tenha lido nada que valesse a pena. Não que não tenha pensado a respeito de coisas sobre as quais gostaria de escrever. Mas acabei me perdendo em um sem número de imbróglios, acabei não tendo aquele ímpeto para o trabalho que algumas pessoas insistem em mistificar como inspiração. E tinha lá meus outros projetos e minha vida profissional correndo paralelamente, devorando meu precioso tempo. Leia mais

Senhor censor

Tenho trabalhado, nos últimos dias, em uma tradução de um conto do tcheco Jaroslav Hašek. Hašek é mais famoso pelas peripécias do soldado Švejk. O conto leva o título de ‘Entrevista com o senhor censor‘ e trata-se, adivinhem, de uma visita a um censor – cuja fama estava em qualquer lugar entre o assustador e o patético. A ideia do narrador do conto era justamente passar a limpo a impressão que tinha do censor, que acaba por se mostrar mais banalmente estúpido do que o esperado.

Há pouco mais de uma semana, coincidentemente, fui a uma palestra com J. M. Coetzee (escritor sul-africano radicado na Austrália, autor de, entre outras obras, Diário de um ano ruim, Vida e época de Michael K. e Desonra) em que ele falava justamente sobre a censura e sobre os censores de suas obras.

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À caça de Gustloff

A literatura é feita, basicamente, de obsessões. Obsessões e desvios.

Em seu Passos de Caranguejo o escritor alemão Günter Grass narra várias histórias – como é de seu costume. Mas existe um ponto nevrálgico, que se torna central a todas elas: o assassinato de Wilhelm Gustloff, líder do partido nazista da Suíça, em 1936. Gustloff foi um dos principais responsáveis por distribuir os famosos ‘Protocolos dos Sábios de Sião’, ferramenta de propaganda antissemita criada pela Okhrana (a polícia secreta do czar Nicolau II) que colocava os judeus e os maçons como pivôs de um plano para a dominação mundial.

Foi morto a tiros por David Frankfurter, jovem estudante de medicina, de origem judaica. Frankfurter preocupara-se com a ameaça nazista e decidira agir por conta própria. Foi condenado a 18 anos de prisão, tendo recebido um perdão ao fim da Segunda Guerra Mundial, com a condição de que deixasse o país e pagasse os custos jurídicos de restituição. Exilou-se em Tel Aviv, onde morreu em 1982 Leia mais

O primeiro sutiã

Há alguns dias fiz uma viagem relâmpago, em que passei por São Paulo e Rio de Janeiro em menos de uma semana. O tempo era curto, obviamente não pude aproveitar as duas cidades como mereceriam. Mas é que, na verdade, o objetivo nem era exatamente esse: fui para seguir a banda Grizzly Bear, em sua primeira turnê brasileira. Fui nos dois shows, não tanto por mim (apesar de não me arrepender nem um pouco, foram fantásticos), mas por causa da Hanna – amiga que eu acompanhei, e que é extremamente fã de Ed Droste e companhia.

Tenho uma outra amiga que já fez a mesma coisa com o Radiohead, quando fizeram esse mesmo itinerário. Se não me engano a dentista de uma das Unidades de Saúde em que trabalho sonha em fazer isso com Ivete Sangalo. Outra amiga chorou ao ver Garbage ao vivo. Leia mais

Esquizofrenia Progressiva – A ditadura do politicamente correto, o racismo e a censura

Ultimamente tenho lido muitas notícias a respeito de livros considerados, de alguma maneira, inadequados: Monteiro Lobato precisa retirado das escolas públicas, por conta de determinados conteúdos racistas; Dalton Trevisan foi excluído das listas de livros de alguns vestibulares por seu cunho imoral, pornográfico ou coisa que o valha. As opiniões se dividem. Muitos são a favor: não se pode ensinar as crianças o uso de termos racistas, não se pode expor os jovens à imoralidade – de forma compulsória. Outros, radicalmente contra, pois alegam que não se pode cercear a liberdade de expressão em nome de uma ditadura do politicamente correto.

Pessoalmente discordo de tudo isso. A ideia de excluir algum livro de onde quer que seja (e ainda mais quando de espaços relacionados à educação) me soam absurdas e os argumentos daqueles que defendem isso me soam equivocados; mas considero exagerada a reação de classificar isso como censura. Leia mais

Esquizofrenia Progressiva: Granta

Está decidido: não lerei, de modo algum, a Granta brasileira. Na verdade, decidi isso há muito tempo. Quando ouvi falar que teríamos uma edição tupiniquim.

Que não me acusem de falta de patriotismo (apesar de eu, realmente, não ter nenhum – não me dou com o conceito de nação). Não porque li coisas ruins a respeito dos contos selecionados, menos ainda porque li coisas boas. Também não me motivo por outras leituras que porventura possa ter feito dos autores que participam da coletânea: li pouquíssimos e, destes, pouca coisa.

Não lerei a Granta brasileira por conta do que ela representa. Ela é a imagem cuspida e escarrada de um estabilishment literário um tanto quanto perverso: selecionam-se uns tantos escritores e diz-se que eles são o futuro da literatura, que a crítica vai amá-los. Logo estarão ganhando prêmios e fazendo concessões – alterando seus textos, suprimindo piadas – para serem publicados nas grandes editoras. Isso não necessariamente vai ser por vontade própria, talvez seja por conta de contratos. Leia mais

Esquizofrenia Progressiva: a literatura depois de Fernando Lugo

Na última sexta-feira aconteceu uma das coisas politicamente mais assustadoras dos últimos anos, na América Latina: o impeachment do presidente paraguaio Fernando Lugo. Não planejo entrar nos méritos ou deméritos de Lugo: o fato é que tudo foi rápido demais e fácil demais para que as coisas estejam certas. Ainda mais quando o que aconteceu coloca no poder forças políticas claramente aliadas ao partido Colorado – o partido que governou o país por mais de 60 anos, inclusive durante a ditadura militar de Stroessner, só saindo do poder com a eleição de Lugo, em 2008. Ainda mais quando a justificativa é o latifúndio.

E o que diabos a literatura (o assunto principal do Meia-Palavra) tem com isso? Claro que toda crise rende inúmeras obras literárias. É so procurar ‘holocausto’ ou ‘segunda guerra mundial’ aqui no Meia Palavra que isso se tornará visível. Imre Kertész, Laurent Binet, Elie Wiesel, Solzhenitsyn… Leia mais

Sobre a dit-lit

Uma das características compartilhadas por todo regime totalitário é o controle dos meios de comunicação. Sempre existe, em graus variados, a censura. E a literatura é uma das áreas que sofrem impacto mais direto disso: as publicações costumam ser selecionadas a dedo e, quase sempre, surge uma literatura oficial – a ser subvencionada e estimulada pelo Estado – e uma não-oficial – que, quase sempre, é mais significativa, apesar de enfrentar inúmeras dificuldades para chegar até o leitor.

Existem alguns casos, porém, em que o ditador – aquela figura mítica, central nos totalitarismos, alvo de culto (muitas vezes forçado, mas nem sempre) das pessoas comuns – tem certo apreço pela literatura e tendo todo o aparato estatal a sua disposição, resolve lançar-se à empreitadas literárias. Surge assim algo que poder-se-ia chamar de dit-lit (como em chick-lit, mas para ditadores). Leia mais

Esquizofrenia Progressiva – Notas sobre um naufrágio

  1. Até hoje nunca havia assistido Titanic. Foi uma oposição consciente, tomada durante a adolescência – uma espécie de contestação inútil, a respeito de algo totalmente inútil.
  2. A decisão foi revogada tão irrefletidamente quanto foi tomada, desta vez cedendo a um convite.
  3. O filme não fala sobre um navio. Fala sobre uma garota chamada Rose, ao redor da qual o universo parece girar: o responsável pela construção do navio lhe pede desculpas por não ter construído um navio suficientemente forte para ela, Jack dança com uma criança apenas para depois dançar com ela. Mas é ela quem conta a história, logo, isso faz todo o sentido do mundo. Leia mais