Sam & eu

O pedido parecera simples: escrever um manifesto sobre o dia dos pais. Não um manifesto qualquer no qual é citado cada definição para a paternidade, autoridade e patriarcalismo. Uma torrente de ideias feéricas transmitindo a verdade de todas as faces e gêneros de um antes conhecido pai de família.

Estava sentado na mesa da sala de estar, o computador aberto há duas horas, a garrafa de água não estava mais gelada, e redesenhei sentença por sentença. Evitei os pronomes masculinos, os clichês e lugares-comuns, as frases batidas – modificadas ou adaptadas. A voz para conduzir essa narração empoderada – ou seria empoleirada? – teria de ser neutra, mas carregada de emoção; firme, conquanto gentil. Cansada e ao mesmo tempo disposta. De leveza dúbia e, acima de qualquer circunstância, uma voz reconhecível para filhos desgarrados ou fãs de seus progenitores (e essa palavra estaria proibida, não faria sentido usá-la – eu falava de uma figura mais do que biológica). Leia mais

Cama de Gato

Na morte de 2014 e no nascimento de 2015 – praticamente um natimorto – eu tomei uma decisão (ou seria uma prospecção?) daquelas que ocorrem, estilo epifania/insight, sobre qual seria a minha meta. Nunca fui um fiel às minhas promessas de ano novo. Como diria Guimarães Rosa: “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior”; e como eu poderia manter uma promessa se dali um mês, quiçá uma semana, ou até na manhã de ano novo, curtindo uma ressaca de cachaça curtida, eu seria outra pessoa? Mas a minha meta foi: o profissional viria antes do pessoal em 2015.

Explico: entre 2008 e 2014 sempre coloquei minha vida pessoal em primeiro plano. Festas? Com certeza. Encontro com amigos? Sim, senhor. Uma desculpa para beber, namorar e não se preocupar com nada? Concordo. A labuta era só uma maneira de administrar essa vida pessoal no financeiro. Afinal, nem todos os amigos querem pagar uma rodada de suco pra galera. Leia mais

Uma colcha de retalhos

Não é que eu odeie efemérides. Apenas as considero totalmente desnecessárias de um modo geral. Pensando bem, na verdade, elas são uma manobra para lá de pobre para conseguir uma certa audiência para um veículo de comunicação. Usar a data de morte, de aniversário, de primeiro lançamento – sem ser com números redondos – não faz lá muito sentido para mim. Eu sou hipócrita. Usei e abusei, reutilizei e reciclei efemérides mil, contudo posso acusar minha pouca idade para dizer: considerava legal resgatar essas datas como uma forma de celebrar a memória de um ídolo.

Outra coisa que vejo se espalhando pelos quatro cantos da internet são marcas utilizando datas para criar algum post de trocadilhos ou mesmo de “homenagem”. Se antes datas como Dia dos Pais, Dia das Mães e Dia das Crianças eram alvos fáceis para propagandas de um mês, dois até, pelo menos ficávamos nisso. As datas fora do eixo comercial (dia do datilógrafo, dia do radialista, dia da comunicação…) são muletas para aleijados criativos. Me desculpem, mas é verdade. Pior, já fui vítima explorada por superiores insistindo que esses atalhos fáceis para preencher vácuos eram não somente necessários, mas estritamente importantes.

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Cúmplices

“A vida em si é uma citação.” – Jorge Luis Borges

Uma das coisas mais legais após a Flip são as turnês dos autores para quem não conseguiu estar em Paraty. Numa dessas oportunidades encontrei Enrique Vila-Matas sem saber que ele estaria no mesmo recinto, na Livraria Cultura no Conjunto Nacional da Paulista. O autor estava lá para lançar oficialmente Ar de Dylan e dando uns vistos nos livros de todo mundo. Narrei esse acontecimento na época.

Comecei a ler o livro ao chegar em casa e encontrei um personagem familiar, não aqueles costurados entre-narrativas como os de Roberto Bolaño, mas um da vida real. Tratava-se de Emilio Fraia, em uma passagem breve da narrativa por São Paulo e pelo Mercado Municipal da cidade. Fraia era o editor de Vila-Matas na Cosac Naify e, claro, tinha contato direto com o escritor quando ele estava pelo Brasil. Não sei ao certo se a passagem é inteira verdadeira ou se apenas parte dela. Leia mais

Namore alguém que

Namore alguém que lê, e quando esse alguém te indicar o livro favorito dele você não vai gostar e vai ficar climão. Pior, o mesmo vai acontecer quando você indicar o seu.

Namore alguém que goste de cinema, e quando esse alguém disser que adora os filmes de Godard você vai torcer a cara e falar que Antonioni é melhor. Mas todos sabem que Bergman pisa nos dois.

Namore alguém que deixe você sem ar, mas avise esse alguém se você tiver asma.

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Acendi

Acendi este cigarro após parar com o tabagismo durante três longos anos. Nem mesmo bêbado traguei tão rápido quanto dessa vez. Não senti tal velocidade. O tempo parou e aquela cortina de fumaça, paralisada no ar, fez o gesto de uma mão e me arrancou todos os pensamentos. Um instante como aqueles, durante uma conversa, em que você olha estático para um ponto qualquer – no qual a alma se desprende do corpo para passear. O fio da meada perdido por uns instantes eternos e efêmeros. Leia mais

Qual o seu livro favorito de todos os tempos?

O que seria pior: uma criança te perguntar de onde vêm os bebês ou qual o seu livro favorito? Não estou falando da dimensão ou da importância da pergunta, mas da reação de quando somos pegos de surpresa por uma pergunta inesperada.

Fiz esse teste via Facebook – sob o risco de ser bloqueado por mandar a mesma mensagem para múltiplos recipientes – para ver como as pessoas reagiriam a uma pergunta enviada fora de contexto. Os alvos escolhidos foram meus últimos contatos na famigerada inbox. O que resultou está abaixo: Leia mais

A sós

Semana passada resolvi jantar sozinho. Não cogitei chamar ninguém, de verdade. Há mais de cinco anos eu não realizava tal ritual, se é que posso chamar assim, e essa tem sido uma das escolhas mais acertadas dos últimos meses. Sei que parece uma espécie de isolamento do mundo. Longe disso. É uma forma que encontrei para fazer as pazes com meus próprios pensamentos – o que é irônico pois cada vez mais ouço o quanto tenho uma contração no rosto que denuncia quando penso demais e, pior, tenho essa péssima mania de perder o fio da meada conversando com pessoas e sozinho também.

Escolhi um bistrô perto de casa com luz baixa, geralmente bastante movimentado, e pedi o prato de sempre, o vinho de sempre e me pus a permanecer em silêncio e tentei evitar ao máximo observar as pessoas fixamente – jamais negarei o quanto eu gosto de fazer isso, mas talvez seja um assunto para outro dia. Passei por diversas fases de inanição, de olhar fixamente para um ponto nada interessante até fazer os movimentos inconscientes de mexer na taça para ver o vinho “chorar” ou cutucar meu garfo sem uso até então. Em outros tempos eu levaria um livro para me acompanhar e me distrair antes do prato chegar. Dessa vez foi diferente, eu não queria uma distração, um disfarce para mostrar que gostaria de estar sozinho. Leia mais

Não toca

O telefone não toca mais. Não toca. Você espera ansioso, aflito, mas lânguido. Pronto para dar um salto de um susto anunciado. Mas ele não toca. Desliga a campainha para sentir apenas a vibração, mas não vibra, não acende, não pisca. O telefone está intacto, você, paralisado. As pernas repuxam de fadiga, estão se movimento para cima e para baixo – inquietas – e o telefone não toca. Repassa e questiona o que disse anteriormente, se fora rude ou amável, se escolheu cada palavra de forma correta para construir sentenças, ora memoráveis, ora vulneráveis e todas com uma única vontade – maior e mais intensa do que a vontade de que o telefone toca. Mas ele não vai tocar. Você sabe disso. Quer acreditar nisso. Quer se negar a aceitar que, talvez em dado momento, ele te surpreenda de verdade e toque. Você se distrai com lembranças aleatórias e rememora sorrisos. Leia mais

Te leio, te furo

Esqueça.

Sim, esqueça.

O que você aprendeu com Sibila Trelawney e suas borras de café nas aulas vespertinas de Hogwarts, a dedução aguçada de Sherlock para descobrir como um sujeito se barbeia à luz da lua. Simplesmente esqueça a cartomante de Assis ou Lispector. A quiromancia tradicional de séculos. Esqueça o terapeuta de 250 reais por sessão. Você não é Tony Soprano.Uma barata não será tua guia espiritual. E esqueça porque não vou aconselhá-lo a olhar para dentro de si para encontrar a si mesmo e o que fazer com o seu futuro. Muito menos encarar olhos nos olhos no espelho e descobrir que eles não têm fim.

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Enjoo Matinal

Todo dia de manhã gostaria que fosse como o dia anterior. Todo dia de manhã gostaria que não tivesse raiado o dia. E todo dia de manhã gostaria de não ver ninguém de manhã, de tarde ou de noite. Quase todo dia na manhã penso na inspiração que me carregará por todo dia. Todo dia de manhã deixo passar pela ressaca da noite anterior. Todo dia de manhã eu desejo que o dia não se repita. Mas todo dia de manhã eu desejo que todo dia seja igual. Todo dia de manhã me pergunto do futuro e todo dia de manhã não quero pensar no futuro. Todo dia de manhã eu me preocupo, mas todo dia de manhã não calculo. Todo dia de manhã é todo dia de manhã, igual e diferente, de novidades velhas e velharias novas, das mesmas conversas ou pensamentos. Todo dia de manhã eu tenho preguiça. E todo dia de manhã quero fazer algo para mudar de vida. Toda manhã eu enjoo em pensar nas náuseas de amanhã. Todo dia de manhã mulher ou menina. E toda manhã de neblina gosto de recordação. E quando a madrugada ainda não é dia, mas todo dia com você quero compartilhar um dia, uma cama, uma vida. Todo dia de manhã vivo de amor. Mas todo dia de manhã penso que não dá. Todo dia de manhã tento lembrar o que toda a noite antes de dormir me faz pensar. Todo dia de manhã já dei um tapa. Todo dia de manhã já dei um beijo. Todo dia de manhã passo a mão pela barriga. Todo dia de manhã me preocupo em não me preocupar e todo dia de manhã continua com todo dia de tarde e todo dia de noite. Todo dia, de manhã ou de noite, sou ser humano com meu currículo completo: mesquinha, metida, egocêntrica, alterada, louca, altruísta, de bem com a vida, decidida, mal humorada, bem humorada, musa, vivida, perdida, mãe, irmã ou filha, aprendiz, professora, escritora, amante, senhora, senhorita, esquecida, lembrada, saudade, despedida…

A vida secreta dos cones

O cidadão sobe a rua Cardoso de Almeida por volta da uma da manhã. A ladeira, como quaisquer outras em Perdizes, parece sem fim e mais declive. A rua Dr. Homem de Melo fica para trás, a Turiassú ou Turiaçu – as placas adoram pregar peças nos pedestres e motoristas quanto a ortografia correta do logradouro ora mão dupla, ora mão única – está ainda mais longe da vista, perdida na imensidão da noite.

O cidadão opta por caminhar perto do meio fio a ter de encarar as diferentes nivelações da calçada – o esforço é bem maior, fique ciente. Conquanto, uma fileira de cones listrados com as cores laranja e branca, uma sinalização da empresa de Gás ou uma nova obra do metrô (hahahaha), fará o cidadão escolher entre transitar fora do meio fio e mais para o meio da rua ou enfrentar as mal fadadas calçadas da zona Oeste.  Leia mais