Foto por GaryTube, CC BY 2.0

Am I a good man?

Acordei. Não como em todas as manhãs, nenhuma é igual a outra. Há dias em que desperto com mais ânimo, em outras com uma preguiça não merecida de uma noite bem dormida ou vezes em que aparento não ter aberto os olhos. Dessa vez, em particular e peculiar, despertei de sonhos esquecidos com uma pergunta palpitando feito enxaqueca pós-etilíca-tabagista: Am I a good man? Sim, em inglês mesmo. O idioma não importa, abri os olhos certa vez com um período todo em alemão que me perseguiu por dois dias inteiros. O francês pouco incomoda, mas quando aparece é terrível, não tanto quanto o espanhol – carregado de palavras sujas ou maldizeres. D’us é poliglota.

Acordei. Com “Am I good man?” e repeti para mim mesmo. Nos últimos tempos isso tem me perturbado mais do que a ansiedade, eu tentando analisar as minhas boas e más ações, daquelas não premeditadas, as quais nunca pensei ter um efeito bom ou ruim nas pessoas. O resultado, a consequência. Quando percebi havia adentrado nessa questão existencialista de como pessoas nos levam para um rumo da vida, não importando o quão planejado estamos. Isso se deve aos nossos impulsos. A princípio isso nada tem a ver com a pergunta perseguidora. Conquanto: tem. Se uma pessoa pode influenciar nas minhas decisões e planos, porque eu não teria o mesmo efeito prematuro ou tardio?

Levantei. Levantar é diferente de acordar. Você desperta, abre os olhos, vira para um lado, vira o outro, e sente como se não houvesse deslocamento entre um e outro. Levantar exige mexer as pernas, encostar o dedão e os demais dedos em sequência no chão. Espreguiçar e coçar alguma parte do corpo: olhos, costas, braços, rosto. Mesmo depois de todo esse ritual, “Am I a good man?” ainda estava aqui. A coceira não levou embora.

Conversei. E conversar quer dizer falar e escutar, escutar e falar. Pouco importam nossas intenções no mundo, com as pessoas e com nós mesmos. As boas ações podem ser más para os outros e você, ou eu no caso, ficamos com a pergunta na cabeça: “Am I a good man?”, “O que eu fiz de errado?”, e depois, “Devia ter falado isso?”, “Foi certo o que eu fiz?”.

Pensei. Dizem: “pense duas vezes antes de falar algo”, “pense duas vezes antes de fazer algo”. Pense quantas vezes for necessário, mas o impulso pode ser mais forte que o pensamento, do que a represália. Em tempos modernos, verborrágicos e velozes, nos esquecemos de pensar tantas vezes e quando pensamos entramos em um ciclo pequeno de autossabotagem e deixemos que as coisas aconteçam naturalmente.

Porém. Pensar em demasia cria minhocas – nunca entendi essa expressão – na cabeça. Ou seja, é apenas algo da sua cabeça. Essa oficina de ócio pronta para ocupar o que há de sadio e sábio nas sinapses.

(O inferno está cheio de boas intenções. O inferno são os outros. E nunca você mesmo?

Are we good men?)

Sai de casa. Não como um Zé a caminho da padaria para comprar cigarros e nunca mais retornar. Sai de casa para enxergar além do meu universo particular. OK, isso é meio pomposo. Dentro do meu estado particular. Meu bairro particular. Minha rua particular. Minha casa.

Particular. Uma palavra medonha e necessária.

Hoje eu vi rostos familiares em desconhecidos, o que não era uma ilusão de óptica e nem mesmo saudades. Semblante de pessoas queridas ou esquecidas – daquelas que habitam o profundo inconsciente da memória, vistas uma vez no máximo ao longo da vida. Rememoro esses encontros relâmpagos e crio histórias particulares delas para mim. Mudo seus nomes, seus signos, suas origens. A memória é traiçoeira após uma par de anos, uma mentirosa construindo empatia, desprezo, cólera. Os íntimos desconhecidos com histórias peculiares, ordinárias, ambíguas. Todos fazem parte de uma lista de pequenas nuanças do cotidiano citadino: cabelos, fones de ouvido, olhos marejados, sorrisos escondidos, tementes a D’us e outros tantos onipresentes, anéis, colares, tatuagens, medos, amores, idiomas, dialetos, olhares perdidos à procura… Pessoas. Mulheres, homens, gêneros.

Quais farão parte da sua vida?

Sam & eu

O pedido parecera simples: escrever um manifesto sobre o dia dos pais. Não um manifesto qualquer no qual é citado cada definição para a paternidade, autoridade e patriarcalismo. Uma torrente de ideias feéricas transmitindo a verdade de todas as faces e gêneros de um antes conhecido pai de família.

Estava sentado na mesa da sala de estar, o computador aberto há duas horas, a garrafa de água não estava mais gelada, e redesenhei sentença por sentença. Evitei os pronomes masculinos, os clichês e lugares-comuns, as frases batidas – modificadas ou adaptadas. A voz para conduzir essa narração empoderada – ou seria empoleirada? – teria de ser neutra, mas carregada de emoção; firme, conquanto gentil. Cansada e ao mesmo tempo disposta. De leveza dúbia e, acima de qualquer circunstância, uma voz reconhecível para filhos desgarrados ou fãs de seus progenitores (e essa palavra estaria proibida, não faria sentido usá-la – eu falava de uma figura mais do que biológica). Leia mais

Cama de Gato

Na morte de 2014 e no nascimento de 2015 – praticamente um natimorto – eu tomei uma decisão (ou seria uma prospecção?) daquelas que ocorrem, estilo epifania/insight, sobre qual seria a minha meta. Nunca fui um fiel às minhas promessas de ano novo. Como diria Guimarães Rosa: “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior”; e como eu poderia manter uma promessa se dali um mês, quiçá uma semana, ou até na manhã de ano novo, curtindo uma ressaca de cachaça curtida, eu seria outra pessoa? Mas a minha meta foi: o profissional viria antes do pessoal em 2015.

Explico: entre 2008 e 2014 sempre coloquei minha vida pessoal em primeiro plano. Festas? Com certeza. Encontro com amigos? Sim, senhor. Uma desculpa para beber, namorar e não se preocupar com nada? Concordo. A labuta era só uma maneira de administrar essa vida pessoal no financeiro. Afinal, nem todos os amigos querem pagar uma rodada de suco pra galera. Leia mais

Uma colcha de retalhos

Não é que eu odeie efemérides. Apenas as considero totalmente desnecessárias de um modo geral. Pensando bem, na verdade, elas são uma manobra para lá de pobre para conseguir uma certa audiência para um veículo de comunicação. Usar a data de morte, de aniversário, de primeiro lançamento – sem ser com números redondos – não faz lá muito sentido para mim. Eu sou hipócrita. Usei e abusei, reutilizei e reciclei efemérides mil, contudo posso acusar minha pouca idade para dizer: considerava legal resgatar essas datas como uma forma de celebrar a memória de um ídolo.

Outra coisa que vejo se espalhando pelos quatro cantos da internet são marcas utilizando datas para criar algum post de trocadilhos ou mesmo de “homenagem”. Se antes datas como Dia dos Pais, Dia das Mães e Dia das Crianças eram alvos fáceis para propagandas de um mês, dois até, pelo menos ficávamos nisso. As datas fora do eixo comercial (dia do datilógrafo, dia do radialista, dia da comunicação…) são muletas para aleijados criativos. Me desculpem, mas é verdade. Pior, já fui vítima explorada por superiores insistindo que esses atalhos fáceis para preencher vácuos eram não somente necessários, mas estritamente importantes.

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Cúmplices

“A vida em si é uma citação.” – Jorge Luis Borges

Uma das coisas mais legais após a Flip são as turnês dos autores para quem não conseguiu estar em Paraty. Numa dessas oportunidades encontrei Enrique Vila-Matas sem saber que ele estaria no mesmo recinto, na Livraria Cultura no Conjunto Nacional da Paulista. O autor estava lá para lançar oficialmente Ar de Dylan e dando uns vistos nos livros de todo mundo. Narrei esse acontecimento na época.

Comecei a ler o livro ao chegar em casa e encontrei um personagem familiar, não aqueles costurados entre-narrativas como os de Roberto Bolaño, mas um da vida real. Tratava-se de Emilio Fraia, em uma passagem breve da narrativa por São Paulo e pelo Mercado Municipal da cidade. Fraia era o editor de Vila-Matas na Cosac Naify e, claro, tinha contato direto com o escritor quando ele estava pelo Brasil. Não sei ao certo se a passagem é inteira verdadeira ou se apenas parte dela. Leia mais

Namore alguém que

Namore alguém que lê, e quando esse alguém te indicar o livro favorito dele você não vai gostar e vai ficar climão. Pior, o mesmo vai acontecer quando você indicar o seu.

Namore alguém que goste de cinema, e quando esse alguém disser que adora os filmes de Godard você vai torcer a cara e falar que Antonioni é melhor. Mas todos sabem que Bergman pisa nos dois.

Namore alguém que deixe você sem ar, mas avise esse alguém se você tiver asma.

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Acendi

Acendi este cigarro após parar com o tabagismo durante três longos anos. Nem mesmo bêbado traguei tão rápido quanto dessa vez. Não senti tal velocidade. O tempo parou e aquela cortina de fumaça, paralisada no ar, fez o gesto de uma mão e me arrancou todos os pensamentos. Um instante como aqueles, durante uma conversa, em que você olha estático para um ponto qualquer – no qual a alma se desprende do corpo para passear. O fio da meada perdido por uns instantes eternos e efêmeros. Leia mais

Qual o seu livro favorito de todos os tempos?

O que seria pior: uma criança te perguntar de onde vêm os bebês ou qual o seu livro favorito? Não estou falando da dimensão ou da importância da pergunta, mas da reação de quando somos pegos de surpresa por uma pergunta inesperada.

Fiz esse teste via Facebook – sob o risco de ser bloqueado por mandar a mesma mensagem para múltiplos recipientes – para ver como as pessoas reagiriam a uma pergunta enviada fora de contexto. Os alvos escolhidos foram meus últimos contatos na famigerada inbox. O que resultou está abaixo: Leia mais

A sós

Semana passada resolvi jantar sozinho. Não cogitei chamar ninguém, de verdade. Há mais de cinco anos eu não realizava tal ritual, se é que posso chamar assim, e essa tem sido uma das escolhas mais acertadas dos últimos meses. Sei que parece uma espécie de isolamento do mundo. Longe disso. É uma forma que encontrei para fazer as pazes com meus próprios pensamentos – o que é irônico pois cada vez mais ouço o quanto tenho uma contração no rosto que denuncia quando penso demais e, pior, tenho essa péssima mania de perder o fio da meada conversando com pessoas e sozinho também.

Escolhi um bistrô perto de casa com luz baixa, geralmente bastante movimentado, e pedi o prato de sempre, o vinho de sempre e me pus a permanecer em silêncio e tentei evitar ao máximo observar as pessoas fixamente – jamais negarei o quanto eu gosto de fazer isso, mas talvez seja um assunto para outro dia. Passei por diversas fases de inanição, de olhar fixamente para um ponto nada interessante até fazer os movimentos inconscientes de mexer na taça para ver o vinho “chorar” ou cutucar meu garfo sem uso até então. Em outros tempos eu levaria um livro para me acompanhar e me distrair antes do prato chegar. Dessa vez foi diferente, eu não queria uma distração, um disfarce para mostrar que gostaria de estar sozinho. Leia mais

Não toca

O telefone não toca mais. Não toca. Você espera ansioso, aflito, mas lânguido. Pronto para dar um salto de um susto anunciado. Mas ele não toca. Desliga a campainha para sentir apenas a vibração, mas não vibra, não acende, não pisca. O telefone está intacto, você, paralisado. As pernas repuxam de fadiga, estão se movimento para cima e para baixo – inquietas – e o telefone não toca. Repassa e questiona o que disse anteriormente, se fora rude ou amável, se escolheu cada palavra de forma correta para construir sentenças, ora memoráveis, ora vulneráveis e todas com uma única vontade – maior e mais intensa do que a vontade de que o telefone toca. Mas ele não vai tocar. Você sabe disso. Quer acreditar nisso. Quer se negar a aceitar que, talvez em dado momento, ele te surpreenda de verdade e toque. Você se distrai com lembranças aleatórias e rememora sorrisos. Leia mais

Te leio, te furo

Esqueça.

Sim, esqueça.

O que você aprendeu com Sibila Trelawney e suas borras de café nas aulas vespertinas de Hogwarts, a dedução aguçada de Sherlock para descobrir como um sujeito se barbeia à luz da lua. Simplesmente esqueça a cartomante de Assis ou Lispector. A quiromancia tradicional de séculos. Esqueça o terapeuta de 250 reais por sessão. Você não é Tony Soprano.Uma barata não será tua guia espiritual. E esqueça porque não vou aconselhá-lo a olhar para dentro de si para encontrar a si mesmo e o que fazer com o seu futuro. Muito menos encarar olhos nos olhos no espelho e descobrir que eles não têm fim.

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Enjoo Matinal

Todo dia de manhã gostaria que fosse como o dia anterior. Todo dia de manhã gostaria que não tivesse raiado o dia. E todo dia de manhã gostaria de não ver ninguém de manhã, de tarde ou de noite. Quase todo dia na manhã penso na inspiração que me carregará por todo dia. Todo dia de manhã deixo passar pela ressaca da noite anterior. Todo dia de manhã eu desejo que o dia não se repita. Mas todo dia de manhã eu desejo que todo dia seja igual. Todo dia de manhã me pergunto do futuro e todo dia de manhã não quero pensar no futuro. Todo dia de manhã eu me preocupo, mas todo dia de manhã não calculo. Todo dia de manhã é todo dia de manhã, igual e diferente, de novidades velhas e velharias novas, das mesmas conversas ou pensamentos. Todo dia de manhã eu tenho preguiça. E todo dia de manhã quero fazer algo para mudar de vida. Toda manhã eu enjoo em pensar nas náuseas de amanhã. Todo dia de manhã mulher ou menina. E toda manhã de neblina gosto de recordação. E quando a madrugada ainda não é dia, mas todo dia com você quero compartilhar um dia, uma cama, uma vida. Todo dia de manhã vivo de amor. Mas todo dia de manhã penso que não dá. Todo dia de manhã tento lembrar o que toda a noite antes de dormir me faz pensar. Todo dia de manhã já dei um tapa. Todo dia de manhã já dei um beijo. Todo dia de manhã passo a mão pela barriga. Todo dia de manhã me preocupo em não me preocupar e todo dia de manhã continua com todo dia de tarde e todo dia de noite. Todo dia, de manhã ou de noite, sou ser humano com meu currículo completo: mesquinha, metida, egocêntrica, alterada, louca, altruísta, de bem com a vida, decidida, mal humorada, bem humorada, musa, vivida, perdida, mãe, irmã ou filha, aprendiz, professora, escritora, amante, senhora, senhorita, esquecida, lembrada, saudade, despedida…