A Flip da falta

“Por que você ainda vem à Flip?”, o Grilo Falante perguntava, insistente, enquanto desembarcava na rodoviária de Paray.

Ok, eu estava muito cansado – não bastava a viagem de madrugada, era necessário um acidente entre o ônibus e um caminhão? – e, pela primeira vez, não ficaria na festa todos os dias, mas isso era irrelevante: se a programação estivesse batuta, um energético seria suficiente para espantar o desânimo. Não estava, contudo. Nenhum nome me fez ficar online no início da venda dos ingressos e, pela primeira vez, fui sem comprar nada antes. Leia mais

Por que você não escreve?

Porque estava…
…cultivando um bigode.
…lendo. E, convenhamos, ler é bem mais gostoso do que escrever.
…abandonando livros. Talvez seja caso de “Ressaca Literária 2 – o retorno” ou pura falta de fôlego (e saco) para obras mais longas. Só sei que muita coisa boa ficou pelo caminho. Li apenas 10 páginas d’A amiga genial (Elena Ferrante), fiquei no primeiro quarto de Clímax (Chuck Palahniuk) e esqueci de continuar a leitura no auge do suspense de Aniquilação (Jeff Vandermeer).
…vivendo o karaoke’s way of life.
…experimentando outras famílias que não a minha – e aceitando de bom grado todo o amor que me foi dado.
…me movendo como Tautou.
…tomando nota de detalhes de eventos sociais (para futuro uso literário, claro) em conversas do WhatsApp e, no interim, acordando os amigos que recebiam essas mensagens.
…não conseguindo me mover como Tautou – e não há nada mais triste do que ver isso acontecer enquanto “Shake it off” bomba nos amplificadores.
…filosofando ao comer um pão de mel.
…tentando aprender algo com livros que prometiam me fazer escrever melhor.
…sendo assaltado.
…planejando grandes gestos dramáticos (parte de mim insiste em classificá-los como românticos, enquanto outro pedacinho sabe muito bem que isso não passa de uma grande besteira) e depois resolvendo deixá-los para a literatura.
…desvirtualizando gente. “Amigos” de facebook tiraram as aspas na vida real e o carinho rolou solto.
…lembrando como é bom ter um tempinho de ir ao cinema e ver um filme bacanudo.
…me perguntando o que raios vim fazer nessa cidade.
…vendo meu cérebro entrar no modo “proteção de tela” umas 35 vezes por dia.
…consolando.
…sendo consolado.
…almoçando rapidinho com amigos e correndo pra não chegar atrasado no trampo.
…levando a sério meu estudo de personagem.
…criando uma playlist para uma cidade.
…trabalhando pra burro – às vezes indicado livros que amo (e vendo-os serem comprados), às vezes quebrando a cabeça para descobrir qual era o bendito dono “da capa azul que estava bem ali há duas semanas”.
…deixando o cabelo crescer como nunca antes na história desse país.
…voltando a ler teoria e crítica literária, agora longe do mestrado, e achando o máximo.
…adoecendo e indo repetidas vezes ao médico. Nada como o visual junkie-viciado-em-heroína após algumas doses de soro e uns exames de sangue, com o lado interno do cotovelo já familiarizado com as agulhas.
…decidindo se, após certo tempo, não importando o quanto me orgulhe do resultado (de vez em quando isso acontece), ainda valeria a pena publicar um texto.
…ouvindo os novos cds de alguns de meus cantores e bandas favoritos. “Novos” talvez não seja o melhor adjetivo: os álbuns do Mika e do Pato Fu talvez até possam ser considerados assim (fim de 2014), mas o da Aimee Mann é de 2012.
…descobrindo alguns “velhos”: depois de 1989, resolvi viciar também em Red. (Obrigado pela graça alcançada, dona Taylor Swift.)
…avaliando provas antecipadas de amigos talentosíssimos. Gente que já tomou café da manhã comigo escrevendo bem que só vendo. Ou só lendo.
…dando um pulinho na Flip.
…retornando à casa – e me perguntando, ao andar por ruas tão familiares e encontrar conhecidos a cada cinco minutos, por que não jogo tudo para cima e volto para Curitiba.
…sendo bloqueado nas redes sociais por gente que me era querida.
…assistindo desenho em noites de insônia, me esquecendo das inúmeras séries que deveria estar acompanhando. Ah, e de escrever, claro.
…me esquecendo de anotar coisas que deixariam essa lista mais engraçadinha.
…escrevendo cartas que não mando.
…prometendo voltar à academia na semana que vem.
…me maravilhando com sense8.
…sentindo uma saudade imensa da família.
…matando algumas saudades – se não da família, ao menos da cidade que me acolheu por 10 anos e de alguns dos amigos que deixei por lá.
…fazendo listas com itens repetidos, mas isso vocês já perceberam.
…procurando um lugar para morar.
Em suma: procrastinando. Mas para dar tanta desculpinha esfarrapada eu precisei escrever. Talvez isso signifique alguma coisa.

Na cama com Paul Thomas Anderson

Há quem diga que não há amor em SP, mas não foi essa a minha experiência. Quando soube que mais um nordestino estava vindo para ficar, a cidade resolveu que me daria as boas-vindas de forma inusitada: uma madrugada cinematográfica com um dos meus diretores favoritos.

Segundo a tradição do cinema Belas Artes, a terceira (ou seria a penúltima?) sexta-feira do mês é dia de maratona noite adentro. Os filmes escolhidos não são aleatórios: ou têm o tema em comum ou pertencem à filmografia do mesmo diretor. Três coisas são certas: pelo menos uma das sessões é uma incógnita – ninguém sabe qual filme será exibido; quando o último filme termina, o metrô já voltou a funcionar; e os bravos que ficam até o final ganham um lanchinho a título de café da manhã.

No dia 20 de março de 2015, foi no Noitão – nome do evento – que se deu a pré-estreia do último filme de Paul Thomas Anderson, Vício Inerente. As três salas que o exibiram projetaram, logo depois, dois outros filmes do diretor – cujos títulos só foram revelados pouco antes da primeira sessão começar. Leia mais

Wait for it

No seriado How I met your mother, certo personagem costumava enfatizar seu entusiasmo por algo por meio de pausas dramáticas: não bastava Barney dizer que algo seria “legendary” (lendário, em tradução livre), era necessário separar a palavra em duas partes e fazer o interlocutor esperar pela segunda: “legen – wait for it – dary!”. Nove temporadas foram suficientes para explorar um número impressionante de variações sobre o tema, a maior delas quando tivemos de esperar pelo começo da terceira temporada para se completar uma palavra iniciada na conclusão do episódio final da segunda.

Esse tipo de espera tornou-se a companheira inseparável de muitos leitores de YA, em especial para os que anseiam ver seus livros favoritos adaptados para o cinema. Harry Potter lançou tendência e hoje parece ter se tornado impensável que o último volume de uma série dê origem a apenas um filme: Crepúsculo, Jogos Vorazes e Divergente seguem a moda do bruxinho. A espera entre as duas partes do filme geralmente é de um ano. Leia mais

#leiascifi2015

Você já pode tê-la lido em uma ou outra coluna minha, em um ou outro comentário aqui no Posfácio. Pode ser que você a tenha visto no meio de uma lista da Taize, em legendas da Simone no Instagram, no Twitter ou na página de uma editora no Facebook. Há alguns meses venho brincando com a ideia do #leiascifi20151. Hoje foi o dia escolhido para seu lançamento oficial.

Resumidamente, venho por meio desta informar que, em 2015, já me comprometi a ler ficção científica. Serão pelo menos 12 livros, um para cada mês do ano: uma quantidade que, suponho, devo dar conta2. Leia mais

  1. Uma das inspirações é clara: o #leiamulheres2014 – projeto que acompanhei e que algumas pessoas estenderam para 2015.
  2. Com muito menos – apenas um título – você já começa a participar do Desafio do Livrada, do meu brother Yuri.

Flip is for Fitzgerald

Tem uma hora que a gente precisa se sentar e conversar: essa é a hora.

A frase anterior – e algumas das seguintes – foram escritas ainda em Paraty, quando pensei que teria paciência de ficar escrevendo na Casa Posfácio, enquanto a Flip tresloucava lá fora. O resto foi escrito em São Paulo, Curitiba, Recife e, por fim, concluída na praia de Tamandaré – sua publicação depende do wifi de uma sorveteria. De tão adiada, o editor recomendou que a coluna fosse guardada para a semana de aniversário do site. Obedeci. Leia mais

Jogando livros no Teste Bechdel

Saímos de 2014, mas 2014 não saiu da gente. Pouco depois de publicar meu último texto da hashtag #leiamulheres2014, me foi sugerido escrever sobre o Teste Bechdel. Como o teste já era familiar para mim desde que descobri o canal do YouTube Feminist Frequency – há dois vídeos específicos sobre o tema –, eu já conhecia suas regras. Para passar nele, um filme: Leia mais

Ressaca Literária

Basta seguir duas ou três editoras no instagram – ou ter amigos para os quais sua principal característica é “ser um leitor” – e pronto: você está prestes a aprender compulsoriamente novas palavras e expressões que farão parte do seu dia a dia. As pilhas de romances recém-adquiridos são justificadas pelo tsundonku crônico e as pessoas passam a ser elogiadas de forma inusitada (“Miga, você está tão livro hoje!”). Por vezes, uma imagem resume toda a aflição de não ter com quem comentar uma leitura.no fandom Leia mais

Como salvar um ano ruim

Como medir o ano? Essa pergunta intrigou tanto civilizações antigas – que ajudaram a montar os calendários que usamos – quanto Jonathan Larson, o compositor do musical Rent. Mas como contar o ano?

Andam dizendo que 2014 foi um ano horrível. Pudera: morreu uma pá de gente importante e tivemos de nos acostumar às notícias mais bizarras. Chegou a um ponto de que nada mais nos surpreenderia. Leia mais

O que deu para fazer em matéria de #leiamulheres2014

Depois do texto de Luisa Geisler sobre o tema, julguei que não havia necessidade de mais um texto sobre a hashtag. Ela foi lá, pôs os pingos nos ii, citou Elvira Vigna, a pesquisa da professora Dalcastagné e os números do site VIDA, e apresentou alguns dos “elogios” que costuma receber.

Meu favorito é “você não escreve como as outras mulheres”. “Na verdade, eu escrevo como mulher, sim. Você que é babaca mesmo”, é a resposta que tenho pronta.

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Breve Queerlist da Literatura Brasileira Contemporânea

Como não sei o quão familiarizado você está com loucos de palestra, uso um trecho do livro de Vanessa Barbara à guisa de preâmbulo. Leia mais

Breves notas sobre a diversidade

Ufa. Deu.1

Achei que logo depois de dar, a vida compensaria todo o tempo em que a adiei. Não foi bem assim. 2 Leia mais

  1. Ao menos até a defesa do mestrado, não mexo mais na dissertação tão procrastinada, principal motivo para eu deixar livros pela metade e escrever colunas mais curtinhas (o que inclui esta), aquele texto que só me permitia ficar cinco minutinhos na internet e do qual adaptei um pedacinho para transformar em uma coluna.
  2. Deu um sono. E com ele veio um desânimo. E com este veio aquele desesperozinho de que esse brinquedo não quisesse mais funcionar, desacostumado que estava de que dessem corda nele.