E Mário saiu do armário

18 de junho de 2015: o dia em que Mário de Andrade saiu (ou melhor, foi tirado) do armário. E daí? Saiu ao público a chamada “carta secreta” de Mário para Manuel Bandeira – ou Manu, seu apelido –, que até hoje se encontrava escondida na Fundação Casa de Rui Barbosa, a pedido da família, pelo que dizem. Após certa movimentação judicial, iniciada por um jornalista, com base na Lei de Acesso à Informação, o texto foi finalmente revelado. Não é só um texto nem uma carta, mas também um documento (histórico) e – por que não? – um texto de Mário de Andrade, com seu estilo epistolar todo especial. E bonito, claro.

E daí? A carta, como todos esperavam – porque os boatos sempre chegam cedo –, realmente trata da homossexualidade do escritor. Sim, bem assim, direto ao ponto. Não se trata mais de um dos “indícios” sempre apontados pela crítica a partir da sua correspondência e também da sua literatura, indícios esses que agora se tornam automaticamente parte de uma estrutura toda coerente para o leitor. Nunca mais leremos nada seu do mesmo jeito. O que para alguns era só um boato é agora fato. As descrições dos corpos dos indígenas (homens) e da “flor inserida no…” de outro índio em O turista aprendiz podem ter todo um outro significado a partir de hoje. Mário é, finalmente, um escritor gay. Mas e daí? Essa é a questão. No fundo, nada muda, mas também tudo muda.

Leia mais

1965, 1969 ou a desilusão à máquina de escrever

Gosto muito da decadência. Não de um modo todo gótico de ser, como se fosse um performer que não entendeu bem o método de Marina Abramović. Não sou decadente. Talvez isso seja já ultrapassado. Deixemos o decadentismo para o século XIX. Quando falo de decadência, falo de duas coisas ao mesmo tempo: a decadência segundo aqueles que não se veem decaídos e a decadência segundo aqueles que se veem decaídos à revelia. Nada por premeditação, mas sim por constatação. É daqueles momentos em que podemos dar os nomes aos bois, ainda que cada um dê nomes diferentes para as mesmas coisas (ou bois). Nesses momentos, sempre surgem ótimas criações artísticas, mas nem sempre elas conseguem dar conta desses dois pontos de vista de decadência que coloquei aqui.

Dois exemplos de uma arte da desilusão, ou melhor, da decadência que acho que trazem em si os dois tipos a que me referi: O desafio (1965), de Paulo César Saraceni, e Détruire dit-elle (1969), de Marguerite Duras. Apenas exemplos, não provas definitivas de uma hipótese. São dois filmes, sendo um deles – o segundo – também um livro (talvez um romance?). Vou me concentrar apenas nos filmes para facilitar o processo. A grande continuidade entre eles, acredito eu, é que nem sempre os ideais políticos de uma geração parecem exercer uma força possível contra a decadência, mas isso é posto não exatamente de uma maneira ostensiva, impondo-se uma interpretação e uma resolução para o mundo. O dilema é posto, ou ainda, o desafio maior, se ficarmos com Saraceni.

Leia mais

A impressão da geração

Sempre achei engraçada a noção de geração. Nunca me fez muito sentido, ao menos quando era mais jovem. Agora, a própria necessidade de, com 25 anos a completar neste mês, me situar em relação aos outros mais velhos e mais jovens – e me definir como “mais velho” em relação a alguns – demonstra que, sim, existe alguma noção de geração que vale a pena usar. Qual seria essa noção? E por que usamos esse conceito para além da questão da idade, para questões até mesmo estéticas (“geração de 45”, “geração de 90”)? Acho que existe aí uma precisão que, talvez, não exista.

Até anos atrás, as pessoas sentiam a vontade de se voltar para os anos 80. Quando digo “as pessoas”, com essa determinação do artigo, são aquelas com que, é claro, estava envolvido no cotidiano, conhecidas ou não, meras figuras musicais ou amigos de colégio. Ainda assim, acredito que, mesmo aqueles que viveram todo o oitentismo na época certa, e não apenas nasceram na década para logo entrar nos anos 90, também têm se visto forçados a buscar algo para se tirar daqueles anos. No meu caso, acredito que até mesmo os anos 90 têm passado por uma brusca reavaliação, como que por uma revelação divina.

Leia mais

Quem vence o Jogo do Dia da Mentira?

Hoje, 1º de abril, somos lembrados dos 50 anos do Golpe de 1964. Digo que “somos lembrados” porque, infelizmente, a maioria não pensa nesse dia desse modo com facilidade. É engraçado perceber como desde a escola parece que somos estimulados a associar a data ao Dia da Mentira – que também tem seu fundo cultural, por incrível que pareça – e não à tomada de poder pelos militares no Brasil. Esse fato, assim como outros, mostra como ainda não sabemos lidar bem com essa parte da história nacional. A Lei da Anistia por anos estimula indiretamente o esquecimento dos responsáveis pelas atrocidades cometidas durante a ditadura, sem falar no próprio constrangimento da maior parte dos veículos de imprensa diante do assunto (afinal boa parte dos empresários do ramo apoiou o golpe). Como podemos fazer com que uma criança entenda, por exemplo, o peso do 1º de abril?

Essa criança também não tem muita noção dessa data como parte da história dos brasileiros. Resta-nos tentar lhe dar noção do percurso da ditadura a partir de 1964. Recentemente, o UOL Educação, site conhecido por divulgar notícias sobre a área educacional bem como instrumentos para reflexão para o aluno e o professor, tentou elaborar um meio para que alguém, de forma lúdica, tome conhecimento da história desse período. A opção dada foi um jogo interativo chamado “50 anos do Golpe”. Acredito que uma criança não se interessaria muito por esse jogo em especial, mas ele demonstra como ainda não sabemos lidar com a questão sem sermos levianos. Leia mais

Um beijo de lado, de frente e de rasteira

Dias atrás, viu-se com certa apreensão e alegria ao mesmo tempo a primeira ocorrência de um beijo entre dois homens em uma telenovela brasileira, no último episódio de Amor à vida, transmitida pela Rede Globo. Basicamente isso. Com certeza, boa parte da população nacional já deve ter se deparado com dois homens se beijando na rua ou até mesmo na televisão. Ao mesmo tempo, no mesmo mês, pelo menos três ataques nas ruas de São Paulo a jovens homossexuais, dois resultando mortes violentas, acontecem e não parecem sensibilizar a mídia nem o povo do mesmo jeito. Aqueles que se colocam diante da sociedade ao se beijar recebem dela uma rasteira. Na televisão, a história parece diferente.

A princípio não quero discutir tanto se o “beijo gay” da Rede Globo foi realmente o primeiro beijo. Aparentemente, ele já aconteceu antes, em 1990, em uma série da extinta Rede Manchete. Apesar de a lembrança ser importante, assim como aquela de que já houve um beijo entre duas mulheres, na telenovela Amor e revolução, do SBT, em 2011, pareceu mais relevante para a maioria das pessoas o acontecimento mais recente, o do “beijo gay” da Rede Globo. Um beijo de lado, no último momento, que por alguns motivos impressionou todos. Só nos resta entender todos os lados desse beijo para além daquele transmitido em cadeia nacional. Leia mais

Sobre a arquitetura brutalista (e como ela se mantém)

O texto abaixo, correspondente à minha coluna deste mês, não é novo; ele já foi postado sob o nome de: “Uma pequena nota sobre arquitetura brutalista (e muito além disso)”, em agosto de 2012, na Revista Sinuosa, blog cultural inativo atualmente. Gostaria de publicá-lo novamente, com alguma revisão e expansão do texto, desta vez no Posfácio, porque acredito que algumas questões levantadas aqui de maneira modesta ainda são relevantes. Elas devem ser pensadas não apenas sobre a arquitetura, mas sobre a preservação das artes em geral. O Brutalismo, no caso, só parece ser um exemplo mais evidente por seu acentuado caráter de ruptura com a tradição.

— — —

Antes de tudo, vale uma pergunta: você sabe o que é arquitetura brutalista? Acredito que a maioria das pessoas tem uma noção do que é arquitetura moderna, no sentido de Modernismo, a partir da qual já vêm à mente exemplos vários, de Le Corbusier a Oscar Niemeyer, passando por alguns americanos como Frank Lloyd Wright e outros. A preservação de edificações representativas de arquiteturas pertencentes ao passado é defendida por muitos motivos, mas acredito (como puro leigo) que isso não é tão claro para todas as obras modernistas. Leia mais

A cultura como formação e deformação

“Seu sonho (confessável?) seria transportar, para uma sociedade socialista, certos encantos (não digo: valores) da arte de viver burguesa (eles existem – existiam alguns): é o que ele chama de contratempo. Opõe-se a esse sonho o espectro da Totalidade, que exige que o fato burguês seja condenado em bloco, e que toda escapada do Significante seja punida como um passeio do qual se traz a mácula. Não seria possível gozar da cultura burguesa (deformada), como de um exotismo?”[1]

 

Roland Barthes, em seus fragmentos autobiográficos (Barthes par lui-même, 1975), parte da coleção “L’écrivain par lui-même” (“O escritor por si mesmo”), demonstra a todo momento que, apesar de estar falando de si (até mesmo na 3ª pessoa), também trata da arte, do pensamento humano e, consequentemente, de todos nós. É claro que não deixamos de ver o mundo nesse livro através dos olhos do teórico francês; Barthes faz questão de nos levar consigo para sua “aventura da escritura”. Ainda que o espectro barthesiano nos remeta inevitavelmente ao pós-estruturalismo francês, acredito que muitas ideias dispostas ao longo de sua “autobiografia crítica” podem ser consideradas até mesmo pelos que normalmente detratam suas posições teóricas. A passagem citada acima é um desses casos. Leia mais

Thomas Mann e o decadentismo: a figura do artista em Morte em Veneza

A leitura das obras de Thomas Mann, como Morte em Veneza (1913) e outras do início de seu percurso como escritor, pode ser realizada tranquilamente, sem grandes preocupações, porém quando nos preocupamos com a forma dessas obras, podemos ficar intrigados. No início do século XX, ainda há publicações como Morte em Veneza, em que um personagem como Gustav von Aschenbach parece estar em um enredo decadentista. Seria, então, Thomas Mann um escritor decadentista?

Essa questão já foi levantada por alguns estudiosos de sua obra, e ela não foi feita à toa, pois, como disse, a leitura um pouco mais atenta desse romance nos incita para a dúvida, para um desejo de entendê-la. Geralmente, a historiografia literária tende a compreender a obra de um autor relacionando-a com o contexto social e artístico da época de sua publicação, já que se imagina que o escritor é influenciado pelo mundo em que vive. Por isso, surge a dúvida sobre esse decadentismo fora de época, incompreensível dentro de uma análise historiográfica mais comum. Leia mais

Leitores de poesia estoniana do século XVIII e seus amigos

É estranho como às vezes as pessoas desenvolvem interesses muito específicos. São vontades sistemáticas de se apropriar de hábitos, culturas e habilidades especiais, referentes a um hobby ou um campo de conhecimento. É só um pensamento que me ocorre com frequência e pensei para esta coluna. São muitos os que, desde a infância, procuram memorizar capitais de países, colecionar jogos de uma determinada série, saber todos os planos de um filme ou algo do tipo. Pode ser real interesse no assunto ou só uma obsessão, dependendo da pessoa. Em muitos casos, parece que quase chegamos à demência de tanto gostar de alguma coisa.

O fato é que isso se estende para a literatura, o cinema, a música. Há exemplos entre escritores e colaboradores deste site, o que com certeza me dá mais razões para pensar nisso o tempo todo. Por exemplo, o Luciano desde que o conheço está obstinado a ler tudo que é escritor do leste europeu, de preferência os marginalizados socialmente (judeus, homossexuais, libertários). Muitas vezes me pego pensando: “será que é só uma obsessão ou ele realmente vê algo em tudo que é autor desses países?” Logo depois, olho para mim mesmo e percebo que também tenho meus interesses específicos demais. Afinal de contas, eu mesmo fui uma daquelas crianças que decorava capitais. Leia mais

Todas as cores da escuridão e um pouco de sangue

Nos últimos tempos, ando entusiasmado demais com um gênero muito específico de filmes: giallo. Não muitos conhecem essas obras do cinema italiano que até hoje têm um caráter duvidoso, sendo ridicularizadas por uns e exaltadas por outros. Os motivos para isso são vários: desde os primeiros filmes, rodados na década de 1960, estabeleceu-se como parâmetro para sua criação a ficção pulp italiana. Os enredos não são, de fato,  muito elaborados, com muitas falhas de coerência narrativa, porém a trilha sonora, a fotografia e a montagem das películas parecem querer exaltar a dramaticidade e o suspense que já havia nos livros.

O primeiro giallo teria sido La ragazza che sapeva troppo (1963), de Mario Bava, um dos diretores mais prolíficos do gênero. O título é uma clara referência ao clássico The man who knew too much (1956), de Alfred Hitchcock, provavelmente uma das figuras mais presentes no imaginário dos diretores da época. A diferença desse filme de Bava e dos seguintes em relação ao suspense britânico e hollywoodiano é justamente o fato de deixar um pouco de lado a trama em si para explorá-la mais audiovisualmente, talvez. A obra pioneira de Bava, ainda em preto-e-branco, já evidencia sua preocupação extrema com a fotografia, apesar dos baixos orçamentos da época, o que seria levado ao extremo em Sei donne per l’assassino (1964), como pode se perceber desde a abertura do filme. Leia mais

Um dado de lances: A língua fascista e as prisões realistas

Em sua famosa aula inaugural do Collège de France, em 1977, Roland Barthes lançou uma noção que, dentre tantas outras suas, acabou sendo polêmica na medida certa. É claro que se você foi chamado para integrar o corpo docente de uma instituição que reúne alguns dos maiores pesquisadores franceses, você terá a irresistível vontade de chamar a atenção logo de início. Barthes guardou uma carta na mão até esse momento, quando diz que “a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”

Leia mais

Um dado de lances: Viagem ao redor da minha viagem

Para esta estreia da minha coluna, “Um dado de lances” (nome improvisado, deu para notar), queria contar que anos atrás, quando ainda estava na graduação em Letras, pesquisei por um tempo sobre crônicas de viagem de Mario de Andrade e Manuel Bandeira. Pode se imaginar que isso me deixou muito animado para escrever textos próprios sobre viagens. A ideia parece ser ótima, mas há só um problema: eu não viajo muito, e quando o faço é sempre para o mesmo lugar: São Paulo. A questão é que, quando viajo, gosto de usufruir disso de uma maneira diferente dos outros, querendo talvez seguir a experiência quase antropológica de Mario de Andrade na primeira metade do século XX, quando conheceu a Amazônia e o Nordeste brasileiro. Leia mais