A beleza outonal de García Márquez

Quando Memórias de minhas putas tristes foi publicado, em 2004, se desencadeou um verdadeiro frenesi nas ruas da capital colombiana. Tem-se notícia que antes mesmo da publicação oficial, circulava uma versão pirata pelas ruas de Bogotá, uma que continha menos páginas e na qual o desfecho da trama era até diferente, mas que, apesar desses contratempos (menores, dadas a estatura e a popularidade do escritor) era devorada pelos dedicados leitores de “Gabo”.

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Travessia (desperta) pela terra sonâmbula

Já havia me surpreendido muito positivamente com a literatura de Mia Couto quando li um livrinho bem menos conhecido dele, intitulado A confissão da leoa (cheguei mesmo a escrever uma resenha à época). Se tento forçar a memória, lembro de uma narração sensível, na qual a preocupação social e política não serve de empecilho para um lirismo consciencioso (no melhor sentido do adjetivo “consciencioso”): tudo bem azeitado e operante.

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O Sol É Para Todos, de Harper Lee

Dando continuidade ao mês dos clássicos aqui no Posfácio, que já contou com o pioneiro Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, o romance sobre o puritanismo A letra escarlate, de Nathaniel Hawthorne, o poderoso O vermelho e o negro, de Stendhal, e o avant-garde Jacques, o fatalista, e seu amo, de Diderot, veremos agora o clássico americano O sol é para todos, de Harper Lee, em texto da colaboradora convidada Julia Alves.

Escrever apenas um best-seller na vida não é algo tão incomum quanto se imagina1, e Harper Lee integrava esse grupo até pouco tempo, quando anunciou o lançamento de Go Set a Wachtman, continuação de O sol é para todos. O manuscrito foi guardado por cerca de cinquenta anos e narra a volta da personagem principal, Scout Finch, já adulta, à sua cidade natal. O retorno ao passado obriga Scout a lidar com as mudanças inerentes da época sobre o local onde cresceu, e desconstruir a idealização infantil sobre seu pai e herói, Atticus Finch. O novo livro, com pouco mais de duas semanas nas prateleiras, bateu um milhão de cópias vendidas apenas nos EUA, e, no Brasil, já tem lançamento prometido pelo selo Jose Olympio.

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  1. Margaret Michell, por exemplo, autora de …E o vento levou, também integra o grupo de grandes escritores de um livro só.

Jacques, o Fatalista, e seu Amo, de Diderot

Em continuidade à nossa série de textos sobre os clássicos, voltamos agora à França do século XVIII para falar de Jacques, o fatalista, e seu amo. Escrito pelo célebre enciclopedista Denis Diderot, o livro marca a literatura como um cruzamento de diversas tendências, dos contos de amor aos romances de cavalaria, das formas medievais às contemporâneas, com elementos de sátira, crítica social e reflexão filosófica.

A narrativa se desenvolve como uma longa conversa entre o valete Jacques e seu amo (o qual nunca vem nomeado). Os dois partem em viagem, mas desde o princípio o narrador intervém para dizer que não importa entender como teria se formado essa parceria ou com que fim seguem em frente.  O diálogo começa em seguida, e o leitor tem de inferir que, para diminuir o tédio da empreitada, o amo espera que o companheiro lhe conte suas histórias amorosas.

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O Vermelho e o Negro, de Stendhal

Seguindo com o mês dos clássicos, chegamos a uma narrativa que, de forma consciente, propõe-se a ser o tratado de uma época. Quando foi publicado, O vermelho e o negro trazia o seguinte subtítulo: “crônica do século XIX”, substituído posteriormente por “crônica de 1830”.

Não é pouco importante essa delimitação de período, nem o país em que o livro é escrito. Toda a literatura francesa do século XIX trata, analisa e se obceca com as possibilidades da mobilidade social.

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Robinson Crusoé, de Daniel Defoe

Dando sequência ao especial “Mês dos clássicos”, debrucemo-nos hoje sobre uma obra que é tida como uma das pioneiras do romance moderno: Robinson Crusoé, do escritor inglês Daniel Defoe (1660-1731).

O livro, publicado em 1719, encontra-se naquele conjunto de obras literárias cuja inovação foi tamanha, e cujas “soluções formais” se tornaram tão difundidas, que sem circunstanciá-la historicamente e literariamente ficaria difícil perceber qual foi a sua grande ruptura ou seu grande pioneirismo. No que tange a Robinson Crusoé, surpreende como sua construção se assemelha a formas narrativas que são absolutamente comuns até o presente, e essa talvez seja uma das evidências mais expressivas de sua profunda influência: a própria concepção de narrativa literária com a qual estamos acostumados foi em grande parte talhada por Defoe. A relativa “não surpresa” que temos ao ler o clássico que é Robinson Crusoé é uma das principais provas de que ele fez escola no desenvolvimento da literatura contemporânea.

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A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne

Save de date: julho será o mês dos clássicos aqui no Posfácio. A cada semana, um dos nossos colaboradores trará a resenha de um livro considerado clássico da literatura mundial. Sem spoilers, só adianto que tem muita coisa boa a caminho, de grandes autores e gêneros diversos. Mas o que faz de um livro um clássico? Quem foram essas pessoas que escreveram obras atemporais e universais e como elas fizeram isso? Essas são algumas das perguntas que tentaremos responder em nossos textos, e se a iniciativa der certo, nada impede que se estabeleça esse projeto como fixo em nossa grade, fazendo de julho um mês sempre especial, em que os monstros sagrados da literatura estarão em debate.

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Iniciando os trabalhos, hoje lhes apresento A letra escarlate, obra de 1850 do estadunidense Nathaniel Hawthorne (1804-1864), conhecida por abordar a colonização puritana dos EUA e por trazer aquela que é considerada a primeira mulher como protagonista na literatura daquele país.

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Sobre a Escrita, de Stephen King

Deixando claro desde o início: Sobre a escrita é minha primeira leitura de Stephen King. De alguma maneira cheguei até aqui passando ao largo de um dos autores contemporâneos mais populares em todo o mundo, e não foi por esnobismo. Ainda assim, paradoxalmente, conheço bem um número razoável de suas obras, e isto graças às adaptações audiovisuais mais (Louca Obsessão) ou menos (Christine – O Carro Assassino) bem-sucedidas, que me possibilitaram ganhar certa familiaridade com sua escrita antes de, de fato, tê-lo lido.

Para estrear, decidi pegar justamente aquela que talvez seja sua única não-ficção, traduzida para o português em bonita edição da Suma das Letras. Logo na primeira página, o senhor King nos avisa: “Isto não é uma autobiografia. É, na verdade, uma espécie de curriculum vitae, minha tentativa de mostrar como se forma um escritor” (p. 19). Nas duzentas e tantas páginas que se seguem, o sentido da escrita é sempre o mesmo, oferecendo uma obra que não servirá aos fãs curiosos por destrinchar sua intimidade ou por saber das polêmicas, como o vício em álcool e drogas. Todos esses assuntos são tocados superficial e esparsamente. Mas em cada linha, o foco se volta para aqueles genuinamente interessados pelo processo de escrita e humildes o suficiente para dar atenção a alguém que já vendeu mais de 350 milhões de livros1 ao redor do mundo, a despeito da implicância de alguns em relação ao gênero e estilo de suas obras. Leia mais

  1. Fonte: Wikipedia.com (em inglês).

“A literatura para mim nasce do incômodo” – entrevista com Flávio Izhaki

Foto: Fábio Motta/Estadão

Morador do bairro de Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro, o jornalista e escritor Flávio Izhaki foi lançado no mercado editorial brasileiro como uma das novas promessas da literatura contemporânea, durante o final dos anos 2000. De lá pra cá, publicou a novela De cabeça baixa (Guarda-chuva, 2008) e o romance Amanhã não tem ninguém (Rocco, 2013), além de contemplar algumas antologias de contos, realizadas no país e no exterior.

Elogiado pela crítica, o escritor carioca não se deslumbra com a grande recepção dada para os seus dois primeiros trabalhos como romancista, principalmente ao último, citado como um dos melhores romances brasileiros do ano, pelos jornais O Globo e O Estado de São Paulo. E aponta em entrevista exclusiva para o Posfácio: “No ato da escrita não importa as eventuais críticas positivas de um trabalho anterior. Quando se começa um novo livro, zera tudo, até porque o autor não escreve para a crítica. Pelo menos não deveria.”

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“Viva a Música!”: urgência e vazio

Andrés Caicedo nasceu em Cali, na Colômbia, em 1951, e se matou na mesma cidade em março de 1977. Foi dramaturgo, organizador de cineclubes e escritor. Com seu suicídio prematuro, sua figura marginal e uma literatura extremamente fincada nas vozes da rua, Caicedo é visto como o “inimigo de Macondo”, a principal figura de uma corrente diletante, daqueles que se oporiam aos pilares sagrados da cultura colombiana.

Sua prosa é realmente oposta à de García Márquez: Viva a música! é um livro profundamente arraigado em seu tempo, orgulhosamente produto das festas, dos shows e da juventude hippie colombiana. Não há aqui qualquer pretensão à universalidade ou a deixar uma marca no tempo. Caicedo não é um aspirante a Nobel, ele é um retratista de sua época, e isso é ao mesmo tempo seu ponto forte e seu maior defeito.

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#leiascifi2015 – A mão esquerda da escuridao #4

Pela primeira vez em nosso clube de leitura saímos do planeta1. Já estava na hora, não?

Se com a obra de China Miéville cogitamos estar lendo uma narrativa com seres alienígenas – afinal, os poderes da Brecha eram originários de outro planeta? –, dessa vez nos identificamos com o alien Genly Ai, um terráqueo em missão extraplanetária. Da mesma forma que ele estranha Inverno, apesar de ter estudado muito a respeito do lugar antes da viagem, os habitantes de lá não o entendem muito bem – nós seríamos aberrações (ou “Pervertidos”) em Gethen.

Há uma fragilidade nele. É todo desprotegido, exposto, vulnerável, inclusive seu órgão sexual, que tem de carregar sempre do lado de fora do corpo; (…) (p. 220)

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  1. Apenas “em nosso clube de leitura”: nas leituras pessoais já tinha explorado o espaço com Andy Weir e seu Perdido em Marte, no comecinho do ano.

#leiascifi2015 – A mão esquerda da escuridao #2 e #3

(Este texto continua a discussão de A mão esquerda da escuridão e aborda os capítulos 6 a 15. Leia também a Parte #1.)

62 palavras para a neve

Ler A mão esquerda da escuridão me faz pensar que todo livro deveria vir acompanhado de uma bibliografia. Os romances principalmente. Uma longa lista de livros que, uma vez estudada, permitiria refazer passo a passo o pensamento do autor na construção da história. Haveria, por exemplo, podemos imaginar, um “Manual astronômico dos planetas possíveis”, pelo qual chegaríamos a confirmar o cálculo de que um decréscimo de 8% na irradiação solar em Gethen levaria as calotas polares a cobrir todo o planeta.

(O projeto obviamente esbarraria na dificuldade de acompanhar a formação de cada pronome e de cada artigo na história – cf. Pierre Menard, autor do Quixote.)

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