Os livros mais populares da ficção científica

Pra dar continuidade à ideia do Tuca de #leiascifi2015, resolvi montar uma lista com os livros mais queridos, mais amados, aqueles que recebem todos os bilhetes em forma de coraçãozinho, os mais populares da ficção científica.

Não significa que sejam os melhores (e quem poderia dizer quais são os melhores?), mas apenas aqueles que acabaram acolhidos, por um motivo ou por outro, pela memória do maior número de leitores nas últimas décadas. Ainda assim, dá para acreditar que exista nessas obras mais populares um ou outro ingrediente especial.

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Paulo Scott está cansado

por Luis Felipe Abreu

Estacionada ao lado do Instituto Goethe, uma van recebe a trupe de organizadores da 7ª Festa Literária de Porto. Logo em seguida quem sobe ao veículo é Paulo Scott, um dos participantes da palestra daquela noite, uma edição especial dos Encontros Poéticos promovidos pelo Itaú Cultural. O escritor se acomoda no banco, apertando como pode sua corpulenta figura. “Tava falando com minha mulher no celular agora”, comenta, fazendo referência à atriz Morgana Kretzmann. “Ela tava acompanhando a transmissão da mesa pelo Youtube e veio reclamar que eu tô muito sério”. Todos os presentes concordam, brincam que, sim, Scott não é mais o de antes. “Tá ficando velho, cara”, um deles brinca. Scott ri junto. Depois cala.

Corta para 2001. Aos 35 anos, um engravatado Paulo Henrique Rocha Scott é professor de direito tributário e direito financeiro na PUC-RS, sócio do conceituado escritório de advocacia Volkweiss, Scott & Campos e autor do livro Direito constitucional econômico. “No início, eu tinha essa visão meio romântica do Direito, fazia aquilo por achar que seria possível ajudar as pessoas, ser útil, mudar o mundo”, confessa Scott, que chegou a ser presidente do Diretório Central de Estudantes da PUC em meados dos anos 1980. “Só que chegou o momento, isso no final de 2007, em que advogar não fazia mais sentido para mim. Talvez eu não tenha tido nem a coragem nem o talento pra ser o advogado revolucionário que eu idealizei ser. Aí achei mais importante, para mim e para os outros, ir no caminho dessa coisa incontornável que é escrever”, lembra. Entre a rotina de processos e despachos, naquele ano lança a coletânea de poesia Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros. Temendo a possível repercussão dos versos esquisitos em sua respeitabilidade jurídica, assinou o volume sob a alcunha de Elrodris.

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Assombrosa Ficção Científica, Vol. 4

O consumo excessivo de ficção especulativa pode causar esquizofrenia literária. Como se sabe, o distúrbio se revela numa tendência a substituir explicações tradicionais imediatas por causas que envolvam criaturas mágicas ou tecnologias do século XXIV. O leitor contaminado costuma estar preparado o tempo todo para que um personagem retire uma espada da pedra e se declare rei, ainda que a história se passe em pleno centro de São Paulo.

Empregando uma variante do teste de Rorschach, a disfunção pode ser detectada pelas respostas do paciente-leitor aos cartões que o analista coloca a sua frente. Temos aqui um exemplo, em letras de formatação padrão:

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Assombrosa Ficção Científica, Vol. 3

A ficção científica e a fantasia abominam o dinheiro. Pelo menos a falta de recursos nunca parece ser um impeditivo para nada. É tudo muito simples em questões financeiras: se vai viajar no tempo, não esqueça de enterrar umas barras de ouro (em um lugar que não tenha sofrido grandes transformações urbanizadoras ou geológicas, claro); se já estiver no futuro, mais fácil ainda, risque alguns créditos e acerte tudo quando a nave voltar à Terra (computando juros relativísticos, provavelmente você já ficou milionário mesmo).

Na fantasia não é muito diferente. Frodo e a Sociedade atravessam todo o caminho para Mordor: em algum momento precisam de dinheiro? Não. O que importa nesses cenários é a nobreza, o poder mágico ou a linhagem mística. A cobiça de tesouros, pelo contrário, costuma ser um caminho certo para a ruína.

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Sheherazade indígena

“Esses dias eu vejo um indivíduo colocando em sua tapioca apresuntado, queijo e coco. Eu digo: não. Não eshtrague a minha cumida”.

Tapioca, segundo o Elio de Souza, taxista, paraense, nativo de Marabá mas morador de Belém há 14 anos, tem que ser simples: quentinha e só com coco. “Junto cê toma 1 litro de açaí com farinha e bala! Pronto pra um dia de trabalho”.

Foi ele que me deixou na 18ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que acontece entre os dias 31 de maio e 10 de junho, em Belém. Leia mais

Assombrosa Ficção Científica, Vol. 2

Depois de dois meses acompanhando contos e novelas de ficção especulativa, uma percepção particular começou a se formar: faltam protagonistas masculinos. História atrás de história trazia uma mulher no papel principal. Não deveria ser, mas é estranho.

Entre os frequentes protestos contra as tendências androcêntricas da literatura (como as estatísticas levantadas pelo VIDA), no universo fantástico parece reinar a paz entre os sexos. Atualmente existe mesmo uma inclinação tanto para um maior número de escritoras quanto para um maior número de personagens femininas. Numa amostra das publicações originais de maio, dentre 56 textos, 27 tiveram mulheres como protagonistas (48%) e 25, homens (45%).

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Literatura e Metamídia

“Observa: ésa parece ser su única tarea. Observar. En las diez pantallas. Leer. Es un lector. Un analista. En diez pantallas simultáneas. Un descifrador de imágenes y de datos. La información circula ante sus pupilas y él la sigue, la persigue, la examina, en diez pantallas simultáneas. La disecciona. Teclea, de vez en quando.”
– Jorge Carrión, Los muertos

Muito se fala dos impactos que os meios de comunicação causaram na literatura, pelo menos nos últimos 50 anos. Já é uma constante no discurso crítico que até mesmo os escritores que não têm por objetivo refletir sobre a questão das mídias em seu trabalho acabam agregando influências e dinâmicas próprias desse ambiente, à revelia de sua vontade. É o mundo em que estamos imersos; e principalmente aqueles que estão trabalhando com a expressão, como os escritores, não têm a possibilidade de estar alienados a esse processo. Leia mais

Qual a linha comum entre os poetas Rainer Maria Rilke e Manoel de Barros?

por Larissa Paes

Experimentar-se pelos arcanos das palavras é ser constantemente atingido por sua pujança, é ser inundado de fracassos, pois se entra constantemente no simulacro do controle; já que não se consegue agarrar a rebeldia das palavras, como se fosse possível segurar a primavera. Os escritores apresentam a incrível capacidade da convivência com tais seres, convivência tumultuada e, por vezes, torturante. Uma benção ou uma maldição?

A arte pela sinuosidade das palavras desnuda com agressividade o que se deixa envolver, sendo possível perceber tal ato. Mas e quando a arte se adentra no abismo da imagem?

O poeta Rilke (grande poeta do século XX de língua alemã) se alimentou das imagens, do inefável para se construir. Utilizou-se do seu espírito antropofágico para devorar Rodin, Van Gogh, Cézanne… Capturar imagens de maneira tão intensa que seja possível metamorfoseá-las, mesmo com fissuras, em palavras, talvez seja papel do poeta; comprovando-se isso no livro Cartas sobre Cézanne. No conjunto epistolar direcionado à esposa Clara, Rilke (quando estava em Paris – 1907) apresenta a percepção de um artista que absorve poeticamente a pulsão irrefreável da dimensão artística de Paul Cézanne; jorradas nas cartas de amor à arte. Antes disso, Rilke já havia feitos ensaios sobre Rodin, com caráter mais acadêmico e menos difuso (O poeta conviveu certa época com o escultor francês, sendo secretário). Percebe-se a ressonância sutil de tais apreensões imagéticas na sua poética, como no seu único romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge (Rilke passou uns seis anos para concluir a obra, de 1904 a 1910). Leia mais

Alienistas alienados

Antes de tudo, queria deixar claro: eu não li O alienista. Na verdade, conheci Machado de Assis aos 16 anos depois de ler Dom Casmurro. Não foi tarefa tão árdua: venho de uma família que sempre me estimulou a ler e analisei a obra com um dos professores mais inspiradores que já tive na vida, o Adriano de Almeida.

Me apaixonei por Capitu. Quem nunca? E, impressionável que sou, lembro até hoje da incredulidade com a qual ouvi o comentário mais esdrúxulo de um colega a respeito da personagem: “Fala sério, Adriano, essa Capitu é mó putinha vai”. Leia mais

Assombrosa Ficção Científica, Vol. 1

Talvez você não saiba, mas existem muitas histórias de ficção científica e fantasia à disposição na Rede.1 E são textos de qualidade, do tipo que concorre (e vence) prêmios e se perpetua em antologias ao longo das décadas. Histórias cujos nomes um dia podem ressonar para os admiradores tanto quanto Nightfall, A Sound of Thunder ou Johnny Mnemonic.

A parte boa é que a maioria pode ser acessada gratuitamente. Tudo fruto de um fenômeno editorial dos últimos anos, criado pela conjunção, entre outros possíveis (salvem-me os catedráticos), dos seguintes elementos: (a) o desinteresse do mercado em comercializar textos curtos; (b) a tradição das revistas americanas de publicarem ficção, como por exemplo a Astounding Science Fiction e a The Magazine of Fantasy and Science Fiction, que dominaram esse nicho nos anos 1950 e 1960; e (c) a audiência explosivamente ampliada da Internet. Existem agora muitos modelos de negócio disputando esse espaço, mas o que importa é que vários deles incluem entre seus mecanismos de funcionamento o seguinte item: liberar histórias sem cobrar diretamente por isso.

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  1. Chame também de ficção especulativa ou ficção fantástica, e adicione horror, slipstream e tudo mais que tiver vontade.

A abertura da vida pelos anjos da morte de Rilke

É incrível perceber como o poeta austro-húngaro Rainer Maria Rilke (1875-1926), apesar de ter nascido em Praga e ser falante de língua alemã assim como Franz Kafka, demonstra a variedade cultural na qual estava inserido por ser tão distinto literariamente de seu conterrâneo. Em relação aos temas presentes em sua literatura, talvez não tanto. O autor das Cartas a um jovem poeta é conhecido pela transcendentalidade do mundo em seus poemas e por sua compreensão religiosa da morte.

De início ligado ao lirismo do século XIX, bem como ao simbolismo francês, mais tardiamente, em sua maturidade artística, parece se aproximar de uma estética expressionista. Elegias de Duíno (1923), obra que iniciou no Castelo de Duíno, em Trieste, e levou mais de 10 anos para terminar devido a uma depressão, é uma boa expressão da evolução poética do poeta.

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50 Anos do Golpe – Sugestões de leitura (Parte II)

Dando continuidade, pois, à lista de indicações de leitura iniciada ontem, vem a segunda parte dela. Aproveita-se, nesse sentido, não somente para fracionar uma lista longa em duas partes, mas o timing do golpe, o qual é tratado por alguns como tendo sido concretizado no dia 31 de março e por outros como tendo sido levado a cabo no dia 1º de abril. Mais cinco sugestões de leitura, então:

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