Cartas de Babel

Como todo ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho dúvidas a respeito daquilo que faço. Por vezes me pego questionando pra que passar tanto tempo debruçado sobre textos que – possivelmente – não interessam ninguém. Afinal, pra que me dedicar tanto a poetas e escritores de países que a maioria das pessoas só acha num mapa com certa dificuldade, cujo idioma parece mais um amontoado de consoantes – isso quando lembra alguma coisa meramente inteligível.

Mas, como qualquer ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho certeza de que isso é a melhor coisa que eu podia fazer pelo mundo – que alguém, com certeza, vai ler aquilo e vai ter uma epifania. Ou que, pelo menos, alguém vai querer me dar uns bons trocados pelo tempo passado derretendo o cérebro contando sílabas poéticas e folheando o dicionário até criar bolhas nos dedos.

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Deus amado, de novo o mal!

Eu gosto de literatura russa. Já houve um tempo em que eu diria “minha literatura favorita é a literatura russa” – como se fosse possível existir uma preferência assim, delimitada. O fato é que o primeiro escritor mais complexo e interessante que fui ler – e ficar completamente embasbacado – foi um russo: Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. “Os Irmãos Karamazóv” é um livro e tanto.

O tempo passou, meus interesses se expandiram e mudaram. Ainda leio muita literatura russa, especialmente poesia. Mas também de muitas outras “origens”, boa parte “daqueles lados”: a assim chamada Europa Oriental. Poloneses, ucranianos, tchecos, eslovacos, romenos, húngaros, búlgaros, iugoslavos (sim, eu sei da divisão, mas isso é assunto longo, complexo e pra outra hora; aceitemos o anacronismo), etc, etc e tal, povoam minha lista de leituras. Aqueles nomes impronunciáveis com cedilhas em letras indevidas, com acentos circunflexos invertidos sobre consoantes, com alfabetos aparentemente alienígenas; isso me atrai sobremaneira. Leia mais

Coleção Clássicos do nosso tempo (Editora Lidador)

Trazendo à tona novamente um projeto que surgiu há algum tempo (o de encontrar os títulos autores e tradutores de coleções de livros antigas), esse post é dedicado aos leitores bibliófilos que têm uma queda por coleções de livros. Há tantas delas que não fazemos ideia de sua variedade, sua quantidade e das preciosidades que elas podem esconder em seus vários volumes. Além disso, a distância no tempo dificulta um bocado a tarefa de rastreá-las e listá-las em sua completude. Felizmente a internet e os sebos têm sido de grande ajuda para leitores-colecionadores que, como eu, adoram caçar livro a livro e, como recompensa pela busca, tê-la completa, pronta para ser lida.

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James Joyce, um ser humano

Acho que, depois dessa semana – em que houve praticamente um intensivo de James Joyce aqui no Meia Palavra – qualquer apresentação a respeito do autor seria desnecessária. Falou-se de praticamente tudo: Dublinenses, Um retrato do artista quando jovem, Ulysses, Finnegans Wake, Música de câmara e até o Pomes Penyeach. Faltou apenas sua única obra para o teatro, Exilados.

Mas para o último post do especial eu resolvi ir por um outro lado. Deixar pra lá o autor Joyce, essa criatura mítica e quase intocável, para focar no James Joyce humano: criatura de carne osso, que sentia dor, fome, frio, medo, alegria e, entre essas e outras coisas, tesão. Quero mostrar que, apesar de tudo, Joyce era gente como a gente e fazia coisas que todo mundo faz – mas ou menos, nem todo mundo é tão livre de tabus quanto ele parecia ser. Para isso eu escolhi e traduzi duas das cartas que ele enviou para sua então companheira (futuramente esposa) Nora Barnacle.

(Não recomendado para menores de 18 anos). Leia mais

Sobre a dit-lit

Uma das características compartilhadas por todo regime totalitário é o controle dos meios de comunicação. Sempre existe, em graus variados, a censura. E a literatura é uma das áreas que sofrem impacto mais direto disso: as publicações costumam ser selecionadas a dedo e, quase sempre, surge uma literatura oficial – a ser subvencionada e estimulada pelo Estado – e uma não-oficial – que, quase sempre, é mais significativa, apesar de enfrentar inúmeras dificuldades para chegar até o leitor.

Existem alguns casos, porém, em que o ditador – aquela figura mítica, central nos totalitarismos, alvo de culto (muitas vezes forçado, mas nem sempre) das pessoas comuns – tem certo apreço pela literatura e tendo todo o aparato estatal a sua disposição, resolve lançar-se à empreitadas literárias. Surge assim algo que poder-se-ia chamar de dit-lit (como em chick-lit, mas para ditadores). Leia mais

Esquizofrenia Progressiva – sobre os muitos idiomas

I

Certa vez listei meus problemas com a língua francesa. Uma relação um tanto neurótica com uma língua influente, confesso. E um tanto exagerada: não posso, afinal, deixar de reconhecer que Rimbaud e Mallarmé foram excelentes poetas. E que existem outras tantas razões para se apreciar esse idioma – e muitas fogem aos clichês.

Isso, porém, não é uma retratação: pretendo falar sobre injustiça com algumas línguas. Leia mais

O corvo e suas traduções (Ivo Barroso)

É fato indiscutível que O corvo, de Edgar Allan Poe, é um dos mais famosos poemas já escritos. Mesmo quem não gosta de poesia tem uma vaga noção a seu respeito, dada a maneira como seus versos penetraram a cultura popular: músicas, filmes e desenhos animados estão constantemente fazendo referência ao poema. Escrito originalmente em 1845, foi traduzido e reescrito nos mais diversos idiomas – sendo que a primeira vez foi uma versão em prosa poética traduzida por Charles Baudelaire, oito anos depois de sua publicação.

Em língua portuguesa existe duas traduções bastante famosas, que o seriam mesmo caso fossem traduções horrendas (mas não o sã0): foram feitas, afinal, por Machado de Assis e por Fernando Pessoa. É sobre elas que se debruça Ivo Barroso no ensaio O corvo e suas traduções, que teve sua terceira edição publicada recentemente pela editora Leya. Leia mais

Esquizofrenia Progressiva- Uma literatura póstuma

Hoje em dia quando se fala em idioma judeu, a maioria das pessoas automaticamente pensa em hebraico. É, afinal, o idioma de Israel e o idioma da liturgia judaica. Muitas pessoas esquecem – e outras tantas ignoram – o fato de que o hebraico falado hoje na palestina judaica é uma reconstrução sionista do idioma arcaico, surgindo no final do século XIX – que, fora da liturgia, não era falado desde a idade média, persistindo basicamente em sua forma escrita. Leia mais

Homenagem a Wisława Szymborska – Parte II

O fim da vida de pessoas públicas geralmente é marcado por uma série de discursos. Fala-se sobre as realizações do finado, sobre o quão importante ele foi. Faz-se alguns elogios à sua memória, lembra-se de dificuldades e de bons momentos. É algo bastante interessante e, até mesmo, louvável. Existe, porém, um grande problema nisso: a pessoa que melhor poderia falar a respeito do assunto é justamente a que deixou este mundo.

Nada melhor, então, do que homenagear a poeta polonesa Wysława Szymborska com as palavras da própria. Por isso, o Tiago traduziu, do francês, as palavras que ela proferiu quando do banquete do prêmio Nobel e eu, a partir do polonês, o discurso que ela fez na cerimônia de recebimento dessa mesma láurea.

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Poemas de Tomas Tranströmer

Ontem foi anunciado o vencedor  prêmio Nobel de literatura desse ano, que foi o poeta sueco Tomas Tranströmer. Praticamente desconhecido no Brasil, ele é um dos maiores nomes da literatura sueca contemporânea, tendo sido extensamente traduzido para boa parte dos idiomas europeus. Como de praxe, as traduções para a língua portuguesa praticamente inexistem (só sei de alguns poucos poemas traduzidos em Portugal, e nada mais).

Eu e o Tiago já discutimos um pouco a respeito da escolha da Academia Sueca em outro tópico, e, conforme prometido, traduzimos alguns poemas de Tranströmer. Leia mais

Isto é água (David Foster Wallace)

Pouparemos o espaço para introduções ao autor, uma vez que para falar sobre David Foster Wallace temos um excelente artigo de Caetano Galindo aqui no Posfácio. Entretanto, sobre o artigo que você lerá aqui, cabe contar que trata-se de um discurso que ele fez em 2005, em uma cerimônia de graduação. O texto começou a ser divulgado e compartilhado na internet, e o Luis Calil do ótimo O Discreto Blog da Burguesia publicou recentemente uma tradução para Isto é água, que você poderá conferir a seguir. Leia mais

Coleção Grandes Romancistas (Abril Cultural)

Depois do pessoal do fórum Meia Palavra ter encontrado os títulos das coleções Mestres da Literatura Contemporânea (Record) e da Imortais da Literatura Universal (Abril Cultural), chegou a vez de postar aqui o artigo mais delineado e com algumas informações a mais da coleção Grandes Romancistas.

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