Deus amado, de novo o mal!

Eu gosto de literatura russa. Já houve um tempo em que eu diria “minha literatura favorita é a literatura russa” – como se fosse possível existir uma preferência assim, delimitada. O fato é que o primeiro escritor mais complexo e interessante que fui ler – e ficar completamente embasbacado – foi um russo: Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. “Os Irmãos Karamazóv” é um livro e tanto.

O tempo passou, meus interesses se expandiram e mudaram. Ainda leio muita literatura russa, especialmente poesia. Mas também de muitas outras “origens”, boa parte “daqueles lados”: a assim chamada Europa Oriental. Poloneses, ucranianos, tchecos, eslovacos, romenos, húngaros, búlgaros, iugoslavos (sim, eu sei da divisão, mas isso é assunto longo, complexo e pra outra hora; aceitemos o anacronismo), etc, etc e tal, povoam minha lista de leituras. Aqueles nomes impronunciáveis com cedilhas em letras indevidas, com acentos circunflexos invertidos sobre consoantes, com alfabetos aparentemente alienígenas; isso me atrai sobremaneira. Leia mais

Lemony Snicket no Brasil – Grandes esperanças (+sorteio!)

A frase que deu início aos textos do especial Lemony Snicket no Brasil aqui no Posfácio foi: “Houve um tempo em que toda a esperança parecia ter acabado para os fãs de Lemony Snicket no Brasil.”. Com o lançamento de três obras do autor – e do último romance escrito por seu porta-voz oficial – no mesmo ano (!), a situação parece ter se revertido. Quem é fã, só tem a agradecer. Leia mais

Por um prêmio literário que empolgue

Grana, sucesso de público e prestígio. É basicamente isso o que está por trás dos grandes prêmios literários ao redor do mundo. Normalmente, há um combo: além do cara ganhar uma barbada ao ser laureado com o Nobel, este também dá um selinho de aprovação à obra do cidadão (quando você é um chinês desconhecido ou escreve em uma língua incomum, o selinho é um baita incentivo para que sua obra seja traduzida no Brasil, por exemplo). O Goncourt, na França, além de dar status ao autor que o recebe, também ajuda o livro a vender umas 400.000 cópias. 400.000 exemplares! Vocês têm noção do que esse número significa, ainda mais em um país cujas capas de livros são medonhas?

Eu me interesso bastante por um prêmio que, aparentemente, dá apenas prestígio ao seu ganhador – mais ou menos como qualquer um dos prêmios literários brasileiros, que não costumam agraciar o ganhador com rios de dinheiro nem aumentam o interesse do público leitor por uma obra. Parte do que torna a premiação de que falo tão especial é o número de acertos que há entre os seus finalistas: é praticamente certo que os ganhadores do Pulitzer, do Man Booker Prize e de outros prêmios importantes estarão entre os títulos selecionados pelo júri do Tournament of Books (o nome completo é The Morning News Tournament of Books; a abreviação, que usaremos a partir de agora, é ToB). Leia mais

Deformadores de opinião

Há algumas semanas, ao acessar o fórum Valinor, como faço, religiosamente, todos os dias, me deparei com uma mensagem da Anica no perfil. A mensagem era composta por um link e uma frase, mais ou menos assim: “ei, vc toparia escrever algo sobre o q esse cara disse aqui para o Meia? hum hum?” Abri o link rapidamente, li e respondi na hora: “Só se eu puder usar o título ‘Deformadores de opinião’”. Ela sorriu e disse que eu poderia usar o título. Entretanto, como ando meio atarefada, acabei não escrevendo o texto no calor do momento. Acabei deixando que o meu lado fã se acalmasse para que eu pudesse absorver a coisa toda.

Contudo, acredito que a Anica tenha pedido para que eu falasse sobre a declaração do Peter Greenaway justamente pelo fato de eu estar emocionalmente ligada às sagas criticadas pelo cineasta; pela minha fama de impulsiva, e pela minha consciência de que fã é uma praga. A declaração dele, para quem não clicou no link, foi a seguinte: “Harry Potter e O Senhor dos Anéis não passam de textos ilustrados.”

Minha reação inicial ao ler a declaração foi a de pensar em mil palavras ofensivas para direcionar ao Peter Greenaway. Pois é, ser fã faz isso com a gente. Voltamos a ter 12 anos – quando quem diz mais palavras ofensivas vence uma discussão – com uma facilidade imensurável. Aproveitei meu momento de fã e também pensei em chamar o Greenaway de pretensioso, para mostrar que eu era uma adolescente que conhecia palavras “chiques”. Mas aí a raiva passou, voltei a ter 26 anos, e a ideia que foi ganhando forma, na minha mente, é a de que discordo da declaração do cineasta, e nem é pela questão técnica de que os livros citados por ele não são ilustrados. A minha discordância não é algo que nasceu naquele momento, não é algo que foi oportunamente construído, mas é algo processual. Não vou dizer que é imparcial porque para além do fato de que imparcialidade é um mito, sou fã, confessa, de Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Mas posso dizer que é uma discordância ressignificada. Leia mais

Traduções por vir: Ex-Iugoslávia (parte II)

Alguns meses atrás eu escrevi a primeira parte do Traduções por vir a respeito dos países que, até o começo dos anos 1990, constituíam a Iugoslávia. Eu tratei, basicamente, sobre a literatura dos países de língua servo-croata: a maior parte do território, um contínuo linguístico extremamente atribulado.

Mais definidos, mas dificilmente menos atribulados são os territórios dominados pelos outros dois idiomas eslavos da ex-Iugoslávia. Uma dessas línguas é o macedônio, língua que muitos não dividem do búlgaro, falada na atual República da Macedônia, ao extremo sul do antigo país;  a outra é o esloveno, que se encontra no extremo oposto da antiga República Popular, o norte.

São dois idiomas bastante diferentes e tradições culturais bastante diversas. Se os coloco juntos em um mesmo artigo é mais pela temática da ex-Iugoslávia e por serem idiomas e literaturas a respeito dos quais tenho muito menos conhecimento do que no caso servo-croata.

Obedecendo a esta mesma lógica (a da minha ignorância), não vou citar obras específicas, mas alguns autores:

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Traduções por vir: Alta literatura no País Baixo (parte 2)

O século XX na Holanda, literariamente, começa em 1911. Como assim? Apesar de Louis Couperus ter morrido em 1923, a crítica o considera um autor típico do XIX. O escritor que dá o pontapé inicial no século passado é Nescio.

 Mas quem é esse tal Nescio?! É somente a figura mais influente dos últimos cem anos. O curioso é que ele não escreveu nenhum romance, unicamente alguns poucos contos (geralmente suas edições têm apenas 200 páginas). Nescio é o exato oposto de Couperus. Couperus é em tudo elegante, formal, arcaico; Nescio é em tudo despojado, coloquial, moderno. Seu principal conto, O parasita (1911) – sobre um sujeito que vive à custa dos outros –, é uma obra-prima da contística europeia da primeira metade do século XX. Nescio é um Tchekhov holandês. Seminal e leitura obrigatória para os amantes de contos. Leia mais

Traduções por vir: Alta literatura no país baixo (Holanda – parte I)

O crítico E.S. Bates disse em seu Modern Translations, e foi corroborado pelo The Oxford Guide to Literature in English Translation, que as línguas mais negligenciadas em traduções literárias para o inglês são: português, grego moderno, hebraico moderno e holandês. Aqui no Brasil não é diferente. Conta-se nos dedos quantos autores holandeses foram publicados por estas bandas. E somente escritores contemporâneos. Clássicos, então? Nenhum. Até em Portugal há mais coisas. Enquanto esse panorama não muda, vamos conversar um pouco sobre o que esse pequeno país produziu.

Para começar, não confunda “literatura holandesa” com “literatura em língua holandesa”. A diferença? O holandês é falado, além de na Holanda, na Bélgica, no Suriname e nas Antilhas Holandesas. Como esse texto é sobre literatura holandesa, leia-se: é somente sobre a literatura feita na Holanda.

Apesar de o romance holandês ter se iniciado em 1637 com Arcádio batavo, de Johan van Heemskerk, e ter se consolidado em 1782 com A história da senhorita Sara Burgerhart , de Betje Wolff e Aagje Deken, o grande divisor de águas – e até hoje tido como a grande obra-prima daquele país – é do século XIX. Leia mais

Traduções por vir: Ex-Iugoslávia (parte I)

Sarajevo destruída durante a Guerra da BósniaOs idiomas sérvio e croata são, na verdade, uma só língua – junto, ainda, com o bósnio e o montenegrino. São dividas, porém, por motivos políticos: a Segunda Guerra do Bálcãs, que deu fim à Republica Federativa Socialista da Iugoslávia, reavivou rivalidades e rancores entre essas nações e os linguistas de cada país começaram a apontar as menores diferenças e declarar idiomas diversos. Mas são todos mutuamente inteligíveis, sendo o maior empecilho o fato de que o croata usa apenas o alfabeto latino, enquanto que todas as outras variantes aceitam tanto o alfabeto latino quanto o cirílico.

A riqueza étnica, religiosa e cultural dos Bálcãs influenciou largamente as literaturas desses idiomas, bem como a sua história conturbada – a última guerra da região terminou há menos de 10 anos, e alguns assuntos ainda ficaram pendentes.

É um mundo, porém, ainda bastante misterioso para o leitor brasileiro. Com poucas exceções – alguns livros de Danilo Kis, Milorad Pavić e Ivo Andrić, a maioria em edições antigas e já esgotadas, encontradas apenas em sebos e alguns volumes de poesia sérvia traduzida por Aleksandar Jasenovic – não existe praticamente nada dessas línguas disponível em português.

Selecionei algumas obras que considero bastante interessantes para o traduções por vir desse mês: Leia mais

Traduções por vir – Literatura de Língua Inglesa – Parte II

Dando continuidade a série de artigos Traduções por vir, listo mais algumas obras em língua inglesa que ainda não possuem edições em português, seja como forma de sugerir às editoras, seja como forma de dar indicações de leitura.

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Traduções por vir: Literatura Tcheca

A República Tcheca é mundialmente famosa por suas cervejas e por sua literatura.

Com o crescimento que o mercado de cervejas vem tendo no Brasil, acho que pelo menos a Budweiser  (a de verdade, não norte-americana) a maioria das pessoas deve conhecer. Considerando que essa coisa de cervejas importadas é algo para qual o público de nosso país tem se aberto apenas mais recentemente, acho que já é um saldo positivo.

Mas, como de praxe, a literatura acaba sendo preterida por aqui, e de todo o gigantesco universo literário que a República Tcheca possuiu, só uma ínfima parte foi publicada. E do que foi publicado aqui, ainda menos é conhecido. Eu diria que, basicamente, dois autores estão bem difundidos: Franz Kakfa e Milan Kundera. Kafka escreve em alemão, vou contar fora. Ficamos, então, só com Kundera.

É claro que existem outros autores de língua tcheca que saíram no Brasil. Bohuil Hrabal, Ivan Klíma, Václav Havel, Vladimír Škutina, Jaroslav Hašek e Karel Čapek, por exemplo. O problema é que, além de eles não serem muito difundidos, ainda é pouco: não só são poucas obras de cada um, muitas em edições esgotadas, quando existe uma infinidade de autores que são extremamente representativos no universo letrado tcheco e que inexistem no Brasil.

Vou fazer aqui um breve apanhado de algumas obras que, penso, não poderiam faltar nas livrarias de nenhum lugar do mundo – e que, no entanto, faltam por aqui. Limitar-me-ei, porém, a obras dos séculos XX e XXI e cujos autores sejam inéditos no Brasil.

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Traduções por vir: Literatura Polonesa

Que autores poloneses você conhece? As respostas dificilmente irão além de Witold Gombrowicz, Bruno Schulz, Czesław Miłosz. Henryk Sienkiewicy e Wisława Szymborska. Com toda a certeza são autores importantíssimos mas, no enorme universo literário polonês, isso é muito pouco. Quase nada, quantitativamente falando (qualitativamente, porém, estes estão entre os mais importantes, apesar de existirem uma miríade de outros tão ou mais importantes).

O problema é que, no Brasil, a literatura polonesa é subestimada e pouco traduzida. Witkaci, por exemplo, que é um dos principais dramaturgos do século XX- não apenas na Polônia, mas na Europa de maneira geral, nunca foi lançado em português- e a única de suas peças a ser encenada por aqui foi Matka (Mãe), há mais de 30 anos e em francês.

Pensando nisso, eu elaborei uma pequena lista, em que coloquei alguns dos principais nomes da literatura polonesa que não tem edições brasileiras (muitos, aliás, também não têm edições portuguesas). Ao contrário do que o Tiago fez com os russos, porém, não vou me ater a obras específicas: existem bibliografias inteiras por traduzir, qualquer dos livros desses autores já seria alguma coisa. Vou também me concentrar nos séculos XX e XXI, apesar de nem mesmo os clássicos com Adam Mickiewicz terem sido lançados por aqui.

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