Pagu para além da vida e obra

Em termos de lançamentos literários, acredito que 2014 foi um ano realmente peculiar. A preocupação com a reedição parece começar a crescer no meio editorial brasileiro, ainda que tenhamos muitas obras (mesmo!) fora do mercado há décadas, limitadas a exemplares por vezes caros demais nos sebos. Felizmente, como disse, 2014 trouxe algumas reedições pelas quais, pessoalmente, nem esperava mais, como Pagu: vida-obra, de Augusto de Campos, lançada recentemente pela Companhia das Letras.

Patrícia Galvão, de apelido Pagu (apenas um de seus apelidos e pseudônimos), poderia ser um nome natural aos ouvidos dos brasileiros, ao menos dos que leem mais literatura nacional, mas nem sempre é. Participante do movimento modernista em São Paulo desde seus primeiros tempos, apesar da diferença de idade em relação à geração, ela se destaca para mim por duas razões básicas: pela atuação fortemente crítica e política e, sim, pelo fato de ser mulher e querer ser reconhecida como tal. Por isso, Pagu deve ser compreendida por inteiro, para além de uma mera cronologia de acontecimentos ou de uma bibliografia comentada. Pagu é muito além disso. Leia mais

Uma antologia de Murilo Mendes só não basta

Gosto muito de Murilo Mendes. Talvez seja, na minha opinião, um dos poetas do país menos elogiados do que deveria ser. É claro que, em parte, digo isso porque gosto desse poeta mineiro, de Juiz de Fora, até mais do que outro famoso mineiro, Carlos Drummond de Andrade. A partir dessa afirmação, acredito que fica difícil sustentar minha predileção pelo escritor, mas tenho meus motivos, acreditem. E acredito que a reedição da obra do autor, iniciada neste ano pela Cosac Naify, pode ajudar todos a ressituar Murilo dentro do panorama literário do país.

Um dos primeiros volumes lançados não é exatamente uma reedição: trata-se da Antologia poética organizada por Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura, ambos estudiosos do autor. A antologia tem duas versões, uma comum e outra especial; nas duas, há a coletânea de poemas de todos os livros de Murilo, inclusive aqueles em língua estrangeira, bem como um anexo crítico, uma galeria de imagens e posfácios dos organizadores. A edição especial se diferencia por ressaltar o viés esteta do poeta, que colecionava obras de arte. De qualquer modo, a Antologia serve muito bem para apresentar o poeta para aqueles que mal conhecem. Leia mais

Alice, não mais que de repente

Não sei dizer se isso data do modernismo ou de algum outro período artístico-literário qualquer (quem sabe da ruptura de Joyce ou quem sabe até mesmo do Pound), mas me parece que de uns tempos para cá (um tempo longo, vejam vocês), o novo tem se tornado, na literatura e em outros âmbitos, sinônimo de bom. E não só isso. A ideia de novo tem sido mesclada, se não confundida, com a ideia de puramente diferente, de modo que esse novo se torne, muitas vezes, “mera” variação do velho.

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Vitor Ramil e a literatura gramatical

Espero que encontre eco nos leitores deste texto a minha confissão: apesar de adorar ler desde que me lembro, eu não gostava de gramática. Sinto a necessidade de precisar: em meus tempos de colégio, não conseguia gostar de gramática. Embora eu continue um outsider leigo do universo das estruturas e mecânicas linguísticas, aprendi com o tempo (e a duras penas) a apreciar o estudo de seu funcionamento e a curiosa lógica que as rege.

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Me segura qu’eu vou te falar do Waly

É estranho alguém dizer que apenas leu Waly Salomão, não é? A impressão é que o poeta baiano parece ser poeta até mesmo fora dos livros. Pessoalmente, conheci Waly primeiro pelo nome, sempre citado como exemplo desse termo guarda-chuva que é a poesia marginal. Depois veio sua presença, agudamente capilar, em vídeos vários, como o documentário Assaltaram a gramática e outros registros disponíveis internet afora, além de seus vários poemas musicados por Jards Macalé, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto e outros.

Antes de Poesia total, compilação da obra poética completa lançada neste ano pela Companhia das Letras, havia sentido a poesia de Waly, mas, na verdade, nunca lido. Percebi isso sem querer, justamente quando peguei o livro, abri-o e comecei a leitura de fato. Minha primeira reação foi um choque: parte da presença do poeta parece incrivelmente se manter na página, na folha de papel, mesmo em poemas seus de que nunca havia ouvido falar. Ainda assim, apenas parte da presença do poeta resta. Continuei a leitura com isso em mente.

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F, por X

Títulos não convencionais costumam me chamar a atenção quando vou a uma biblioteca, um sebo ou uma livraria, tanto que é razoavelmente comum que resolva ler um livro “somente” por causa do título. Não que isso seja uma grande coisa, pois tenho me descoberto cada vez mais adepto da filosofia de que qualquer desculpa é válida para ler um livro, mas é que o livro sobre o qual essa resenha pretende se debruçar entraria tranquilamente nessa categoria, afinal, o segundo romance de Antonio Xerxenesky tem como título a solenemente solitária letra F.

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F de ficção, de fixação, de formação

Desde os tempos de escola, diz-se que ficção é, acima de tudo, uma narrativa de algo não verdadeiro. Geralmente quando lemos, portanto, uma obra ficcional, há a consciência de que estamos diante de algo que não aconteceu de fato, a princípio não naqueles termos. Há a ideia de falsidade, mas não se aceita geralmente falta de verossimilhança. Tudo deve ter um sentido, mesmo que seja para contestar a lógica estabelecida. O que dizer, então, de um romance que, assim como outros, busca repensar outra obra de arte – no caso, cinematográfica – que a todo tempo trabalha sob a fronteira entre o verdadeiro e o falso? Até que ponto a verdade aí pode ser ficção e vice-versa?

F, recém-lançado romance de Antônio Xerxenesky (1984), parece voltar a essa questão de um modo talvez mais atraente ao leitor em geral. O assunto é, sim, uma certa fixação não só sua, mas de todos da modernidade; no caso do autor gaúcho, residente em São Paulo, acredito que esse questionamento, parte da formação do escritor, surgiu cedo, desde seu primeiro romance. Areia nos dentes (2008), apesar de ser sua estreia no mercado editorial maior, já evidencia essa incógnita constante. A sinopse concisa e mais frequente, “um faroeste com zumbis”, já desafia, de certo modo, a questão da verdade da ficção. Acredito que aí a surpresa maior não vem do uso do gênero cinematográfico, o western, para definir um texto literário, nem do uso do zumbi, muito próprio da cultura pop atual. A junção dos dois elementos, que nos faz pensar talvez em algum filme trash ruim americano, força, ainda que suavemente, o leitor a pensar na veridicidade do romance.

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Erudição pornográfica

[Todavia, a] A única coisa que deveria ser dita sobre Pornopopéia é: por favor, leia Pornopopéia. Não, espere, a única coisa que deveria ser dita sobre Pornopopéia é: “Faça um favor, leia Pornopopéia.Leia mais

Em busca da poesia da estabilidade

É engraçado imaginar o que vamos pensar quando ficarmos mais velhos, tanto para jovens quanto para idosos. Acredito que grandes mudanças não acontecem só entre os 20 e os 50 anos, mas também entre os 60 e os 80, por exemplo. Tendemos a pensar que, assim que envelhecemos um pouco, chegamos a uma estabilidade quase mórbida, que nos faz permanecer os mesmos até nossos últimos dias. Um pensamento, eu diria, bem consoante com nossa sociedade de consumo. “Não tem mais como seguir as tendências da moda? Fim, acabou sua vida pra gente.” Felizmente, pela poesia, às vezes, conseguimos ver que essa estabilidade sequer exista para além de um ideal.

Digo isso tudo repensando minha leitura de Sete suítes (2010), de Antonio Fernando de Franceschi. Autor premiado, aclamado por figuras críticas importantes, como Antonio Candido, o poeta me surpreendeu muito com seu livro, para bem e para mal. Sim, explico: o Franceschi que já “conhecia”, que, ao menos, já tinha lido um pouco e de que tinha ouvido falar mais um pouco, está bem longe desse Franceschi mais recente. Só conhecia o autor por seu envolvimento com a “novíssima poesia” dos anos 60, com a boemia poética paulistana da época, da qual faziam parte também figuras como Claudio Willer e Roberto Piva. Não saberia dizer a razão do afastamento estético tão marcado do autor em relação à sua juventude, porém ela é um fato inegável e perceptível a qualquer um que compare sua produção compilada em Os dentes da memória (Azougue, 2011) e este pequeno livro da coleção de poesia contemporânea da Companhia das Letras.

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50 Anos do Golpe – Sugestões de leitura (Parte II)

Dando continuidade, pois, à lista de indicações de leitura iniciada ontem, vem a segunda parte dela. Aproveita-se, nesse sentido, não somente para fracionar uma lista longa em duas partes, mas o timing do golpe, o qual é tratado por alguns como tendo sido concretizado no dia 31 de março e por outros como tendo sido levado a cabo no dia 1º de abril. Mais cinco sugestões de leitura, então:

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50 Anos do Golpe – Sugestões de leitura (Parte I)

No intuito de lembrar os 50 anos do golpe militar (lembrar para que não nos esqueçamos), selecionei algumas obras de literatura que podem servir como porta de entrada para compreender diferentes aspectos, situações e eventos referentes não só ao golpe em si, mas à realidade histórica que ele instaurou. Apesar disso, o critério é o pessoal, já que os livros aqui listados não compartilham entre si senão alguns pontos de intersecção, que variam de obra a obra e de escritor a escritor. Desde livros que tratam de histórias aparentemente específicas em sua individualidade (como Um copo de cólera) até livros que tratam abertamente dos eventos políticos (como O ato e o fato), de livros de ficção até crônica jornalística, a seleção se justifica no pequeno texto que acompanha cada indicação.

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O panfletário do caos da invenção da poesia

Em um dos vários textos escritos a respeito de Invenção de Orfeu (1952), Murilo Mendes nos conta sua relação pessoal com a obra do alagoano Jorge de Lima, aproximação de amigo e admiração de poeta. Relatos da discussão sobre o título da obra, do fascínio em ver no longo poema toda uma reflexão sobre a literatura e sobre a posição do homem no mundo. Murilo, assim como Jorge, era um católico que buscava na investigação teológica uma compreensão metafísica do homem. Em Invenção de Orfeu, recentemente reeditado pela Cosac Naify em parceria com a Editora Jatobá, vemos não apenas a criação da poesia sob a forma do mito grego de Orfeu, mas também as agruras do ser humano diante do que é terreno, na ilha do poema. É, de fato, um livro difícil, que ainda não sei se conseguir entender bem.

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