Bruna Moraes: musa em flor

 A música me acorda de um sono profundo e me insiste, até que saia.

 

O último sábado de agosto (23) reservou uma surpresa e tanto para o público do teatro Eva Herz da Livraria Cultura (RJ) que, assim como eu, pouco ou nada conheciam sobre o trabalho de Bruna Moraes.

Estava lá, convidado pela assessoria para o show de apresentação da cantora às plateias cariocas; quando a menina começou a cantar minha primeira reação foi de incredulidade: “ela não pode ter só 19 anos”. Sim, Bruna Moraes tem apenas 19 anos e um vozeirão que assusta muita gente grande da cena musical brasileira.

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Crítica: ‘Ricardo III’

Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!
– ato IV, cena IV

 

O drama do sanguinolento monarca inglês Ricardo III (1452-1485) foi uma das primeiras obras teatrais de William Shakespeare, escrita por volta de 1592 e 1593, e se mantém até hoje como uma de suas mais populares e respeitadas peças, fascinante não apenas pela síntese histórica da intrincada dinastia Plantageneta, que reinou na Inglaterra por mais de trezentos anos, como também pela construção de um protagonista atraente por sua vilania, soberba e psicopatia, cuja correspondência pode facilmente ser encontrada nos dias atuais.

Passados mais de quatrocentos anos desde sua feitura e literalmente centenas de adaptações de maior ou menor sucesso, hoje a peça permite liberdades adaptativas e até brincadeiras visando não só aproximar o drama histórico dos espectadores contemporâneos, como também facilitar a compreensão de uma história que envolve mais de cinquenta personagens, duas famílias rivais, duas guerras e um punhado de assassinatos. Foi isso o que fez o ator Al Pacino quando, em 1996, quis adaptá-la em Nova York, mas antes construiu um belo documentário, Looking for Richard, em que reflete com acadêmicos, artistas e outros especialistas sobre o lugar e função de Shakespeare nos dias de hoje. Da mesma forma, aqui no Brasil de hoje o ator Gustavo Gasparani e o diretor Sergio Módena foram criativamente ousados ao montar um Ricardo III totalmente clean, com apenas um ator e cujo cenário é composto por uma lousa, um cabideiro, uma mesa e uma dúzia de canetas pilotos. Leia mais

Crítica: ‘House of Cards’ – sobre poder e lealdade

[CONTÉM SPOILERS]

Fazia tempo que não ouvia falar de Kevin Spacey. Confesso minha desinformação, se tivesse continuado conectado às séries como costumava ser teria adiantado meu prazer e este texto em pelo menos um ano. Na verdade, já há certo tempo ouço falar de House of Cards, mas foi apenas após a aparição de Kevin no Oscar e sua hilária expressão na famosa selfie da Ellen que decidi assisti-la, preenchendo meu desanimado Carnaval. Pois bem, aqui estou, assistindo House of Cards sem conseguir parar, completamente aficionado por Frank Underwood.

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‘The Book of Mormon’ – ácido, certeiro e hilário

Dos criadores de South Park, Trey Parker, Robert Lopez e Matt Stone, chega ao Brasil o elogiado musical da Broadway, vencedor de nove prêmios Tony, em montagem estilo guerrilha da talentosa equipe da UNIRIO, liderada pelo professor Rubens Lima Jr, que há sete anos comanda por lá o projeto Teatro Musicado.

The Book of Mormon acompanha a dupla de missionários Elder Price e Elder Cunningham em trabalho evangelizador pelo nordeste de Uganda, mantendo o mesmo humor cortante a que nos acostumamos com o desenho ao mostrar o choque cultural entre duas civilizações. Além disso, demonstra a madura habilidade dos realizadores em prestar tributo, mesmo que na maioria das vezes em forma de sátira, a clássicos musicais como A noviça rebelde e O Rei Leão (vide a canção Hasa Diga Eebowai, uma versão politicamente incorreta de Hakuna Matata). Leia mais

Sobre a arquitetura brutalista (e como ela se mantém)

O texto abaixo, correspondente à minha coluna deste mês, não é novo; ele já foi postado sob o nome de: “Uma pequena nota sobre arquitetura brutalista (e muito além disso)”, em agosto de 2012, na Revista Sinuosa, blog cultural inativo atualmente. Gostaria de publicá-lo novamente, com alguma revisão e expansão do texto, desta vez no Posfácio, porque acredito que algumas questões levantadas aqui de maneira modesta ainda são relevantes. Elas devem ser pensadas não apenas sobre a arquitetura, mas sobre a preservação das artes em geral. O Brutalismo, no caso, só parece ser um exemplo mais evidente por seu acentuado caráter de ruptura com a tradição.

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Antes de tudo, vale uma pergunta: você sabe o que é arquitetura brutalista? Acredito que a maioria das pessoas tem uma noção do que é arquitetura moderna, no sentido de Modernismo, a partir da qual já vêm à mente exemplos vários, de Le Corbusier a Oscar Niemeyer, passando por alguns americanos como Frank Lloyd Wright e outros. A preservação de edificações representativas de arquiteturas pertencentes ao passado é defendida por muitos motivos, mas acredito (como puro leigo) que isso não é tão claro para todas as obras modernistas. Leia mais

Tarrafa Literária: o olhar do fotógrafo

Cheguei daquele jeito: meio correndo, esbaforida e atrasada, procurando lugar naquele lindo Teatro Guarany de Santos. Era sexta-feira e terceiro dia da Tarrafa Literária. A mesa, 4, com Bob Wolfenson e André Liohn, era sobre Fotografia.

A Tarrafa, para quem não sabe, é um evento literário realizado anualmente pela Editora Realejo na cidade de Santos. Despretensioso e simpático, reúne escritores, fotógrafos, filósofos e demais pensadores que ali discutem livros, artes, e outras existencialidades desse mundo, vasto mundo. Leia mais

Elles: Mulheres artistas na coleção do Centro Pompidou

Diretamente do Musée National d’Art Moderne, o segundo maior acervo de arte moderna e contemporânea do mundo, abrigado no Centro Georges Pompidou, em Paris, o Centro Cultura Banco do Brasil do Rio de Janeiro recebe a exposição Elles (entrada franca), com devastadoras obras de artistas mulheres dos séculos XX e XXI.

Destaca-se a variedade da produção, com desenhos, fotografias, instalações, vídeos e, é claro, pinturas de autoras ao redor do mundo. Logo ao entrar, somos impactados pelo agoniante vídeo em looping da performer sérvia Marina Abramovic, “A arte deve ser bela… a artista deve ser bela…” (1975), que consiste na artista repetindo em inglês essas duas frases do título, enquanto penteia o cabelo diante do espelho de forma rude e doída. Leia mais

O que é arte contemporânea?

Todos nós já experimentamos a sensação de encontrar uma obra de arte contemporânea, como uma instalação feita com tijolos, ou uma pintura formada de blocos monocromáticos, e nos sentirmos completamente desconfortáveis e incertos, pressionados pela ideia de um significado oculto. Em parte, essa insegurança vem com o tempo. Para as crianças – como cada um de nós pode resgatar de sua própria infância – nada é completamente estranho;  elas inventam explicações e criam conexões insólitas de maneira espontânea (para divertimento dos adultos ao redor). Nesse quadro, O que é arte contemporânea?, das escritoras Jacky e Suzy Klein, aparece não como uma iniciação ao mundo da arte, do que as crianças não precisam, mas como uma ponte para o mundo adulto, uma extensão para sua disposição criativa de ver as coisas.

Pode ser que a pergunta do título traga, à primeira vista, a ideia de uma explicação sobre o que constitui a arte, sobre o que faz de uma peça de museu algo distinto, mais nobre, acima dos objetos do cotidiano. Mas não é essa a abordagem que as irmãs Klein querem dar à questão. Elas deixam de lado esse viés acadêmico para uma investigação quase palpável, apresentando a cada página exemplos de peças do acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York como se dissessem: “tomem, vejam, isto é arte contemporânea”. Leia mais

O Filme e a Peça: ‘A Partilha’

Este artigo começa com uma confissão: eu gosto do Miguel Falabella.

Sei que bom ator ele nunca foi e à parte dos quinze anos em que ficou à frente do Vídeo Show seu único grande feito na teledramaturgia foi em Sai de Baixo. Seu icônico Caco Antíbes, em sintonia com um elenco calibrado, mas especialmente com a Magda de Marisa Orth e a Cassandra de Aracy Balabanian, fizeram plateias gargalharem por seis anos e cunhou bordões como “Eu tenho horror a pobre!” e  “Cala boca, Magda!”. O sucesso do programa, que deve muito ao seu trabalho como ator e roteirista, mesmo há mais de dez anos fora do ar, ainda traz nostalgia e pedidos de retorno, e por isso o canal Viva prepara um especial com quatro novos episódios para irem ao ar ainda neste ano. Leia mais

Festival Baixo Centro começa hoje!

O festival baixo centro começa HOJE (05/4) e vai até dia 14 de abril (domingo da outra semana), com litros e litros de divertimento e opções culturais, e melhor ainda, gratuitas! A rota das atrações passa por Barra Funda,Luz, Campos Elíseos, Vila Buarque e Santa Cecília.

Criado em 2012, o festival tem como maior trunfo o caráter democrático. Os organizadores são grupos de coletivos culturais, gente como a gente, que por meio de crowdfunding e generosidade de muitos, realizam este festival que permite a apresentação de diversos grupos artísticos, independente de serem associados aos coletivos. Leia mais

Tom Jobim, por Nelson Pereira dos Santos

Precursor do Cinema Novo com Rio 40 Graus (1955), diretor de Vida Secas (1963), Tenda dos Milagres (1977), Jubiabá (1986) e tantas outras obras capturadas diretamente da melhor literatura brasileira, o hoje octogenário Nelson Pereira dos Santos é o exemplo mais próximo do que podemos chamar de “lenda vida”.

Para o bem do bom Cinema, Nelson ainda consegue manter-se ativo e nos últimos dois anos dedicou-se à construção de uma belíssima ode ao compositor brasileiro Antônio Carlos Jobim. Leia mais

O MAR do Rio

Do Leme ao Pontal, Ipanema, Arpoador, Botafogo, praia do Diabo, da Macumba, da Urca, a Vermelha e é claro, a mais famosa do mundo, a de Copacabana. O mar abraça o Rio, invade lindamente a Baía de Guanabara e é uma das principais causas que fizeram desse cenário um dos mais belos do mundo – apesar de todos os pesares.

Hoje, porém, outro tipo de mar entrará em pauta, que mesmo com as diferenças, de alguma forma ainda se relaciona às águas do Atlântico e também embeleza a cidade de um jeito estonteante: o Museu de Arte do Rio, o MAR, recém inaugurado na região portuária da cidade. Leia mais