Ferreira Gullar - Fronteiras do Pensamento

Na toca do poeta

“Guilherme, como você preferir. Abr” – eu não esperava que Ferreira Gullar perdesse seu tempo de poeta checando e-mails, muito menos respondendo a um moleque desconhecido. Mas aconteceu. Topou uma entrevista sobre Em alguma parte alguma, seu livro mais recente. Fiquei tão ansioso que nem percebi que Gullar, aos oitenta, sabia que, na internet, “abraço” vira “abr”.

Eu era um estudante universitário no primeiro semestre do curso de letras, precisava fazer um trabalho sobre um poema de Gullar e achei, meio sem pensar em nada, que seria uma boa entrevistá-lo. Foi só depois de acertar data e horário que a ficha caiu: um rapaz imberbe, com dificuldade em fazer escansão de versos, vai conversar sobre poesia com o último dos grandes poetas.

Fui para o Rio, me perdi, me encontrei, apertei o dois, o zero e depois o dois num interfone de um prédio velho na Rua Duvivier. A voz rouca de quem já viu muito perguntou quem era. E era apenas eu, meu deus, me perdoe. No elevador, não havia espaço para todas as indagações que subiram comigo. Pisei no hall e Ferreira Gullar me aguardava na porta, comprido, compridíssimo. Boa tarde, me apontou a mesa, disse qualquer coisa e foi ao banheiro.

Fiquei alguns minutos sozinho na toca do poeta. Comecei a me sentir sufocado. As paredes, abarrotadas de quadros, não tinham espaço para respirar. A tevê transmitia uma partida de tênis arrastada demais. Fora o sol preguiçoso das três da tarde, nenhuma luz. Desci do estado etéreo quando me dei conta de que não tinha nada preparado, e agora eu era Hefesto despencando do Monte Olimpo durante nove dias. Não sabia por onde começar, mas comecei mesmo assim quando Gullar voltou com um copo d’água, sentou-se à minha frente e batucou os dedos largos.

Conversamos por quase três horas e, no fim da tarde, saí de seu apartamento com o melhor trabalho de graduação da história – um medíocre oito e meio –, com declarações polêmicas e inéditas – repetições de outras entrevistas – e a certeza de que eu também deveria ser poeta – sou muito pragmático. Caminhei até a praia de Copacabana alguns centímetros acima do chão e me sentei ao lado de outro grande poeta, este um pouco mais bronzeado, rígido e mudo. Ficamos os dois em silêncio, observando aquela quantidade de pernas brancas, pretas, amarelas. Drummond até pareceu disposto a também me dar uma entrevista, talvez até tivesse algo interessante para dizer, mas eu não quis perguntar nada. Já tinha todas as respostas do mundo.

Fumando-espero

Ontem fumei um cigarro sem motivo pela primeira vez. Socialmente já devo ter pitado vez ou outra, eventualmente posso ter pedido um trago numa noite fria e é provável que não tenha feito desfeita com o charuto cubano que me presentearam, mas nunca tinha acendido um cigarro à toa.

Não sei bem como aconteceu. Era um dia ruim, estava desconjuntado do mundo e pedi um cigarro. Meu amigo cedeu um dos seus, surpreso por achar que eu não fumava, sem desconfiar que eu estava começando naquele momento.

Gostei. Menos do tabaco e mais da redoma que a fumaça cria. Fumar é a melhor forma de justificar um silêncio. As pessoas não suportam o sossego dos momentos vazios que compõem os dias e se empenham em preenchê-los. Fiscalizar os calados é a estratégia mais usual: está tudo bem?, aconteceu alguma coisa?, precisa de algo? Durante muito tempo experimentei me esquivar do público limpando as lentes dos óculos. Analisá-las contra a luz, mesmo desengorduradas, aumentava minhas chances de passar despercebido. Mas o fumante está imune. Ninguém questiona quem se demora calado em um cigarro: compreende-se.

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Cinquenta tons de verde e amarelo

Brilhante ensaísta cujos textos de não ficção foram compilados num modesto volume pela Companhia das Letras e cuja obra foi dissecada por nós do Posfácio em uma série de postagens especiais, ontem alguns de nós sentiram, ontem, falta de seu olhar arguto pelas ruas brasileiras. O que o bom fã faz? Em vez de reclamar, se pergunta WWVBD: What would Vanessa Barbara do?1 E saio eu mesmo pelas proximidades da Paulista.

Enquanto tomo café, o amigo que me acompanha diz que o restaurante – vazio quando entramos – parece ter se tornado uma parada obrigatória antes de, ladeira acima, os manifestantes irem para a Paulista. Eu não tinha percebido que quase todo mundo estava de azul e só entendi do que ele falava quando vi as senhorinhas da mesa logo atrás de mim: duas dela com blusas verdes e casaquinhos amarelos – aquela combinação que, durante a Copa, a gente finge achar chique. Leia mais

  1. Peço perdão aos fãs de Duna pelo vacilo.

Tem um vão ali

A semana entre o Natal e o Réveillon é a única que não faz sentido em todo o ano. Remotamente aparentados com o período entre o ano novo e o carnaval, estes cinco dias que vivemos agora são a síntese da inércia humana, e atravessá-los é tão incômodo quanto andar em um corredor estreito de parede chapiscada.

São dias em suspenso – nada começa, nada termina. A sensação de que tudo já passou faz com que as pessoas se sintam exaustas. Algumas contentes, outras cabisbaixas, mas todas invariavelmente melancólicas. Melancólicas como se estivessem passando certa madrugada em claro, insones e solitárias, a observar a imensidão de janelas apagadas da cidade. Um clima desconcertante que não admite muito balanço de corpo nem agitação de espírito. Leia mais

Os atrasados do ENEM

Os atrasados do ENEM estão desfechando tiros no peito, diria Drummond, se pudesse acompanhar a saga anual do Exame Nacional do Ensino Médio. Como não há mais poetas, resta-nos observar o drama dos vestibulandos retardatários de maneira rasteira: um pouco com o coração apertado, um pouco com a malícia do humor.

Não é por menos – com o mundo conspirando contra os estudantes, surgem algumas histórias de causar inveja ao cinema. Só em dia de ENEM para alguém capotar o carro e achar que o melhor a se fazer é seguir em frente, confiante nos próprios calcanhares, para não perder a hora da prova. Como a máscara da comédia está sempre ao lado da trágica, a gente acha graça naqueles que ficaram de fora por motivos bestas – tipo o rapaz que, já dentro do local, se deu conta que tinha esquecido a água, saiu para comprar e, ao retornar, deu com os portões fechados. Leia mais

O menino e seu cavalo

São tantos os dramas dos adolescentes da classe média que demorei um pouco para descobrir que tudo que eu desejava era um cavalo. Nem queria saber como era viajar de avião, não me importava em parcelar tudo em dez vezes e achava OK ter que comprar sempre o iogurte mais barato. Eu só queria um cavalo.

Não para cavalgar aos finais de semana, tipo hobby de gente que não é diferenciada, mas para ser meio de transporte. A verdade é que queria chegar na escola trotando e, enquanto os outros meninos passavam cadeado nas bicicletas, eu amarraria meu cavalo com um nó de porco e entraria três minutos atrasado na sala para encher um balde de água. Leia mais

José Luís Peixoto dentro e fora da Coreia do Norte

Às vezes, na vida, uma obsessão particular pode nos fazer tomar decisões que assustam os outros, mas que são necessárias para nos satisfazer de algum modo. É o que fez José Luís Peixoto em 2012: “Propus-me a ir à Coreia do Norte e fui”. Dito assim, de modo bem português. O jovem escritor de Galveias, pequena cidade no Alentejo, fascinado a seu modo por regimes totalitários (mas sem concordar com suas políticas), decidiu se juntar a uma excursão para passar cerca de duas semanas no país conhecido por ser o mais fechado do mundo. E ainda escreveu sobre a experiência.

Dentro do segredo, lançado em 2012 em Portugal, é a memória do autor desses poucos dias em território norte-coreano, que foram vividos de uma maneira que poucos de nós, ocidentais, podemos imaginar. O regime fundado por Kim Il-sung, o “grande líder”, em 1948, pela criação da República Democrática Popular da Coreia, se mantém mesmo após sua morte. A chamada “ideia Juche”, baseada no culto à personalidade de Kim Il-sung e seus sucessores, bem como no militarismo extremado, é a responsável pela manutenção do Estado norte-coreano sob essas condições. Todas as decisões tomadas pelo governo são, de certo modo, secretas, até mesmo para a população do país. Daí o mistério todo que Peixoto decidiu enfrentar.

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Uma ótima história roubada

A entrevista estava marcada para as onze da manhã, horário em que o escritor Jorge Edwards estaria terminando de tomar café. Perguntou se poderia ser em sua pousada para evitar os outros jornalistas. Concordei, mas esclareci que não era jornalista. Era apenas um estudante de literatura terminando um trabalho sobre Rubem Braga. Edwards ergueu as sobrancelhas desregradas de velho escritor chileno: “então posso te confidenciar uma história ótima”.

Um causo inédito sobre Rubem Braga era exatamente o que queria. Uma história tão boa que levaria sempre na carteira, para soltar um trechinho na roda de amigos mas nunca revelar o final, para contar vantagem nas discussões da universidade e fazer inveja aos outros pesquisadores, para confidenciar apenas para a namorada quando quisesse quebrar o silêncio de um fim de tarde contemplativo. Leia mais