Crítica: Enquanto Somos Jovens

Noah Baumbach é um cineasta das crises. Das pequenas crises, inevitáveis, universais, humanas. Seu primeiro filme a alcançar notoriedade, A Lula e a Baleia, falava de uma família lidando com o divórcio. Não um divórcio com grandes traumas e reviravoltas, apenas uma família de classe média do Brooklyn lidando com seu esfacelamento, natural, superável, mas não menos dolorido.

Mais recentemente, Frances Ha ganhou de forma afetiva as centenas de jovens que se identificaram com ela: sem dinheiro, mas com uma família próspera suficiente para ajudar; aprendendo a trivial, mas ainda assim dolorida, realidade de que não se pode ser tudo o que quiser.

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Sam & eu

O pedido parecera simples: escrever um manifesto sobre o dia dos pais. Não um manifesto qualquer no qual é citado cada definição para a paternidade, autoridade e patriarcalismo. Uma torrente de ideias feéricas transmitindo a verdade de todas as faces e gêneros de um antes conhecido pai de família.

Estava sentado na mesa da sala de estar, o computador aberto há duas horas, a garrafa de água não estava mais gelada, e redesenhei sentença por sentença. Evitei os pronomes masculinos, os clichês e lugares-comuns, as frases batidas – modificadas ou adaptadas. A voz para conduzir essa narração empoderada – ou seria empoleirada? – teria de ser neutra, mas carregada de emoção; firme, conquanto gentil. Cansada e ao mesmo tempo disposta. De leveza dúbia e, acima de qualquer circunstância, uma voz reconhecível para filhos desgarrados ou fãs de seus progenitores (e essa palavra estaria proibida, não faria sentido usá-la – eu falava de uma figura mais do que biológica). Leia mais

O Sol É Para Todos, de Harper Lee

Dando continuidade ao mês dos clássicos aqui no Posfácio, que já contou com o pioneiro Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, o romance sobre o puritanismo A letra escarlate, de Nathaniel Hawthorne, o poderoso O vermelho e o negro, de Stendhal, e o avant-garde Jacques, o fatalista, e seu amo, de Diderot, veremos agora o clássico americano O sol é para todos, de Harper Lee, em texto da colaboradora convidada Julia Alves.

Escrever apenas um best-seller na vida não é algo tão incomum quanto se imagina1, e Harper Lee integrava esse grupo até pouco tempo, quando anunciou o lançamento de Go Set a Wachtman, continuação de O sol é para todos. O manuscrito foi guardado por cerca de cinquenta anos e narra a volta da personagem principal, Scout Finch, já adulta, à sua cidade natal. O retorno ao passado obriga Scout a lidar com as mudanças inerentes da época sobre o local onde cresceu, e desconstruir a idealização infantil sobre seu pai e herói, Atticus Finch. O novo livro, com pouco mais de duas semanas nas prateleiras, bateu um milhão de cópias vendidas apenas nos EUA, e, no Brasil, já tem lançamento prometido pelo selo Jose Olympio.

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  1. Margaret Michell, por exemplo, autora de …E o vento levou, também integra o grupo de grandes escritores de um livro só.

Cama de Gato

Na morte de 2014 e no nascimento de 2015 – praticamente um natimorto – eu tomei uma decisão (ou seria uma prospecção?) daquelas que ocorrem, estilo epifania/insight, sobre qual seria a minha meta. Nunca fui um fiel às minhas promessas de ano novo. Como diria Guimarães Rosa: “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior”; e como eu poderia manter uma promessa se dali um mês, quiçá uma semana, ou até na manhã de ano novo, curtindo uma ressaca de cachaça curtida, eu seria outra pessoa? Mas a minha meta foi: o profissional viria antes do pessoal em 2015.

Explico: entre 2008 e 2014 sempre coloquei minha vida pessoal em primeiro plano. Festas? Com certeza. Encontro com amigos? Sim, senhor. Uma desculpa para beber, namorar e não se preocupar com nada? Concordo. A labuta era só uma maneira de administrar essa vida pessoal no financeiro. Afinal, nem todos os amigos querem pagar uma rodada de suco pra galera. Leia mais

Jacques, o Fatalista, e seu Amo, de Diderot

Em continuidade à nossa série de textos sobre os clássicos, voltamos agora à França do século XVIII para falar de Jacques, o fatalista, e seu amo. Escrito pelo célebre enciclopedista Denis Diderot, o livro marca a literatura como um cruzamento de diversas tendências, dos contos de amor aos romances de cavalaria, das formas medievais às contemporâneas, com elementos de sátira, crítica social e reflexão filosófica.

A narrativa se desenvolve como uma longa conversa entre o valete Jacques e seu amo (o qual nunca vem nomeado). Os dois partem em viagem, mas desde o princípio o narrador intervém para dizer que não importa entender como teria se formado essa parceria ou com que fim seguem em frente.  O diálogo começa em seguida, e o leitor tem de inferir que, para diminuir o tédio da empreitada, o amo espera que o companheiro lhe conte suas histórias amorosas.

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Uma colcha de retalhos

Não é que eu odeie efemérides. Apenas as considero totalmente desnecessárias de um modo geral. Pensando bem, na verdade, elas são uma manobra para lá de pobre para conseguir uma certa audiência para um veículo de comunicação. Usar a data de morte, de aniversário, de primeiro lançamento – sem ser com números redondos – não faz lá muito sentido para mim. Eu sou hipócrita. Usei e abusei, reutilizei e reciclei efemérides mil, contudo posso acusar minha pouca idade para dizer: considerava legal resgatar essas datas como uma forma de celebrar a memória de um ídolo.

Outra coisa que vejo se espalhando pelos quatro cantos da internet são marcas utilizando datas para criar algum post de trocadilhos ou mesmo de “homenagem”. Se antes datas como Dia dos Pais, Dia das Mães e Dia das Crianças eram alvos fáceis para propagandas de um mês, dois até, pelo menos ficávamos nisso. As datas fora do eixo comercial (dia do datilógrafo, dia do radialista, dia da comunicação…) são muletas para aleijados criativos. Me desculpem, mas é verdade. Pior, já fui vítima explorada por superiores insistindo que esses atalhos fáceis para preencher vácuos eram não somente necessários, mas estritamente importantes.

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O Vermelho e o Negro, de Stendhal

Seguindo com o mês dos clássicos, chegamos a uma narrativa que, de forma consciente, propõe-se a ser o tratado de uma época. Quando foi publicado, O vermelho e o negro trazia o seguinte subtítulo: “crônica do século XIX”, substituído posteriormente por “crônica de 1830”.

Não é pouco importante essa delimitação de período, nem o país em que o livro é escrito. Toda a literatura francesa do século XIX trata, analisa e se obceca com as possibilidades da mobilidade social.

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Robinson Crusoé, de Daniel Defoe

Dando sequência ao especial “Mês dos clássicos”, debrucemo-nos hoje sobre uma obra que é tida como uma das pioneiras do romance moderno: Robinson Crusoé, do escritor inglês Daniel Defoe (1660-1731).

O livro, publicado em 1719, encontra-se naquele conjunto de obras literárias cuja inovação foi tamanha, e cujas “soluções formais” se tornaram tão difundidas, que sem circunstanciá-la historicamente e literariamente ficaria difícil perceber qual foi a sua grande ruptura ou seu grande pioneirismo. No que tange a Robinson Crusoé, surpreende como sua construção se assemelha a formas narrativas que são absolutamente comuns até o presente, e essa talvez seja uma das evidências mais expressivas de sua profunda influência: a própria concepção de narrativa literária com a qual estamos acostumados foi em grande parte talhada por Defoe. A relativa “não surpresa” que temos ao ler o clássico que é Robinson Crusoé é uma das principais provas de que ele fez escola no desenvolvimento da literatura contemporânea.

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A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne

Save de date: julho será o mês dos clássicos aqui no Posfácio. A cada semana, um dos nossos colaboradores trará a resenha de um livro considerado clássico da literatura mundial. Sem spoilers, só adianto que tem muita coisa boa a caminho, de grandes autores e gêneros diversos. Mas o que faz de um livro um clássico? Quem foram essas pessoas que escreveram obras atemporais e universais e como elas fizeram isso? Essas são algumas das perguntas que tentaremos responder em nossos textos, e se a iniciativa der certo, nada impede que se estabeleça esse projeto como fixo em nossa grade, fazendo de julho um mês sempre especial, em que os monstros sagrados da literatura estarão em debate.

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Iniciando os trabalhos, hoje lhes apresento A letra escarlate, obra de 1850 do estadunidense Nathaniel Hawthorne (1804-1864), conhecida por abordar a colonização puritana dos EUA e por trazer aquela que é considerada a primeira mulher como protagonista na literatura daquele país.

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Sobre a Escrita, de Stephen King

Deixando claro desde o início: Sobre a escrita é minha primeira leitura de Stephen King. De alguma maneira cheguei até aqui passando ao largo de um dos autores contemporâneos mais populares em todo o mundo, e não foi por esnobismo. Ainda assim, paradoxalmente, conheço bem um número razoável de suas obras, e isto graças às adaptações audiovisuais mais (Louca Obsessão) ou menos (Christine – O Carro Assassino) bem-sucedidas, que me possibilitaram ganhar certa familiaridade com sua escrita antes de, de fato, tê-lo lido.

Para estrear, decidi pegar justamente aquela que talvez seja sua única não-ficção, traduzida para o português em bonita edição da Suma das Letras. Logo na primeira página, o senhor King nos avisa: “Isto não é uma autobiografia. É, na verdade, uma espécie de curriculum vitae, minha tentativa de mostrar como se forma um escritor” (p. 19). Nas duzentas e tantas páginas que se seguem, o sentido da escrita é sempre o mesmo, oferecendo uma obra que não servirá aos fãs curiosos por destrinchar sua intimidade ou por saber das polêmicas, como o vício em álcool e drogas. Todos esses assuntos são tocados superficial e esparsamente. Mas em cada linha, o foco se volta para aqueles genuinamente interessados pelo processo de escrita e humildes o suficiente para dar atenção a alguém que já vendeu mais de 350 milhões de livros1 ao redor do mundo, a despeito da implicância de alguns em relação ao gênero e estilo de suas obras. Leia mais

  1. Fonte: Wikipedia.com (em inglês).

Crítica: “Dívida de Honra” – Mulheres no Velho Oeste

Ao me deparar com o faroeste dirigido e estrelado por Tommy Lee Jones, confesso que de início senti certo desânimo e sono, e é a isso que se pode creditar o atraso desta crítica, escrita cerca de um mês depois da estreia do filme no Brasil, e a seu fraco desempenho de bilheteria, tendo rendido mundialmente cerca de U$ 2,5 milhões diante de um orçamento estimado em U$ 16 milhões1. Mas vamos combinar: sabemos que o ator não é muito afeito à vivacidade, sua própria carreira foi construída em torno dessa persona sisuda e de pouca paciência, em filmes como O Fugitivo (1993) e Onde os Fracos Não Têm Vez (2007). Credita-se a ele, inclusive, certa confissão de não se achar dotado de nenhum senso de humor e, por isso, não achar graça em nada. Assim, fica um pouco difícil pensar um momento adequado para assistir a esse filme (domingo à tarde nem pensar!) sem correr o risco de cochilar nos primeiros minutos.

Porém, pensando mais a fundo, lembramos que muitas vezes ele parece ter se esforçado em tentar nos surpreender, mesmo que incorporando um histriônico Harvey Dent/Duas Caras no ruim Batman Eternamente (1995) ou, mais recente, fazendo a insossa comediazinha romântica Um Divã para Dois (2012), com Meryl Streep.

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  1. Fonte: Imdb.

“A literatura para mim nasce do incômodo” – entrevista com Flávio Izhaki

Foto: Fábio Motta/Estadão

Morador do bairro de Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro, o jornalista e escritor Flávio Izhaki foi lançado no mercado editorial brasileiro como uma das novas promessas da literatura contemporânea, durante o final dos anos 2000. De lá pra cá, publicou a novela De cabeça baixa (Guarda-chuva, 2008) e o romance Amanhã não tem ninguém (Rocco, 2013), além de contemplar algumas antologias de contos, realizadas no país e no exterior.

Elogiado pela crítica, o escritor carioca não se deslumbra com a grande recepção dada para os seus dois primeiros trabalhos como romancista, principalmente ao último, citado como um dos melhores romances brasileiros do ano, pelos jornais O Globo e O Estado de São Paulo. E aponta em entrevista exclusiva para o Posfácio: “No ato da escrita não importa as eventuais críticas positivas de um trabalho anterior. Quando se começa um novo livro, zera tudo, até porque o autor não escreve para a crítica. Pelo menos não deveria.”

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