A Estrada

em 7 de junho de 2010

Num futuro não muito distante, o planeta encontra-se totalmente devastado. As cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis. Os poucos sobreviventes vagam em bandos. Um homem e seu filho não possuem praticamente nada. Apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras com poucos alimentos e um revólver com algumas balas, para se defender de grupos de assassinos. Estão em farrapos e com os rostos cobertos por panos para se proteger da fuligem que preenche o ar e recobre a paisagem. Eles buscam a salvação e tentam fugir do frio, sem saber, no entanto, o que encontrarão no final da viagem. Essa jornada é a única coisa que pode mantê-los unidos, que pode lhes dar um pouco de força para continuar a sobreviver.

A Estrada é um livro sobre a jornada de um pai e seu filho, nunca nomeados, numa terra pós-apocalíptica. O autor é Cormac McCarthy, mesmo de Onde os Velhos Não Têm Vez. Em 2009 foi lançada a versão cinematográfica dirigida por John Hillcoat e estrelada por Viggo Mortensen.

Luciano R.M.: Violência costuma ser a tônica dos livros do americano McCarthy. Em ‘A Estrada’, porém, ela assume uma forma diferente da costumeira: não se apresenta como matanças sangrentas, mas como um profundo niilismo. O mundo desolado sem que se apresente um motivo de forma clara, esperanças débeis prontas a serem frustradas e diálogos curtos e secos- pois não se resta muito a dizer. Contrastando com isso, porém, existe a relação entre um pai e seu filho, lutando juntos por algo que nem eles sabem ao certo o que é.

Pips: Quando chegarmos ao fim do planeta, será possível separarmos emoções, moral e medos? Nesse exemplar de McCarthy somos levados por uma estrada sem nome, onde pessoas sem nome se cruzam, assustam e são assustados, e acima de tudo, perderam o vínculo real das relações humanas. Um pai vive num que o mundo não é mais mundo; cinzento, sem sol, chuvoso, melancólico, silencioso e sufocante. Seu filho nasceu em meio a essa era apocaliptica, sem anjos ou demônios, somente sobreviventes sem nomes e raças. Resta a eles existir e ser pelo outro. Aqui a ausência de uma perspectiva torna-se a dioptria da transgressão, o credo pela salvação através de descendentes e acima de tudo as escolhas num mundo “livre” de regras.

Clandestini: A Estrada é o tipo de livro que é preciso encarar com certo cuidado. Se quiseres um livro raso ou leve, melhor procurar outra leitura. Se sua sensibilidade é assim, digamos, muito alta, prepare-se com caixas e mais caixas de lencinhos de papel: as lágrimas foram companheiras durante quase todo o livro. O cenário é desolador, mas mesmo aterrorizante, funciona apenas como plano de fundo para o que o autor pretende com seu romance (fazer o que se eu gosto tanto desse cenário nas histórias de ficção). O livro é muito mais do que a história do que nos aguarda no temido fim dos tempos, é a história da profunda relação entre pai e filho, amadurecimento e sobre esperança, “cada um o mundo inteiro do outro” (sem dúvida a melhor frase do livro). Acho que uma palavra que adjetiva bem a narrativa é angústia. Mas não se engane, não é um melodrama grudento e pobre. Longe disso, é um romance requintado, profundo e extremamente complexo. A experiência de ler uma obra como A Estrada é algo que não se esquece jamais, com certeza um dos melhores livros lidos em toda minha vida.

Luciano Altoé: Determinados livros não foram feitos para serem lidos, mas para serem sentidos. No videogame chamamos isso de “capacidade de imersão” e ocorre quando o jogo transporta o jogador para o universo transmitido pela tela. Esse é exatamente o efeito causado por “A Estrada” de Cormac MacCarthy; essa pequena obra-prima da literatura tem o raro poder de fazer o leitor embarcar, de corpo e alma, na viagem realizada pelos protagonistas da história. E é bom que se diga, a viagem não será nada fácil para o leitor! A história se passa em um futuro pós-apocalíptico, onde pai e filho caminham em busca da salvação. MacCarthy não poupa o leitor; descreve sucintamente cenários e as reações dos personagens, todo o resto fica para o imaginário de quem tem a obra nas mãos, as situações são de um realismo medonho, os diálogos são crus e, às vezes, cruéis; tudo sob um eterno céu acinzentado, onde o Sol, há anos, não passa de uma sombra pálida. Ainda assim é uma história de amor incondicional entre pai e filho. Não é um livro fácil; eu mesmo lia duas ou três páginas e era obrigado a parar e ruminar tudo o que fora transmitido pelo autor, mas isso apenas demonstra a força desse livro inesquecível, com certeza um dos melhores que li… ou senti.

Wilson: Existem livros que tiram tudo de nós. O silêncio das palavras não escritas ao final da história é o que sobra após termos verdade por verdade pulverizadas sobre o mundo como o vemos. Pai e filho seguem em meio aos destrocos de um mundo apos o apocalipse, onde a noite e o silencio parecem eternos, alimentos sao quase impossiveis de serem encontrados, os demais sobreviventes foram reduzidos a canibais em desespero. Pai e filho vagam por estradas desertas num mundo apagado. Nao existe trama. Existem as palavras do autor conduzidas por um fio narrativo dos mais basicos, o amor de um pai por seu filho, no qual apesar da destruicao se deposita a fe. Nao e um livro facil de ser lido, mas a poesia esta ali em cada pagina. E num último instante de contemplação antes que fechemos por fim o livro, um inventário surdo do que podemos dizer que amamos ou esperamos ou sabemos do mundo como um todo e o quão pouco realmente temos apenas para nos enganar de que não temos realmente nada. No princípio e no fim o mundo se encerra no labirinto, é o que diz McCarthy.

Zzeugma: O aspecto que a maioria dos leitores irão se prender é na relação pai e filho. A descrição é repleta de detalhes simples que conferem veracidade e emoção. Já li em uma resenha anterior: “Preparem a caixa de lenços”. Não dá para negar que é o tema principal e inescapável do romance: como criar um filho em um mundo louco e sem esperança? Como e – principalmente – por quê? Mas existem outros aspectos que, a meu ver, merecem tanto relembrar quanto este. Em geral, nas histórias pós-apocalípticas mais comuns reforça-se o aspecto da luta contra o meio ambiente hostil. Falamos do fim da civilização, de um retorno a uma barbárie selvagem, e não do fim da humanidade. Às vezes, podemos encontrar até uma espécie de renascer da natureza como (nos filmes, não sei como foram os livros) “O Mensageiro” e “Eu sou a Lenda”. Mas n´A Estrada, a natureza está morta, completamente morta, de uma forma tão total que não restaram nem insetos. Pode ser uma “premissa” um tanto forte, mas a ideia é transmitir que, por mais longe e separados que estejamos dela, nós ainda dependemos da natureza, de uma forma absoluta. Depois de ler Meridiano de Sangue, não consegui deixar de enxergar ligações entre este mundo morto e aquele exuberante. Além disso, vê-se que um ambiente de barbárie, existe violência, mas bem distante daquela violência “heroica” que vemos em filmes e livros. N´A Estrada, a violência é constante e brutal, entretanto não há orgulho nenhum nisso, não há coragem, não há esta defesa do “Homem Forte”: não é um faroeste ou romance de aventuras maquiado em cenário de “fim de mundo”. A violência ou é ferramenta de domínio ou a defesa do desesperado.

Rafaela: Um livro diferente, um pouco assustador, que retrata um mundo sem esperança, onde um pai e seu filho caminham, não em busca de um lugar prometido, mas somente pensam em sobreviver por mais um dia, em meio a cinzas, canibais, falta de alimentos, frio. Através da forma que foi escrito o autor pode transmitir o terror e o desespero de um mundo que está se deteriorando, onde os animais deixaram de existir, as plantas morreram e algumas pessoas tentam sobreviver, como animai. Muitos comendo outros de sua espécie. E um pai e seu filho caminham por esse mundo. Duas realidades diferentes: um lembra ainda do antigo mundo, onde o ser humano era o dono do mundo, outro que conhece apenas essa realidade e não acredita muito nas histórias que o outro conta, pois acha difícil acreditar que o mundo onde vive já foi bonito e rico. Quando comecei a ler não consegui largá-lo, li em dois dias! Eu sentia o frio que as personagens sentiam, a fome que os atormentava, o medo. O autor soube passar tudo isso para o papel e é um dos livros que mais gostei de ler! Chega a lembrar um pouco Ensaio Sobre a Cegueira do Saramago, mas mais aterrador! Um livro que deve ser lido e refletido. Recomendo!

McCarthy, Cormac. A Estrada. Editora Alfaguara, 2007. 240 Págs.

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2 comentários para “A Estrada

  1. Ficou show mesmo esse Meia Explica, hein? Parabéns! Queria ter lido para poder dar o meu parecer também. Depois de ler isso aqui quero ver quem não fica com vontade de ler A Estrada.

  2. Pingback: Rapidinhas de cinema #4 | Vida Ordinária

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