Gatos Empoleirados – Um descanso na loucura

em 6 de junho de 2012

Passei quase a minha terça-feira inteira (05/6) pensando no tema dessa coluna. Entre os temas mais óbvios estavam: livros para ler no Corpus Christi, churrascão da equipe Meia Palavra nesse final de semana em Curitiba e por último, e ainda mais cretino, livros para presentear a pessoa amada. Talvez cretino seja um adjetivo muito forte, mas não é minha praia comprar lembranças nesse dia cheio de corações vermelhos e propagandas que o antecedem. Creio que não tive foco porque estava preocupado com a tarefa mais importante do meu dia: acompanhar a passagem de som e show do músico recifense Lenine. Estava ansioso para que tudo ocorresse sem grandes problemas, ou melhor, sem problema algum. Para elevar meu nível de adrenalina, São Paulo estava (muito) chuvosa ao longo do dia e, para qualquer paulistano e paulista e recifense, isso é um agravante no quesito trânsito.

Saí da produtora quase duas horas antes e cheguei em cima da hora combinada com o staff do músico no teatro do Shopping Bourbon, na Zona Oeste de São Paulo, onde ocorreria o show da turnê Chão, que seguiria para a Europa. Entre os labirintos dos bastidores me infiltrei. Montei a parafernália o mais rápido possível e iniciei os meus trabalhos. Como a pressa é a inimiga da perfeição, muita coisa deu errada antes de dar tudo certo. A minha ansiedade não diminuiu após o meu serviço estar completo, queria poder me aproximar de Lenine e fazer algumas perguntas sobre a carreira dele e o show de abertura que ele fará na Flip 2012, evento que a equipe do Meia Palavra cobrirá.

Os ingressos para o show de abertura, e para todas as mesas da Flip, esgotaram em menos de duas horas desde o começo das vendas. Não, não cogitei mendigar por entradas, longe disso, mas o início da prosa foi justamente o crescimento exponencial da festa nesses dez anos. Lenine demonstrou uma real admiração pelo evento, o que me fez silenciar e não perguntar mais nada, apenas ouvir. Desse momento em diante, após a passagem de som e antes do show marcado para às 21h, ele falou sobre arte. Um dos assuntos mais interessantes tocado pelo músico era como ele e sua equipe gravavam os sons ambientes de cada teatro que passavam na turnê. Cada detalhe poderia ser usado para criar algum efeito imperceptível e necessário e, bem frisado, indispensável.

O assunto Flip trouxe em tempo mais alguns adendos, quando Lenine falou sobre literatura e grandes pensadores presentes no evento em Paraty. Pego de surpresa, comecei a citar os autores que marcariam presença e comentei por cima sobre e-readers – duvido que vocês adivinham de quem eu falava para esse assunto surgir. Todavia, a conversa ganhou um tom esperançoso: “Não importa como a arte chegue às pessoas, o que importa é ela conseguir transmitir o que quer”, disse Lenine sobre a modernização da leitura. Não sei se tocou vocês da maneira que me tocou, mas fez muito sentido na hora em que ouvi. Com certeza estava cativado pela maneira apaixonada que qualquer assunto era abordado pelo músico. Tudo era bonito visto pelo seu olhar e ouvido de sua boca, fugia de pieguisses forçadas.

Quando Lenine me largou no backstage para se arrumar para o iminente show, parei para refletir sobre essa coluna e resolvi jogar no lixo os esboços sobre o Dia dos Namorados. Esperei sentado o show de apenas três músicos, e de muito talento, iniciar. As luzes se apagaram. A voz padrão do teatro anunciou para todos se acomodarem e aproveitarem. Eu aproveitei mesmo que bem pouco. Não reconheci muitas músicas. A verdade é que as poucas que eu conhecia provavelmente todo mundo conhece. Essa sensação de familiaridade aumentou quando ouvi o primeiro verso de “Amor é para quem ama”: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde…”, frase tirada de Grande Sertão: Veredas, do grande João. Não parou por aí, os dois últimos versos eram a sentença completa do clássico favorito desse que vos escreve.

Ao final do show, embriagado pela lembrança de Guimarães Rosa e pelo ótimo concerto – finalizado com uma mensagem de Lenine a sua companheira e esposa há 25 anos -, cogitei escrever sobre o Dia dos Namorados, sobre presentes, sobre encontros às cegas e tudo que envolve essa data: amor, paixão, culpa, remorso e solidão. O melhor mesmo é saber que o amor é mesmo um pouco, para uns mais e para outros menos, de saúde, um descanso na loucura; e se você o tem, esqueça o tal presente material e aproveite essa data e qualquer outro dia do ano.

12 comentários para “Gatos Empoleirados – Um descanso na loucura

  1. Sou mais o Zé da Serrania:

    “O amor é uma dor
    é um tédio sem remédio
    que nem um prédio desabando
    assim sigo te amando
    sendo deixado de lado
    sem ser amado”

  2. Apesar de não conhecer muito de sua obra, sou apaixonada pela sonoridade do Lenine. Assisti um show aqui em Curitiba, já faz alguns anos e me impressionei com a qualidade do show. Dá até saudades disso.

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