Granta: Animais e Aquele vento na praça

em 13 de agosto de 2012

O Posfácio não esqueceu da Granta, se é o que vocês estavam pensando. A nossa equipe de bravos resenhistas resolveu que a melhor maneira de comentar a “publicação-mais-polêmica-da-literatura-brasileira” seria abordar cada texto, um por um. Então, a partir de hoje, todos os dias teremos uma “conversa por escrito” comentando os contos da revista que reúne os 20 Melhores jovens escritores brasileiros. Durante duas semanas teremos posts especiais sobre a Granta, e cada conversa abordará dois contos por vez. Aproveitem!

ANIMAIS

Michel Laub

Escritor e jornalista, Michel Laub publicou cinco romances, todos pela Companhia das Letras. Entre eles, Longe da água (2004), publicado também na Argentina (EDUCC), O segundo tempo (2006), e Diário da queda (2011), que teve os direitos vendidos para o cinema, recebeu prêmios Brasília e Bravo/Bradesco e sairá na Alemanha (Klett-Cotta), Espanha (Mondadori), França (Buchet/Chastel) e Inglaterra (Vintage). Nasceu em Porto Alegre, 1973, e vive atualmente em São Paulo.

Felippe: Eu sou fã de Michel Laub, devo confessar. Quando comecei a leitura lembrei imediatamente de Diário da Queda, o que foi bom. Só que ao chegar ao final, foi ruim. Claro que não fiquei surpreso por ser apenas um trecho, o intuito da Granta é mostrar o trabalho mais recente que será publicado pelos seus autores, mas, mesmo assim, ficou uma sensação de “estou lendo outra vez a mesma coisa”. Na mesma pegada.

Tuca: É um trecho de algo? Sério? Não sabia disso, mas, enfim. Eu gostei bastante do conto, no entanto. É fácil lembrar de Diário de queda, pelas pequenas seções numeradas, mas isso era algo que já estava sendo desenvolvido desde O gato diz adeus, romance mais distante do estilo do autor. Ao terminar a leitura, como um leitor que já leu todos os livros publicados de Laub (talvez fosse mais fácil falar logo “fã”, também), creio que “Animais” é a forma perfeita de apresentar a sua obra e de instigar alguém a lê-la. Ou a relê-la, como no meu caso.

Felippe: Sim, é um trecho e acho que isso prejudicou mais ainda. No fim do primeiro capítulo de Diário da Queda, eu já tinha sido sugado pela narrativa. Não larguei o livro até terminar. Com “Animais”, a minha reação foi bem diferente. Eu senti o Laub ali, senti aquele conhecido, aquele amigo que há tempos não via e resolvi bater uma prosa, mas tudo o que eu via eram as conversas sobre o passado e nada sobre os assuntos recentes.

Espero que, no desenvolvimento de “Animais”, Laub realmente surpreenda e esconda o núcleo da narrativa. É um ótimo texto para não iniciados, mas fica aquém das expectativas de quem já acompanha a obra dele.

Tuca: Na última Granta de jovens autores estadunidenses, tive problemas com os textos que eram trechos de romances, algo que pareceu não se repetir na edição brasileira.

Creio que o diálogo do autor com o passado (uma constante em seus romances, cheios de idas e vindas no tempo) não é uma espécie de retrocesso, como creio ter visto em outro trecho do mesmo volume. Nada sei  sobre “assuntos recentes”, mas tenho pra mim que seu estilo de escrever é do tipo que depura por muito tempo os acontecimentos até que se transformem em narrativa.

Eu tenho alguns problemas com o verbo “surpreender”, assim como com a expressão “mais do mesmo”. Eu creio que os dois se aplicam a “Animais”. É “mais do mesmo”, sim; mas quem liga, se continua bom? E o texto é capaz de “surpreender”, seja pela possibilidade de leitura como autoficção, seja com o pequeno desvelar inesperado (uma surpresa, bastante característica dos finais de capítulo de quase todos os seus romances e que tanto é prazerosa para o leitor) que se dá, por exemplo, na seção 23 do trecho.

A única coisa que ficou aquém das minhas expectativas foi descobrir que era um trecho e, portanto, saber que ainda tem mais pra ler. Ele sempre consegue me deixar curioso, mas normalmente eu mato boa parte dessa curiosidade devorando o livro em poucas horas: “boa parte” porque os finais de seus livros costumam deixar-me divagando a respeito. Pela primeira vez, estou sendo obrigado a esperar o livro ficar pronto. Por essa eu não esperava.

Felippe: Concordo com você em grande parte de tudo, mas creio que um leitor “comum” (não foi um trocadilho, tampouco menosprezo) pode não ver a grande sacada nesse excerto de romance. A grande força de Laub, ao meu ver, é seu choque descritivo e crescente; mesmo que ele esconda o núcleo, sempre aparece algo maior ou mais forte ou mais evidente que vem para arrancar quem o lê de seu conforto. Eu não senti nenhum choque. Talvez uma peninha, daquelas que se sente quando uma criança perde um animal de estimação. Nada que mudasse meu cotidiano, no entanto. A distância que Laub impõe, entre narrador e leitor, é muito grande: não ligo para quantos animais e primos ele perde (ou até mesmo para seu pai e seu avô). Não senti essa ligação.

Por outro lado, essa narrativa, que oculta o núcleo vivo da história, funciona muito bem para quem já conhece sua obra. Não duvido que o romance, já completo, terá momentos que me deixarão ofegantes. Como trecho, porém, o texto é bem mediano e pouco atrativo – talvez a estética de diário só seja capaz de atrair os novos leitores, enquanto abandona os anteriores sem “gosto de quero mais”.

Tuca: (Huahahahahaha, relaxa: “o leitor comum” é uma categoria tão frequentemente utilizada em tudo quanto é texto que eu já acabei meio que me vacinando com o seu uso.)

Sim, há a possibilidade de o leitor não iniciado não ver nada demais: sempre há. Não consigo analisar o trecho por esse viés: ainda que possa imaginar como seria minha leitura sem o contato prévio com todos os livros já publicados de Laub, não tenho intenção de fazê-lo. No entanto, posso dizer que, a meu ver, os textos do autor funcionam bem com “não iniciados”. Digo isto por associação com a leitura que fiz do primeiro livro dele com o qual tive contato, O segundo tempo. Os elementos da prosa que formam o estilo dele (entre eles, aquilo que você chamou de “choque descritivo e crescente”, um definição peculiar) estão presentes, ainda que eu ainda não pudesse fazer uma observação estilística só tendo lido aquele livro.

Mas, além de não ter lido qualquer outra obra do autor, eu também era um singular não iniciado em outro sentido: futebol. Sei que é parte da cultura brasileira e que aparentemente todo mundo deveria ter vindo com um chip para vibrar numa arquibancada, mas eu durante muito tempo achei que não gostasse disso. Hoje, tenho certeza de que esse esporte não representa nada em minha vida: não me importa o suficiente para que eu chegue a desgostar. Mas a falta de contato com tal “porção do inconsciente coletivo brasileiro” não atrapalhou a fruição da leitura, de que gostei bastante. Assim como, creio, não teria atrapalhado se eu não tivesse feito o curso de direito antes de ler Música anterior, se eu não tivesse vivido durante muito tempo em uma cidade litorânea para entender questões de Longe da água ou se eu não tivesse tido muito contato com a experiência do militarismo antes de ler determinado conto de Não depois do que aconteceu.

Ainda que eu tenha apreciado encontrar referências aos livros anteriores de Laub, referências de tal grandeza que narrador e escritor parecem se confundir (como quando você diz “A distância que Laub impõe é muito grande, nesse trecho me refiro, e não ligo quantos animais e primos ele perde, ou até mesmo seu pai e avô”), acho que elas são um bônus, não o único trunfo da narrativa. Ela é sucinta (no que é auxiliada pela estratégia dos diferentes cortes, numerados, como você apontou), incômoda e com camadas subjacentes passíveis de exploração para quem curte esse tipo de coisa. Para mim, “Animais” é um dos melhores textos da coletânea, além de ser um texto que deverá ser revisitado pelos leitores que, instigados por ele, devorarem todo o resto da obra do autor. Uma experiência que eu certamente recomendaria.

AQUELE VENTO NA PRAÇA

Laura Erber

Laura Erber nasceu em 1979 e mora no Rio de Janeiro. É artista visual, formada em letras, com doutorado em Literatura pela PUC-RIO, foi escritora em residência na Akademie Schloss Solitude de Stuttgart e no Pen Center da Antuérpia. Publicou contos e ensaios em diversas revistas e tem quatro livros de poesia, entre eles Insones (7Letras, 2002) e Os corpos e os dias (Editora de Cultura, 2008), finalista do prêmio Jabuti de poesia. Prepara um livro sobre Ghérasim Luca para a Eduerj e, atualmente, trabalha em seu primeiro romance, Os esquilos de Pavlov, a ser publicado pela Alfaguara em 2013.

Dindi: Então, ainda não tinha lido nada da Laura Erber até esse conto da Granta. Não sei se foi exatamente uma boa primeira impressão porque achei o início meio frio e demorei pra entrar na narrativa (e na hora que entrei já estava acabando, afinal, é um conto). E você?

Anica: Também foi meu primeiro contato com a Laura Erber e também tenho cá minhas dúvidas se o conto causou uma boa primeira impressão. Não é que ele não seja bem escrito, porque ele é. Redondinho, gostei da ideia de incluir o obituário quebrando as divagações iniciais do narrador, mas a história simplesmente não me prendeu. Não sei se é por conta de ter em sua base um assunto do qual não entendo/não conheço (para ter ideia, fui checar se Paul Neagu realmente existia), mas não me comoveu, não mexeu comigo, nem chamou minha atenção. Seria um daqueles textos que eu poderia ter passado sem ler que não teriam feito a menor diferença para mim.

Se for pensar no todo, acho que um ponto alto ali foi a história do sujeito que copiava os livros do Balzac, e achei graça da personagem pedindo que enviasse um Paulo Coelho para ela “que não fosse Brida“. E você, do que mais gostou?

Dindi: Então, quando disse que demorei pra entrar na historia, acho que também foi por não ser conhecedora do assunto, mas sabe, até que ponto? Não faz tempo que li A lebre com os olhos de âmbar, que, assim como esse conto, também trata do mundo da arte e de compra e venda para exposições. No entanto, gostei bastante do livro, mesmo sem me identificar. Acho que o que me deixou mais distante do “Aquele vento na praça” foram as referências à rodo no início. Referências essas que não me ajudaram, mas travaram a leitura. Além disso, A lebre com olhos de âmbar acaba que usando a arte para retratar a história de uma família por gerações. Aqui no conto da Laura fiquei com a impressão de que a história era mais da arte mesmo do que de qualquer personagem.

A parte que mais gostei também foi do sujeito que copiava livros, Stefan Ptyx. Esse é o personagem com mais vida e o que salva um pouco o conto como um todo. É também o meio pro fim do conto, onde a autora parece deixar as referências um pouco de lado para dar maior valor à narrativa, e onde eu comecei a entrar na história. Gosto da parte do exato encontro entre o narrador e Stefan, quando esse sai pela casa cumprimentando tudo: “Ele continuou a caminhar pela sala cumprimentando o que encontrava pela frente ‘boa tarde mesa de madeira, boa tarde castiçal'”.

Não achei tão redondinho quanto você falou. Me incomoda, por exemplo, que a primeira parte do conto dê a entender que o narrador vá falar do seu envolvimento com Martina, a menina que ele conhece quando viaja para Bucareste: “Fui por que os outros me pediram e conheci Martina. Os cabelos mais perfumados do Leste, os caravaggiescos cabelos de Martina Ptyx”. O primeiro parágrafo é só Martina pra lá e Martina pra cá. E ai? A coisa se perde. Martina vira um personagem secundário.

O que você acha disso?

Anica: Pois então, eu quis dar um pouco do benefício da dúvida, mas depois que comentei isso comecei a pensar em outros exemplos de livros que abordam mundos/temas que eu também não conheço e que me encantaram mesmo assim. Puxa, já li coisa sobre buracos de minhoca e outras maluquices científicas que pareceram ter mais vida que “Aquele vento na praça”. Acho que incomoda bem isso que você apontou, as personagens parecem acessórios – e supérfluos. Sem o tratamento correto para as personagens, como criar a empatia com o leitor? Do Stefan eu gosto daquele momento final que o narrador diz que queria saber se ele sofreu ou sorriu ao chegar no fim da Comédia humana.

Mas é isso, é esse toque de humanidade que parece faltar na maior parte do conto. Sobre a Martina, é verdade que ele não dá muita ênfase para ela, mas se for lembrar bem, o narrador diz que foi para Bucareste “atrás das caixas de Neagu, conheceu Martina e voltou com coisas do velho Stefan”, e esses três pontos fundamentam o texto. Talvez o que a Erber quis criar ao fazer todas essas descrições da Martina no primeiro parágrafo foi uma espécie de quebra de expectativa: achávamos que seria uma história de amor, que tenderia para isso, e o conto se desdobra de outra maneira. E daquele parágrafo final (que explica o título do conto), o que foi que você entendeu dele?

Dindi: Ah, se é quebra de expectativa o que ela queria, o obituário funciona super bem em seguida, como você disse. Sobre o parágrafo final? Não sei muito bem o que pensar a respeito dele. A princípio, parece nem ter uma importância tão grande pra justificar o nome do conto.

Anica: Eu não entendi muito bem o que ele está fazendo ali. Para mim a história estava bem fechada já com “que personagem diria uma história assim?”. E até por isso que, como você, também não entendi o motivo que faz o título sair dele. Se há de repente um significado que não estou captando nessa conclusão, no grupo de ciganas e o vento batendo forte fazendo o narrador cruzar a praça com dificuldade.

Dindii: Verdade, até porque a história toda é sobre, como você mesma falou “caixas de Neagu, Martina e as coisas do velho Stefan”. Toda narrativa gira em torno disso e então, aquelas poucas linhas finais mudam para outro lugar sugere um início de outra historia. Estranho, né? Será que deixamos passar alguma coisa?

Anica: Gosto da ideia de início de uma outra história. Até porque tem uma fala do narrador logo no começo que é assim “Mas nada disso importa muito agora, nem importou tanto assim naqueles dias”. Talvez seja um evento que funcionou como gatilho para outro. E talvez o outro fosse mais interessante, vá saber.

13 comentários para “Granta: Animais e Aquele vento na praça

  1. Gostei da ideia de uma série de “papos” sobre os contos da Granta, ainda que a coletânea não tenha entrado na pilha de leituras urgentes e já atrasadas (ou talvez por isso), é uma forma de ir matando um pouco da curiosidade. Conheço poucos dos selecionados (2 ou 3 na verdade) mas acho que um texto só dificilmente permite um julgamento acertado (claro que não foi esse o critério usado na seleção, me refiro aqui à impressão que ficará para os leitores), e gera mais risco que benefício para o escritor.

    • Maurem, não queríamos fazer uma resenha só para a Granta. São escritores diferentes, propostas diferentes e para sermos justos separamos nesse bate-papo.

      Claro que poderíamos ter feito cada qual uma/duas resenhas, mas mesmo assim ficaria algo muito aquém do que gostamos de propor.

      Continue essa semana conosco para ver as outras visões!

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