Do que eu falo quando falo de livros

em 29 de agosto de 2012

Como eu citei algumas vezes em colunas e artigos: eu tenho muito medo de indicar livros para as pessoas. “Você vai gostar desse” é uma sentença muito forte, pois carrega a certeza de que você conhece aquele leitor. É diferente quando se escreve uma resenha que, de maneira indireta, indica sem apontar o dedo para uma pessoa específica – mesmo que figure dentro do texto um “indicado para leitores que gostam de leite de cabra”. Resolvi me arriscar nos últimos tempos e indiquei dois livros para duas pessoas que trabalham comigo. Um dos livros era Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron, para Camila – que tem uma irmã gêmea e achei que ela apreciaria a narrativa dos irmãos William e Wilson – e outro foi Do que eu falo quando falo de corrida, de Haruki Murakami, para a minha chefe Fernanda.

Fernanda é um daqueles casos raros da nova geração com 30 anos, acorda muito cedo para praticar esportes: academia, yoga e corrida (sem auxílio de esteiras). Em um dos muitos almoços que praticamos, ela me falou de diversos benefícios que a corrida traz além da saúde e físico. O estado de fuga da realidade. Um momento para se chamar de seu. Colocar os pensamentos no lugar e jogar muitos outros para fora a cada novo quilômetro superado. Todos esses assuntos remetiam ao livro de Murakami. Para a Anica, que resenhou o livro, corrida nada mais é do que pessoas correndo. Não existe algo a mais e a fadiga bate só de pensar em dar um pique na faixa de pedestres. Os dois perfis de vida diferentes ditaram a leitura, para bem ou para mal, contudo ambas ressaltaram ser uma história bem escrita. A similaridade da história do autor japonês e de Fernanda é que fizeram ela ter uma ligação maior com o enredo.

Uma das maiores torturas nas minhas leituras dos últimos tempos, e consequentemente para resenhar, é que as histórias com que me deparo não me dizem muita coisa. Não criei um envolvimento para odiar ou amar personagens e, muito menos, identificar-me com os enredos – se eles se passam aqui ou em qualquer parte do mundo e do espaço-tempo não importa, sempre há uma identidade que o leitor reconhece, sensorial ou sentimental. Essa falta de interesse se tornou evidente quando Gigio falou que eu não escrevia resenhas como leitor, mas como escritor. Apesar de não ser publicado, e nos últimos tempos ter-me dedicado às letras somente nos espaços cedidos na internet, o que ele diz faz muito sentido. Igual a um cinéfilo que quanto mais assiste filmes, mais crítico fica, a procura por originalidade em roteiros é obrigatória, mise-en-scène impactantes (e não necessariamente inovadoras) um vício  e atuações condizentes são o mínimo. Ou mesmo fãs de música em sua procura por novos e inspirados sons. O que muitos consideram pedantismo pode ser apenas a bagagem somada ao aficionado.

Todos os resenhistas do Meia têm um perfil de leitura. Tuca tem o vício de quem era preparador de textos; o Lucas é acadêmico e sempre pesquisa as referências; a Anica balança entre o acadêmico e o leitor ordinário e voraz; a Kika é o leitor curioso; Luciano é o obcecado e por aí vai. Todos têm seu perfil de escrita crítica. Balancear todos os fatores, do olhar crítico ao de leitor ocasional, é um dos grandes méritos do pessoal daqui do site. O mais divertido é ver leitores se verem nos leitores-resenhistas.

Haruki Murakami

É claro que há muitos leitores-algo mundo afora; o crítico analisa a sintaxe, a dimensionalidade dos personagens (até onde conseguem ser reais ou não) e seus arquétipos, o desenvolvimento da história – tanto em fluência quanto em conteúdo – e acima de tudo, o que há de mais ou de menos na obra. O leitor apenas leitor gosta da história. Ponto. Identifica-se com os personagens ou os reconhece nas pessoas com quem convive. Ri das situações absurdas. Desvenda uma mensagem para si. Enfim, ele encontra uma forma de amar ou odiar o livro, muitas vezes longe de uma lógica acadêmica. E o último caso é dos editores, e futuros editores, que identificam o que é excesso, o que falta e o que pode ser melhorado antes de publicar um livro. Creio que sou um híbrido de todos os perfis acima, com algumas ressalvas.

A descrição de Gigio para minha espécie de leitura é um pouco torta, está mais para uma quimera do leitor furioso e o editor apaixonado, com pitadas de um escritor ainda não batizado. Conquanto, continuarei com esse perfil mélangé, policiando-me para não extrapolar nenhum deles, e tentando conquistar novos leitores para resenhas, colunas e afins através das minhas interpretações para cada novo livro. Afinal, foi bem emocionante ouvir da Fernanda que aquele livro era o que ela precisava naquele momento, que a minha indicação veio na hora certa. Ela fez sua própria resenha ditada com o calor da emoção e da experiência primária da leitura – aquela que toca. Não precisei ser um corredor para recomendar aquele livro. Essa é a grande gratificação de quem lê e indica ou resenha: saber que as pessoas confiam e se arriscam, graças ao seu entusiasmo (ou total desprezo) para com as obras.

Quem ganha, no fim, são os leitores-corredores, os leitores comuns, os leitores-resenhistas, os leitores-escritores, os leitores-leitores e por aí vai…

7 comentários para “Do que eu falo quando falo de livros

  1. Haruki e eu quase partilhamos a data de aniversário (ele, 12 de janeiro; eu, 13; de anos diferentes, é claro). Do mesmo modo, quase partilho com ele esse prazer pela corrida. Durante um bom tempo fiz meu jogging-filosófico nas manhãs de Sol (e apenas nas de Sol, porque correr no frio não-dá!) no Villa-Lobos. A última de nossas coincidências: escrevemos, mas, bem, ele é Haruki, eu ainda sou um vir-a-ser, talvez. Haruki continua correndo – e está bem a minha frente.
    Bom texto, amigo!

Deixe uma resposta para Tuca Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.