Tão real quanto a ficção

em 24 de outubro de 2012

Semana passada teve início a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A cada ano o número de filmes aumenta e os cinéfilos se esbarram, correm, compram canecas, camisetas, credenciais e passam os dias e noites dentro do cinema. Tem quem tire férias para acompanhar da primeira à última sessão de todos os dias – eu mesmo fiz isso por três anos, hoje em dia não calha mais ter férias à época. Além da programação de películas inéditas de vários países, e que raramente estreiam em cinemas brasileiros, a SPIFF (São Paulo Internacional Film Festival, como alguns chamam) escolhe homenagear um diretor, reprisando seus filmes na telona para quem nunca teve a oportunidade de assisti-los ou para quem quer relembrá-los.

Nesse ano de 2012, Andrei Tarkovski é o escolhido, e grandes obras suas, como O Espelho e O Sacríficio, estão entre os selecionados para encher de saliva a boca de muito marmanjo conhecedor de cinema ((Quem quiser, os filmes selecionados do diretor são: OS ASSASSINOS (1956), HOJE NÃO HAVERÁ SAÍDA (1959), TEMPO DE VIAGEM (1983), NOSTALGIA (1983), O ESPELHO (1975), O SACRIFÍCIO (1986), A INFÂNCIA DE IVAN (1962), O ROLO COMPRESSOR E O VIOLINISTA (1961), SOLARIS (1972), STALKER (1979))). Para alentar mais ainda os seus fãs, a Cosac Naify lançou Tarkóvski – Instantâneos, uma coleção de 60 polaroides do diretor russo.

Eu o conheci em meu primeiro semestre de faculdade, e uma das razões para eu ir atrás do diretor era sua participação no cânone do cinema mundial. Após assistir A Infância de Ivan e Andrei Roublev, filmes que logo entraram na minha lista de favoritos, um amigo me indicou Esculpir o Tempo, uma espécie de autobiografia, carta de intenções e, indiretamente, um livro sobre roteiro escrito por Tarkovski. Existem muitas passagens memoráveis, mas a que sempre permanece na minha cabeça é: “…as personagens mais interessantes são aquelas exteriormente estáticas, mas interiormente cheias da energia de uma paixão avassaladora.”

Stop… HAMMER TIME

Em muitas resenhas que escrevo, gosto de exaltar os personagens que me encantaram, não apenas por suas falas marcantes, mas por serem tridimensionais. Quando cito esse termo errático penso sempre nas emoções que cada um me traz: erros, acertos, choros, brigas, mudanças temporárias, reflexões, etc. Esses traços que humanizam os personagens não precisam de uma exposição excessiva. É importante que o autor saiba moldar sua criação para torná-la verdadeira e palpável sem precisar de explicações adicionais ou uma superexposição, “Ei, olhe, eu sofro muito!”. Acredito que para chegar mais próximo da realidade quanto à personalidade dos personagens, mesmo que eles sejam “aliens” ou seres imaginários, precisam de uma característica deste nosso mundo real – o escritor busca e pesquisa seus conhecidos, amigos e a si próprio (toda aquela questão autobiográfica) transformando sua criação em alguém que facilmente cruzaríamos na rua. E neste ponto, eu gosto dos personagens da vida real, motivo pelo qual em diversas colunas cito pessoas que nem todos que leem aqui conhecem – quem sabe não conhecem alguém parecido -, mas que são verdadeiras, são tridimensionais – ou quadridimensionais, pois têm cheiro também.

Buscando no dia a dia, numa teoria rasa, todos somos personagens de nós mesmos. Todos somos muitas pessoas em um. Não é falta de integridade ou caráter, é uma condição humana. As pessoas não são as mesmas no trabalho, em bares ou em casa. A postura ereta ou relaxada, a forma como se veste, a forma como fala, os assuntos que aborda, as escolhas que toma – quantas vezes não nos pegamos em um momento de (in)decisão: o que é melhor para a carreira ou para a vida? Onde está a satisfação? E quantas vezes muitas pessoas não se pegam após um impulso pensando o que deveriam ter pensado antes de cometer este ato imprudente, e só chegam a essas reflexões depois que algo deu errado. É como se cada ambiente fosse uma história e o personagem-humano-real transitasse entre um e outro e, em momentos peculiares da vida, acaba por se confundir e expor uma de suas faces em um ambiente em que poucos a conhecem. Sentimentos à flor da pele que transformam aquele solteiro convicto em um namorado exemplar ou aquela menina meiga em uma verdadeira arruaceira. E aquele exemplo clássico de como certos adolescentes se comportam de maneira agressiva quando estão em grupo. Os Arquétipos Junguianos. Somos todos tantos personagens que em cada lugar temos um nome próprio (um apelido que um grupo restrito mantém para si) e uma característica tal que todos lembram. Quanto a mim, uns me recordam na Mostra de SP, e outros lembram de mim por lançamentos em livrarias, na mesa da Mercearia São Pedro, etc.

Juntando tudo isso num só texto, começo a repensar como é difícil escrever e sermos verdadeiros na ficção. Se o mundo que criamos nas páginas de histórias não é verossímil, que os personagens sejam. Eles devem ser um reflexo, tal qual as pessoas do seu cotidiano. Não adianta ser apenas você mesmo. Cada um, pela vivência, pela experiência, por traumas ou nostalgias, verá cada pessoa de uma maneira peculiar. Como quando Anica e eu falamos sobre a personagem principal do romance Serena.

Vários personagens passaram pela minha vida e muitos deles, os mais interessantes, são igualmente comparáveis à frase do Tarkovski. O irônico, ou destino, ou acaso – ou foram as minhas sinapses que não assimilaram antes -, era que uma das minhas amigas mais fiéis à Mostra de SP é um desses personagens. Uma pena eu não conseguir ir esse ano e, talvez, encontrá-la com sua personalidade lacônica para com todas as pessoas do universo, mas igualmente interessante e instigante como todos os seres humanos e personagens de ficção: cheias da energia, de uma paixão avassaladora; e a você, cabe em seus termos odiá-los ou amá-los.

2 comentários para “Tão real quanto a ficção

  1. Eu meio que comecei a escrever algo sobre isso semana passada para a próxima coluna. Sobre como a gente identifica tantas pessoas e a nós mesmos dentro dos livros e tudo mais. E como isso pode ajudar em alguma coisa – ou não. Acabou com minha ideia, shit.

Deixe uma resposta para Felippe Cordeiro Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.