Por um prêmio literário que empolgue

em 21 de março de 2013

Grana, sucesso de público e prestígio. É basicamente isso o que está por trás dos grandes prêmios literários ao redor do mundo. Normalmente, há um combo: além do cara ganhar uma barbada ao ser laureado com o Nobel, este também dá um selinho de aprovação à obra do cidadão (quando você é um chinês desconhecido ou escreve em uma língua incomum, o selinho é um baita incentivo para que sua obra seja traduzida no Brasil, por exemplo). O Goncourt, na França, além de dar status ao autor que o recebe, também ajuda o livro a vender umas 400.000 cópias. 400.000 exemplares! Vocês têm noção do que esse número significa, ainda mais em um país cujas capas de livros são medonhas?

Eu me interesso bastante por um prêmio que, aparentemente, dá apenas prestígio ao seu ganhador – mais ou menos como qualquer um dos prêmios literários brasileiros, que não costumam agraciar o ganhador com rios de dinheiro nem aumentam o interesse do público leitor por uma obra. Parte do que torna a premiação de que falo tão especial é o número de acertos que há entre os seus finalistas: é praticamente certo que os ganhadores do Pulitzer, do Man Booker Prize e de outros prêmios importantes estarão entre os títulos selecionados pelo júri do Tournament of Books (o nome completo é The Morning News Tournament of Books; a abreviação, que usaremos a partir de agora, é ToB).

Outro fator essencial para o sucesso do ToB é a transparência. Os juízes analisam o embate entre dois livros (há um texto público em que eles fazem a comparação) e declaram um vencedor para a partida. Além disso, dois comentaristas do site discutem longamente a escolha do juiz, logo abaixo da resenha e logo acima dos comentários do público, o que deixa tudo mais… televisivo. São 16 livros que se enfrentam aos pares (este ano, notei que eram 18 inicialmente e que 3 disputaram uma partida prévia por uma das vagas da primeira rodada) antes de chegarem à grande final, em que todos os juízes anteriores decidirão qual foi o melhor livro do ano. Ah, antes que eu me esqueça: os 2 finalistas só são decididos após a rodada zumbi, uma espécie de repescagem: isto é, os 2 livros preferidos pelos leitores (uma enquete é feita antes dos jogos começarem) que tiverem sido eliminados no mata-mata ganham o direito de destruírem suas lápides e correrem atrás dos miolos daqueles que ainda não tiveram de enfrentar a aniquilação final. (Ok, já deu: prometo nunca escrever um livro de terror.)

Você pode torcer pelo seu livro favorito – com vuvuzelas, quiçá. Ou reclamar dos que ficaram de fora: fiquei chateado por Michael Chabon, Zadie Smith, Edmund White e Junot Díaz. Ou se surpreender com a escolha do Chris Ware, com sua obra de arte Building Stories, que não parece se encaixar muito bem em termos como “hq” ou “graphic novel” – a obra já passou da primeira fase do ToB. Algumas livrarias, inclusive, acompanham os jogos e dão destaque aos livros participantes. E como é nelas que os livros são julgados pela primeira vez, por que não julgar a qualidade das capas americanas e inglesas?

Ainda que sejam poucos os livros já traduzidos para o português quando as partidas têm início, este ano podemos encontrar 3 dos 16 em nossas livrarias. A culpa é das estrelas (The Fault in Our Stars), de John Green, e Garota Exemplar (Gone Girl), de Gillian Flynn, já saíram pela Intrínseca – ambos fizeram bonito na primeira rodada e algo me diz que, se o livro de Green for eliminado antes da final, ele é o mais forte candidato a ressurgir das cinzas na rodada zumbi (editando: na segunda-feira, 19/03/2013, A culpa é das estrelas perdeu nas quartas de final; mas, hey, pelo menos os comentaristas oficiais concordam comigo: ele é forte candidato para a zombie round! “I’ve noted this phenomenon in past tourneys with other books and authors, but John Green doesn’t just have readers, he has fans.”). HHhH, de Laurent Binet, foi lançado ano passado pela Companhia das Letras – e perdeu na primeira rodada para Bring Up the Bodies, de Hilary Mantel, romance vencedor do Man Booker Prize e que sairá pela editora Record. Outro romance que está nos planos da Companhia das Letras para 2013 é Where’d You Go Bernadette, de Maria Semple, que também já foi eliminado.

Se poucos foram traduzidos antes do resultado final, a matemática se inverte no que diz respeito aos vencedores: como bem aponta o blog Casmurros (outro entusiasta do ToB), 6 dos 8 ganhadores já desembarcaram no país – além disso, algumas pessoas divulgaram no Twitter que a Companhia das Letras iria lançar Cloud Atlas, de David Mitchell, por aqui, o que deixaria só The Sisters Brothers, de Patrick DeWitt, ainda sem previsão – li até a metade deste por enquanto e ainda não sei o que as editoras brasileiras estão esperando para trazê-lo (em suma: é bem legal).

No Brasil, temos a Copa de Literatura Brasileira e o Gauchão de Literatura. Ambos estão parados há algum tempo. Uma pena. Como não podemos torcer pelos livros, resta-nos torcer pela volta dos torneios.

22 comentários para “Por um prêmio literário que empolgue

    • Eu gosto de algumas também, Dan, do estilo que elas seguem. Mas outras, muitas, parecem meio aleatórias. Tipo “coloque uma obra de arte qualquer no cantinho e pronto”. rs Enfim, essa é uma pira mais da Bensimon do que minha mesmo. A favor do posicionamento dela, veja isso: http://www.renaud-bray.com/ImagesEditeurs/PG/1356/1356363-gf.jpg

      Mas, sim, tem capas medonhas em tudo quanto é país. Acho que os EUA ainda levam vantagem pela quantidade de livros lançados por lá: grande parte deles são feios que dói. rs

  1. Confesso que vim, correndo, ler o trequinho por causa da imagem. Calma, Tuca, eu vim ler, agora, por causa da imagem, mas eu leria, de qualquer forma, ok? Eu posso até demorar para ler as postagens, mas leio, sempre leio.

    Eu adorei a sua estratégia para falar da disputa (se você escrevesse um livro de terror, teria uma leitora!), e imaginei os livros em uma rinha de Galo (eu sei, o horror, o horror!). Mas o fato é que… esqueci o que eu queria dizer. Mas era alguma coisa boa, acho.

    • Hahahahaha. Brigado por vir ler, Cléo! (É você a guria/moça/mulher que curte uma pira feminista?) A imagem é a logo do torneio. ^^ Acho que pode ter a ver com rinha de galos, mas tem mais a ver com o nome do jornal ser ?The Morning News, tipo o galo da madrugada. rs

      O horror, o horror. Já sofri escrevendo um parágrafo, imagina descrever a ação no decorrer de um romance. rs Mas, hey, se cogitar algum dia, lembrar-me-ei das tuas palavras. (Não preste atenção na mesóclise maldita.)

      Já que se esqueceu do que ia falar (bah, tenho certeza de que era coisa boa), vem torcer comigo pela volta da Copa de Literatura Brasileira! (Queria muito ser um juiz daquilo). =D

      • hahaha, sim, Tuca, eu sou a moça-mulher feminista. Lá no Meia Palavra, eu era a Valentina. Sim, sim, sei que é a logo do torneio e que, certamente, tem mais a ver com The Morning News, só fiz a brincadeirinha porque eu sou torcedora do Atlético Mineiro, o Galo mais lindo do mundo.

        Opa, já tô torcendo pela volta da Copa de Literatura (e vou começar a campanha: TUCA JUIZ!). \o/

  2. De fato, Tertuliano, cadê a Copa de Literatura? Que que esses preguiçosos – olha quem fala! – estão esperando pra retomá-la?

    Gostei do post, não conhecia esse “torneio”. Acho que vou começar a acompanhar mais o assunto. 🙂

  3. Entra na torcida comigo, Bruce. Vai que esse ano rola. Estou querendo usar as vuvuzelas que comprei pro ano passado. ^^

    Vale muito a pena. Gosto muito do sistema que eles utilizam. Queria que a Copa aqui fosse igualzinha. ^^

  4. Muito legal, Tuca! Finalmente entendi o que vocês tanto comentavam no Twitter sobre esse ToB. E empolguei agora também, vou acompanhar. =D

    • Eu vi que você curtiu a página deles no fêice, hihihi. Eu estou gostando de acompanhar porque um dos que li já garantiu lugar na semi-final, a saber “Garota Exemplar” (algo me diz que, se ele perder lá, ele retorna na rodada zumbi). E porque “A culpa é das estrelas” volta na rodada zumbi, com certeza. ^^

      O legal desse tipo de competição é ter aquele mês pra tentar ler tudo antes. E assim decidir favoritos, etc. Na Copa de Literatura que acompanhei (torçamos os dedos pra que ela volte este ano), eles publicaram a lista de competidores um mês antes das partidas começarem. Aí o pai gosta! (Se voltar e for nos mesmos moldes de 2011, é provável que tenhamos metade composta por livros publicados em 2011 e a outra metade com livros de 2012. Tenho que recuperar o tempo perdido é com 2012… quase não li autores brasileiros que lançaram em 2012… em 2012 mesmo. Falha nossa, produção!)

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