Crítica: A Bela Que Dorme

em 12 de abril de 2013

Informações

  • Título: A Bela Que Dorme (Bella Addormentata)
  • Diretor: Marco Bellocchio
  • Roteiro: Marco Bellocchio, Veronica Raimo, Stefano Rulli
  • País: Itália/França
  • Ano: 2012
  • Elenco: Isabelle Huppert, Toni Servillo, Alba Rohrwacher

Marco Bellocchio é um dos nomes mais proeminentes do cinema italiano atual,  seus filmes olham para a tradição do neorrealismo e têm a Itália como mais do que cenário: o país é tema da maior parte dos filmes do diretor, tão protagonista quanto seus personagens.

Em A Bela Que Dorme, Bellocchio trata da delicada relação entre religião e sociedade condensada na discussão sobre eutanásia. O filme parte do momento em que o senado italiano deve decidir sobre o desligamento dos aparelhos de Eluana Englaro, uma jovem que passou 17 anos em estado vegetativo, e costura diversas histórias que apresentam diferentes facetas do tema.

O filme começa apresentando Uliano, um senador descrente que se vê preso entre o voto que exige seu partido, a lembrança da mulher que lhe pediu para ser “desligada” e a filha religiosa que ainda o culpa pela morte da mãe. Em oposição a esse núcleo está a personagem de Isabelle Huppert, católica fervorosa que se recusa a “matar” a própria filha, em coma há anos, e seu filho que não admite que a mãe abandone a vida e a carreira por uma semimorta.

Com essas histórias, Bellocchio escapa a diversos clichês: a jovem Maria está muito mais conectada à Igreja católica e a valores tradicionais do que seu pai e a personagem de Huppert (chamada apenas de Divina Madre) está longe do obscurantismo comumente associado a pessoas tão religiosas. Seus personagens são redondos, multidimensionais e sua relação com a eutanásia vai além da pura teoria e reside aí a força do filme.

A Bela que Dorme é um filme sobre eutanásia, mas não é uma exposição sobre o tema, é, ao contrário, uma investigação da faceta humana do dilema, da forma como diferentes pessoas se relacionam com a morte e a vida. Bellocchio não julga seus personagens ou a forma como a Igreja está embrenhada no tecido da sociedade italiana, mas procura encontrar o ponto delicado em que a tradição e a modernidade se encontram com as histórias individuais.

A fotografia de claros e escuros muito marcados reforça as oposições em questão, assim como a direção de arte e o figurino, que veste os personagens basicamente em preto e branco. Por outro lado, a composição dos planos e a naturalidade das atuações é quase documental e lembra o trabalho com não-atores. O contraste entre essas opções ajuda a formar o panorama e os entrelaçamentos entre posições teoricamente extremas e a zona de cinza da vida real.

A Bela que Dorme é um filme que olha para a história do cinema italiano, para a Itália e para uma questão profunda do mundo moderno, mas que ao mesmo tempo escapa à teoria e aos estereótipos. É o melhor filme de Bellocchio até agora e aquele em que ele consegue articular melhor os temas de seu país com questões universais.

Um comentário para “Crítica: A Bela Que Dorme

  1. “Bella Adormentata”, que belo título!
    E Isabella Huppert, que em breve ganhará um post aqui no Posfacio, que atriz grandiosa!
    Atuando em diversas linguas, cantando e dançando num filme de Ozon, sofrendo e sangrando num filme de Haneke, conquistou meu coração e hoje é uma das minhas atrizes prediletas.
    A Bela que Dorme ainda não chegou aqui no Rio, mas assim que chega irei prestigia-lo.

    Abraços…

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