Crítica: ‘O Grande Gatsby’, e o exagero de Baz Luhrmann

em 7 de junho de 2013

Informações

  • Título: O Grande Gatsby (The Great Gatsby)
  • Diretor: Baz Luhrmann
  • Roteiro: Baz Luhrmann
  • País: EUA
  • Ano: 2013
  • Elenco: Carey Mulligan, Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Joel Edgerton, Jason Clarke, Gemma Ward, Isla Fisher

O Grande Gatsby não é apenas um dos romances mais famosos da história, um clássico da literatura mundial, Gatsby é quase sinônimo do “sonho americano”, o homem misterioso que se reinventa representa uma promessa, uma ideia e, sobretudo, sua falha. No entanto, é exatamente esse simbolismo que insiste em escapar às adaptações hollywoodianas do romance.

A adaptação de Baz Luhrmann é a terceira e difere radicalmente de sua predecessora, o filme de 1974 que estrelava Robert Redford e Mia Farrow. Se o diretor desta versão, Jack Clayton, peca pela frieza, Luhrmann erra pelo oposto, seu filme é excessivo, pesado e nada, nada sutil. Exatamente o que se espera de um filme de Baz Luhrmann.

Em termos de narrativa ambos os filmes são fiéis e não há qualquer dificuldade na adaptação do romance de mais ou menos 120 páginas: Nick Carraway é o narrador, um jovem recém saído de uma universidade cara, com um emprego em Manhattan e um pequeno chalé em West Egg, reduto de novos ricos em Long Island. Seu vizinho, Jay Gatsby, é um homem misterioso que dá festas homéricas com o único intuito de reencontrar Daisy Buchanan, prima de Nick, que ele amou e perdeu anos atrás. Daisy é casada com o milionário Tom Buchanan, e vive em East Egg, do lado oposto da baía, onde está o dinheiro tradicional. O que se perde em ambas as adaptações não está na trama em si, mas no subtexto sutil e cheio de nuances que Fitzgerald dá ao que é aparentemente uma história de amor.

Gatsby não deseja Daisy por ela, mas pelo que representa: o dinheiro, o poder e o mundo aparentemente encantado que essas coisas constroem. Mas Daisy, assim como Gatsby, é só uma imagem vazia e falta a Baz Luhrman a coragem, ou vontade, de escancarar isso.

Luhrmann constrói muito bem a imagem: os loucos anos 20, as festas de Gatsby, a Nova Iorque frenética. A trilha sonora organizada por Jay-Z acerta com precisão (e é talvez a melhor coisa do filme): a estética de opulência do Hip Hop e as batidas industriais casam perfeitamente com a história sendo contada e adicionam um toque de ironia. Mas essa é a única ironia do filme.

O filme não descontrói nenhuma das imagens que cria, nem o amor de Gatsby por Daisy, nem a possibilidade de se reinventar nem, o grande tema do romance de Fitzgerald, o tal “sonho americano”. O que o cineasta constrói aqui é uma tragédia, uma história de amor que dá errado porque o desejo de Gatsby é demais para Daisy. É quase um remake de Romeu + Julieta, mas não era essa a história que se tinha na mão.

Além de transformar o filme em um ode à esperança e à superação, Luhrmann retira qualquer subtexto e sutileza, tudo é muito bem explicado pela narração em off de Nick Carraway, todos os sentimentos e pensamentos dos personagens. A mistura que Gatsby faz entre Daisy e o dinheiro que deseja, o choro de Daisy frente às “lindas camisas”, tudo isso é destrinchado para o espectador, não fica nenhum esforço de entendimento.

Por outro lado, os atores dão a seus personagens as nuances que o diretor tirou e se tornam, junto com trilha sonora, o ponto alto do filme. Daisy de Carey Mulligan é frágil e vulnerável ao mesmo tempo em que é falsa e sedutora, seus gestos e sua voz falha constroem perfeitamente o contraste entre imagem e interior de que é feita sua personagem. Leonardo DiCaprio já esteve melhor (inclusive no recente Django Livre), mas há mérito na dureza de seu Gatsby, no esforço de conter um nervosismo e no controle de quem é, no fundo, uma fraude. Toby Maguire está mais morno, seu Nick servindo quase apenas como narrador didático do que testemunha, com pouco da ambiguidade de quem está ao mesmo tempo dentro e fora do que vê.

Mesmo descontando os problemas de adaptação, O Grande Gatsby ainda é um filme problemático em si mesmo: há cortes excessivos e uma edição rápida demais para uma história tão baseada em diálogos, a cara de grande videoclipe que funcionou em Moulin Rouge agora incomoda. E em seu esforço de didatismo Luhrmann usa recursos feios e clichês, como fazer letras aparecerem na tela quando um dos personagens escreve uma carta.

No entanto, apesar de tudo isso, O Grande Gatsby não é um filme de todo ruim. Ele é esteticamente interessante e há algo do espírito do romance, algo conturbado e frenético, que Luhrmann captura muito melhor do que a adaptação ascética (e criticamente mais aclamada) de 74. A história e os personagens possuem força, ainda que o filme seja pouco mais que um amontoado de clichês bonitos.

5 comentários para “Crítica: ‘O Grande Gatsby’, e o exagero de Baz Luhrmann

  1. Finalmente, aos meus 30 anos (mesma do Nick), estou lendo O Grande Gatsby. Com certeza esse romance é um “pequeno notável”, Fitzgerald, através da voz de Nick Carraway, consegue delinear certas nuances que só mesmo um grande escritor é capaz. Os gestos e palavras mais banais têm uma grande importância narrativa. “Essa não é uma história de amor”, é como se Nick dissesse para nós. Acredito que, por causa dessas nuances, mais adequado seria adaptar o romance para uma minissérie. A minissérie teria o tempo adequado para trabalhar o subtexto do narrador.

Deixe uma resposta para Felippe Cordeiro Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.