Do que eu falo quando eu falo de Clarice Falcão

em 5 de setembro de 2013

Dia desses, me perguntaram o que eu via na Clarice Falcão. Sinceramente, não entendi muito bem a pergunta. Se me tivessem perguntado o que eu via em Garota exemplar, por exemplo, eu retrucaria perguntando se eles realmente estavam a fim de spoilers – para quem não sabe, fugi deles na minha resenha como o Cascão fugiria de um dia de chuva.

Minha resposta envolve fazer uma pequena playlist no final do texto. Uma playlist que serviria muito bem para Garota exemplar. Portanto, por mais que eu não cite explicitamente nenhuma razão para esta ser uma boa playlist para Garota exemplar, admito que, se você for esperto, essa listinha pode dar boas dicas (isto é, spoilers) sobre um dos romances que mais curti ler este ano.

Qualquer coisa, é só parar de ler antes de a lista começar. Fica o aviso. ^^

*

Quando me perguntaram o que eu via na moça em questão, fizeram uma comparação com Mallu Magalhães – algo sobre ela não saber tocar mais do que duas notas, só usar um violão-e-nada-mais e ter uma voz fraquinha, utilizada em músicas que meio que pareciam ser de ninar. 1 Outra pessoa reclamou da falta de camadas no cabelo dela – disse que ela podia se produzir mais e arrumar/cortar o cabelo, que não tinha razão pra ficar tão acabadinha.

Quanto aos últimos comentários, ainda que tenha doído ouvi-los (acho a Clarice bonita de qualquer jeito), não tenho muito a responder. Quanto à comparação com as características da Mallu Magalhães, também não tenho muito a acrescentar. Tenho um pouco de preguiça da Mallu, que parece chatinha, mas uma preguiça sem fundamentos – como toda boa preguiça. Não me lembro de ter ouvido nada além da música na propaganda da Vivo e de um pedaço da música em que ela supostamente mostrava que estava mais madura e que agora usava batom vermelho. Vai que um dia eu a ouço de verdade e acabo gostando?

É legal gostar das coisas sem precisar de explicação, mas essa “tentativa de encontrar razões” não deixa de ser um interessante exercício intelectual. Vamos a ela, então.

Primeiramente, gosto muito dos pais da Clarice Falcão: antes de ouvir falar dela, já tinha assistido diversas vezes ao fabuloso A máquina – o amor é o combustível, dirigido por João Falcão, e me emocionado bastante com Clandestinos, seriado idealizado e também dirigido por ele; além disso, sou totalmente besta pelos livros da Adriana Falcão, de quem já falei no desafio “Autoras de literatura contemporânea brasileira”A máquina e Luna Clara & Apolo Onze são verdadeiras paixões pessoais.

Não foi por nepotismo, no entanto, que comecei a gostar dela. Ainda que a tivesse visto no filme Fica comigo esta noite, também de João Falcão, só conheci mesmo a Clarice quando o vídeo “Uma canção sobre o amor, ah, o amor” se tornou o assunto da semana (só depois descobri que a música cantada, da qual falarei mais adiante, tinha o título “Oitavo andar”). Gostaria de tê-la conhecido em Recife, cidade em que nasceu dois anos e meio depois de mim, mas, deixa eu te dizer: o mundo não é perfeito.

Desde o vídeo, tento ver/ouvir/ acompanhar tudo dela que encontro. Adorei vê-la no Jô Soares. Os vídeos do canal Porta dos Fundos em que ela aparece estão entre os meus favoritos. Além disso, não podia concordar mais com algumas ideias da Clarice; não consigo, por exemplo, apagar de Bernadette 2 o perfil dela com o Gregório Duvivier que saiu na extinta Bravo!:

Pega supermal aparentar ser ingênuo, e criou-se essa bancada do Twitter, do Facebook, de comentadores de sites, de gente que não produz nada e só ridiculariza. Esses “haters” são juízes. Fico agoniada com a internet porque às vezes você percebe uma energia ruim em coisas que lê.

Mal posso esperar para vê-la no próximo filme do Matheus Souza. O título longo, a boa propaganda do filme anterior desse diretor e a demora do novo chegar aos cinemas (o trailer divulgado no YouTube está prestes a fazer aniversário) têm a sua parcela de culpa em minha ansiedade. Por outro lado, eu também não faço a menor ideia de qual seja a trama de Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida. Só sei que passarei bons minutos (60? 90? 120? 157?) na companhia de guria que talvez não seja mesmo uma mentirosa compulsiva, mas apenas muito boa nessa coisa de mentir – quem não adora fazer algo em que se é realmente bom? Uma guria que, quer saber?, vai dançar como louca no meio de um parque, ao som de uma canção menos conhecida d’A Banda Mais Bonita da Cidade.

Eu gostaria de falar dos olhos dela, de como ela tem aquilo que chamo de “um nariz com personalidade” e de como acho bonito o seu jeito “desengonçado-sexy”. 3 Mas, temo, o texto ia descambar para o lado musificador do jornalismo, aquele que faz questão de não importar se você é uma atleta olímpica ou a Lila Azam Zanganeh: ele só se importa se você pode ser chamada de “musa”. E o que não falta é jornalista por aí para escrever esse tipo de nota. Prossigamos.

Uma coisa de que eu já gostava na obra de seus pais era o gosto pela fala cotidiana, pelo português simples das pessoas que sabem conversar e são boas de papo e são boas de contar uma boa história. 4 E isso eu também encontro na Clarice. Ela também gosta de contar uma boa história – suas canções não podiam ser mais “narrativas”.

Hoje em dia não é assim – ela já tem uns videoclipes bem elaborados, como os de “Oitavo andar” e “Monomania” –, mas, no começo, seus vídeos tinham apenas ela e um violão em cima de um sofá. Isso dava certa aura de intimidade, como se fosse só uma besteirinha que ela tivesse fazendo na sala de estar, num dia que ela chamou a gente pra comer pipoca e ver 500 dias com ela. As músicas bem curtas, os acordes repetitivos, as rimas facinhas: tudo parece ter sido feito para a gente decorar fácil e se pegar cantarolando por aí. 5

claricesofá

“Fofa” seria um bom adjetivo para a música dela, não fossem justamente as letras. Elas são, em geral, românticas, mas também são cômicas, exageradas e levemente psicóticas. Se você não presta atenção nelas, não vê o que tá acontecendo (mais ou menos, como ocorre em A máquina de Goldberg). A voz levinha e meio frágil denuncia que algo está prestes a se romper ou que a moça – ou melhor, o eu lírico da canção – já perdeu um parafuso. A comicidade vêm do exagero e do distanciamento do público das posições extremadas descritas nas músicas – ainda que estas, creio, potencializem o aspecto “romântico”, especialmente naqueles momentos em que a separação parece a pior coisa que poderia ocorrer. 6 Também há algo de cômico, por exemplo, no estranhamento de ouvir uma canção que, melodicamente, aparenta ser “fofa”, que trata de uma relação stalker das brabas. 7 Chamo isso de “psycho-fofo” ou “romântico-borderline” e é algo de que gosto.

Melhor do que falar assim abstratamente das músicas de Clarice, prefiro passar à playlist. Gostaria de falar um pouco sobre cada uma delas – eu gosto muito de quase todas – mas percebi que o texto já está longo demais.

*

Playlist Psycho-Fofa!


Uma canção sobre o amor, ah, o amor

A separação provoca um suicídio-homicídio, com direito a ficar “de conchinha no meio-fio” e a uma visita ao necrotério, “cada um feito um picolé, com a mesma etiqueta no pé”. Pelo menos, o final aponta para outra alternativa: “comer uma torta inteira de amora no jantar”.


A gente voltou

Essa canção demonstra o egocentrismo típico dos casais muito apaixonados (ou adolescentes). Eles voltam e nada mais importa; eles se separam e o mundo acaba. O arranjo feito para o álbum “Monomania”, com a tuba (ou o que acho que seja uma tuba), dá um toque especial à loucura do refrão.


Macaé

A respeito desta, ver nota de rodapé 6.


Keystar (a partir de 2:50)

A banda Munchausen By Proxy, inventada para o filme Sim, senhor, é liderada pela personagem de Zooey Deschanel. Nessa música, ela conta a história de um cara que fez mal a alguém. O problema (para ele) é que há um novo xerife na cidade – ela –, que pede a todos que aplaudam quando o pescoço dele estalar com o enforcamento.


Uh-huh (até 3:42)

Uma relação fadada ao fim termina com uma vingança perfeita para o mundo contemporâneo: “Hey, tu lembra daquele meu amigo Ian? Ele é um hacker. Ele me ajudou a deletar o seu MySpace. E o MySpace da tua banda. E o teu perfil do Facebook. Boa volta às redes sociais, imbecil.”


Why did you let me stay here?

Continuamos com Zooey, dessa vez na dupla She & Him. Aqui as comparações com Clarice Falcão são mais fáceis. Quer algo mais psycho-fofo que esse clipe? Particularmente, prefiro o clipe alternativo, feito para o filme 500 dias com ela.


So what?

Vamos de P!nk agora. Ela fala que está bem depois do término – “I’m all right, I’m just fine” –, mas algo no clipe destoa de todo esse discurso. Fáceis comparações com “Eu esqueci você”: “E se eu chegar a te obrigar a me beijar, assume que eu tô drogada”.


Please, don’t leave me

Só assista ao clipe. No words are necessary. Lembra um pouco o que fizeram no clipe de “Oitavo andar”.


Bônus TrackMrs. Ottis regrets

Mrs. Otis lamenta não poder comparecer ao almoço hoje. Isso porque deu conta do traidor filho da mãe numa época ainda mais misógina que a nossa. =/

  1. Ainda acho que tinha mais coisa nessa lista, mas não lembro.
  2. Nome que dei ao meu kindle
  3. Sim, sou cheio dessas expressões esquisitas.
  4. Peço encarecidamente ao editor que não apague todas essas conjunções aditivas e adjetivos repetidos. Serve para provar um argumento: para chegar a esse tipo de linguagem, não é só chegar e escrever tudo que passa pela cabeça. O trabalho é árduo, meu caro.
  5. O Gui, que agora integra a equipe deste site, teve de me aguentar cantando “Monomania” durante toda a viagem até Paraty, no ano passado. Já na Flip, toda vez que eu começava com “Já te fiz muita canção, são quatro ou cinco ou seis ou mais” ele pedia para eu parar o quanto antes. Ou fugia. Triste: “Eu queria tanto que você não fugisse de mim. Mas, se fosse eu, eu fugia.”
  6. O “distanciamento ” se dá na medida em que o ouvinte vê que o eu-lírico da canção ultrapassou o “limite do razoável”: vês, eu não cheguei a esse nível de perseguição. Por outro lado, o potencial “romântico” de uma canção como “Macaé” se revela na falta de distinção no tratamento do que seria ou não sensato a se fazer quando se gosta de alguém. Para alguns, o limite estaria na impressão do mapa astral; para outros, ele estaria na invasão do computador. Sei que há os que se identificam com a parte do cianureto (“essa moça entende a gente, né amor?”, fala uma senhora para o cadáver que ouve música ao lado dela), mas não sei se eles acham a música cômica.
  7. Esse estranhamento se repete, por exemplo, no vídeo “Versão brasileira” (um amigo meu gosta de rever o momento 1:25, em que ela diz “Fala caralho”) e no “Essa é pra você”, quando ela canta “Eu dou pro porteiro… e nem sempre é pro do nosso prédio… que às vezes ele tá em horário de almoço”.

10 comentários para “Do que eu falo quando eu falo de Clarice Falcão

  1. “Outra pessoa reclamou da falta de camadas no cabelo dela – disse que ela podia se produzir mais e arrumar/cortar o cabelo, que não tinha razão pra ficar tão acabadinha.” LOL

    • Sei lá, o Gui é um desses que me fazem achar que ninguém além de mim gosta da Clarice. Se soubesse que você curtia também, chamava pra cantar junto. ^^

  2. Sempre achei ela uma fofura pura, nos vídeos do porta dos fundos e na propaganda do pão de açúcar, mas nunca tinha dado muito atenção à carreira musical da moça. Sei lá, acho que por besteira mesmo. Agora, depois de ler esse montão sobre ela, já tô até decorando Macaé 🙂

    • Eu tava falando apaixonado dela pra minha tia favorita, quando ela me disse “Não é ela que faz a propaganda do papelão do Pão de Açúcar?”. Como dificilmente vejo tv, nem sabia disso!! Vi a propaganda respectiva e adorei. Também curti essa aqui http://www.youtube.com/watch?v=oqq0bCNVGxc (bobinha, mas bonitinha; mas gosto mais dela na vibe psycho-fofa).

  3. Adorei! As músicas, tudo a ver com o livro. Você tem razão dizendo que é um dos melhores livros de romance que leu em 2013. Meu livro favorito é Garota Exemplar. É um livro psicótico.

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