Crítica: ‘Bling Ring’, e o excesso de consciência de Sofia Coppola

em 23 de setembro de 2013

Informações

  • Título: Bling Ring - A Gangue de Hollywood (Bling Ring)
  • Diretor: Sofia Coppola
  • Roteiro: Sofia Coppola
  • País: EUA
  • Ano: 2013
  • Elenco: Katie Chang como Rebecca(Rachel Lee), Emma Watson como Nicki(Alexis Neiers), Israel Broussard como Marc(Nick Prugo), Taissa Farmiga como Sam(Courtney Ames), Claire Julien como Chloe(Diana Tamayo), Carlos Miranda como Rob, Leslie Mann como Laurie, Erin Daniels como Shannon, Gavin Rossdale como Ricky, Stacy Edwards como Debbie, Paris Hilton como Ela mesma, Nina Siemaszko como Detetive Vegas

Sofia Coppola é uma diretora de temas muito bem definidos: o tédio, a solidão, o vazio insuportável daqueles que têm tudo. Seus três primeiros filmes podem quase ser considerados uma “trilogia” sobre jovens mulheres em momentos de passagem, focando-se na melancolia, no tédio e no desejo (ou ausência dele), mas os últimos dois, ainda que não saiam do tema, mudam o foco: Coppola sai do universo íntimo e feminino e tenta olhar com acidez para o universo do luxo e do consumo.

A princípio ninguém melhor que ela para isso: Sofia pode fazer a crítica de dentro, ela cresceu em hotéis de luxo e Marc Jacobs é seu melhor amigo. Como alguém que cresceu em um universo “deslumbrante”, ela parece imune a qualquer deslumbramento, perfeitamente consciente do vazio das imagens projetadas por ele. Mas esse excesso de consciência, aliado ao tom condescendente, é um dos maiores problemas de Bling Ring.

O filme é baseado em um artigo da Vanity Fair, “Os Suspeitos Usavam Louboutin”, e guarda de seu original não só a história, mas o tom de perfil jornalístico. A diretora busca radiografar seus personagens, entender o que os levou a invadir casas de famosos e roubar seus pertences e a resposta é o inevitável clichê: estavam deslumbrados. Mas para alguém a quem encontrar Kirsten Dunst na balada é algo perfeitamente normal, talvez seja difícil entender o tipo de poder que uma celebridade pode exercer, e a impressão é que a diretora se afasta de seus personagens, observa-os por uma lente minunciosa e moralista que não os julga por serem ladrões, mas por se sentirem atraídos por celebridades.

O maior trunfo de Sofia como diretora estreante era justamente a sua sensibilidade. Em As Virgens Suicidas e Encontros e Desencontros, pouco se diz e muito se entende. Provavelmente porque falava de forma muito escancarada de si mesma, Sofia tratava seus personagens como seres a serem acolhidos, sua câmera era sempre suave, íntima, aproximava-se como uma amiga que evita invadir. Sua maior realização como cineasta talvez seja os minutos iniciais de Encontros e Desencontros, em que Scarlett Johansson fuma sentada na janela, olhando Tóquio lá embaixo e, sem que uma palavra seja dita, toda a personagem é apresentada ao espectador.

Nada pode ser mais distante dessa cena do que Bling Ring. A câmera distante, fria e julgadora é auxiliada pelos cortes muito secos, a montagem que tenta emular uma “estética de videoclipe” e falha, como se quase houvesse mérito em se falhar em algo que já é tão clichê.

Se há um talento da cineasta que permanece nesse filme é a capacidade de causar distanciamento pela trilha sonora. Em Maria Antonieta, o contraste entre o filme de época e a trilha sonora anos 80 acentuava o isolamento da protagonista e colocava o espectador na posição de quem assiste a um sofrimento de fora, ao invés de sofrer com o retratado, e essa posição é em si bastante sofrida. Mas nesse último filme o distanciamento é inútil, uma vez que o público já está distanciado dos personagens pelo próprio olho de Coppola, que é incapaz de se identificar.

A diretora trata seus protagonistas quase como animais raros em um museu, objetos de investigação que não devem causar qualquer sentimento em quem os olha, pois isso prejudicaria o estudo. O filme é tão um estudo de caso, que Marc (único homem membro da gangue e pelos olhos de quem “vemos” o filme) chega a afirmar que sua história é uma prova do fascínio mórbido da sociedade americana pelo modelo Bonny & Clyde. É um excesso de didatismo e um posicionamento tão claro que torna-se impossível acreditar que Sofia quisesse apenas contar aquela história, ou que ela a toque de qualquer maneira.

Outro ponto forte, mas que também acaba de forma mais ou menos inútil, é a ironia da diretora. Um senso de humor ácido e pronto a depreciar os outros já deu as caras em Encontros e Desencontros e nesse filme ele parece estar em casa. Estaria, se viesse na forma do julgamento sutil e obviamente enviesado de Charlotte, mas aqui a ponta de crueldade do humor de Coppola soa mais uma vez moralista, desqualifica os sujeitos de sua história e ridiculariza o próprio tema do filme.

Bling Ring é o filme mais distante da biografia, e da pessoa, de Sofia Coppola e parece me provar que seu campo é realmente a confissão e a autobiografia. O filme é aritificial, tão artificial quanto  a atuação de Emma Watson, que não consigo me decidir se é realmente ruim, ou propositalmente artificial, e em ambos os casos, acho que não funciona. Na tentativa de se aproximar da estética que critica, o filme acaba com problemas de montagem e figurinos maravilhosos. E uma diretora antes tão capaz de mergulhar no interior de seus personagens cria um exército de adolescentes sem qualquer vida interior.

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