Guerra que vivi, mas não vi

em 4 de outubro de 2013

Acho que estar em um país em guerra não é algo que muita gente planeje para as férias, ou para vida. Se me perguntassem antes, eu nunca diria que aos dezessete anos já teria conhecido um abrigo antiaéreo e obedecido toque de recolher, mas aconteceu de, em julho de 2006, eu estar em Israel quando o país entrou em guerra com o Líbano.

Um pouco de contexto: meu tio e primos moram lá, em um kibutz perto de Nazaré, no norte do país, a umas 2 ou 3 horas da fronteira com o Líbano. Meses antes um amigo antigo também tinha se mudado para Tel Aviv, e eu estava lá visitando todos eles. No dia 12 de julho de 2006, o Hezbollah, um grupo paramilitar do Líbano, sequestrou dois soldados israelenses que tinham base na fronteira e se seguiram 34 dias de guerra. Os detalhes a internet pode te contar.

O cotidiano de se estar em um país como Israel quando ele entra em guerra é bastante surreal. Por um lado, as redes de televisão não param de falar nisso. Haifa, a cidade grande mais perto de onde eu estava e que frequentávamos para jantares e cinema, estava completamente interditada, com as pessoas fora do trabalho e o comércio fechado. Havia um clima de tensão no ar a ponto da minha prima, então com doze anos, ter feito um “kit bunker” que consistia em sucrilhos, algumas revistas e uma muda de roupa. Acho incrível o senso de prevenção de uma criança de doze anos, esses sucrilhos foram bem úteis, eventualmente. Por outro lado, a vida segue relativamente normal, há apenas duas horas da fronteira e uma hora de Haifa, nós trabalhávamos, comíamos fora, saíamos, as crianças tinham aula e a vida seguia apenas um pouco mais alerta.

Algumas vezes ouvimos as sirenes que indicavam que não deveríamos sair de casa e em duas ocasiões foi preciso entrar no abrigo antiaéreo. Na primeira delas nós íamos almoçar no refeitório coletivo e acabamos lá dentro por umas duas horas, agradeci bastante aos tais sucrilhos. Mas, por incrível que pareça, as sirenes e os bunkers te dão uma sensação de segurança: alguém sabe onde e quando uma bomba vai cair, que bom.

A história de verdade começa com uma viagem para Tel Aviv, mais ao sul e, portanto, mas tranquila. Fomos eu, minha mãe, meu tio e minhas duas primas, eles voltariam de carro para casa e eu iria passar um dia em Jerusalém com o tal amigo, de lá era só pegar um ônibus e voltar pra casa. Seria simples, se não fosse o meio de uma guerra.

Pegamos o ônibus em Tel Aviv, chegamos em Jerusalém e perguntamos qual era o último ônibus para alguma das cidades próximas, 9 horas da noite, ok. Fomos andar.

Já estive em alguns lugares do mundo, mas Jerusalém é minha cidade preferida. Lá eu acabei tomando chá e falando francês com um palestino de quem comprei brincos, fui a um bar em que na mesa do lado dois ortodoxos fumavam narguilé e jogavam gamão e vi a vista que mais me tirou o ar. Se você vem pela cidade nova e tudo que pode ver são prédios e de repente faz uma curva que te dá a vista do Domo da Roca, sabe o que é ficar sem ar.

Jerusalém é uma cidade linda e ao mesmo tempo uma cidade em que judeus batem a cabeça em um muro até sangrar e cristãos se autoflagelam na via dolorosa. Mas se você olha para o lado, em qualquer lugar, a qualquer momento, pode ver três camadas de construções milenares, quase como um lego da história do mundo. Também já negociei meu próprio preço no mercado, ofereceram 200 camelos, mas vendi a mim mesma por 350, mas parecia que eu não tinha autoridade para concluir o negócio.

Enfim, uma hora é preciso ir embora e já são oito da noite. Rodoviária: “então, hoje caiu uma bomba bem naquela região, em um campo cultivado, sem mortos, mas ficou sem luz e nós interrompemos as linhas de ônibus para o norte do país”. Ok, sem ônibus, vamos para Tel Aviv então, dormir na casa do meu amigo e de manhã eu volto para casa. Ônibus para Tel Avivi tem? Tem, podem ir.

Meu amigo não morava exatamente em Tel Aviv, mas na grande Tel Aviv (pensei em fazer alguma analogia com Osasco, mas deixa pra lá) e precisaríamos de outro ônibus depois de chegar na rodoviária. Tudo bem, exceto que uma bomba que deveria ter caído na cidade tinha sido desviada mais cedo e tinham interrompido a linha de ônibus urbanos. Acho que nem respondi nada, só peguei minha mochila, joguei em um banco e deitei em cima dela. O retrato da desistência era eu resolvendo dormir naquela rodoviária. Uma vantagem de Israel é que, já que as coisas às vezes explodem, ninguém mais rouba mochilas, ou mexe na menina dormindo na rodoviária. Não que eu tenha realmente dormido na rodoviária.

Existe por lá algo que se chama sheirut: é uma espécie de “alternativo”, homens com vans que fazem trajetos entre uma cidade e outra. É mais confortável que os ônibus e muita gente prefere, exceto em horários em que você precisa esperar muito tempo para que a van encha, ou soldados que podem andar de graça nos ônibus. Bom, suspeito que enquanto eu desistia, meu amigo acabou encontrando um motorista de sheirut que morava em Tiberias, no norte, e precisaria de qualquer forma passar na casa do meu tio para poder voltar. Em Tiberias, Jesus fez o milagre da multiplicação dos peixes e mais algumas coisas que agora não me lembro (porém existem igrejas nos lugares onde ele fez coisas significantes) e nesse dia o senhor do sheirut fez o milagre de me levar para casa durante a guerra.

Chegamos, por volta das duas da manhã, e ainda encontramos um porco-espinho fazendo guarda na porta de casa. Aprendi muito sobre o transporte em tempos de cólera, guardei essa história para sempre, acho que chamei aquele porco-espinho de Schopenhauer, mas ele não se dignou a ficar para o café da manhã.

Um comentário para “Guerra que vivi, mas não vi

  1. Adorei o texto. Adorei a autora dele. Adorei amar gatos e estudar Bergman. Adorei o nome do porco-espinho. Adorei adorar isto e tenho uma pessoa pra quem enviá-lo. =)

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