Crítica: ‘Praia do Futuro’

em 14 de maio de 2014

Informações

  • Título: Praia do Futuro
  • Diretor: Karim Aïnouz
  • Roteiro: Karim Aïnouz
  • País: Brasil
  • Ano: 2014
  • Elenco: Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuita Barbosa

Alguns diretores fazem de seus primeiros filmes obras tão fortes, tão cheias de intensidade e algo genuinamente inédito que, mesmo que sua técnica e linguagem se desenvolvam, nenhum filme posterior alcança o impacto da estreia. É o caso de François Truffaut, por exemplo, e é o caso de Karim Aïnouz.

Aïnouz é hoje um diretor mais maduro, dono de mais recursos visuais e um maior apuro estético, mas seus longas empalidecem perto da ousadia e da riqueza de Madame Satã. O problema disso é que se torna difícil julgar um filme de um diretor que reconhecidamente já fez melhor e sair da sala sem a sensação de que Praia do Futuro é um bom filme, mas não é um filme como Madame Satã.

É, sem dúvidas, melhor que os dois últimos trabalhos do cineasta. E, se não é mais competente, é ao menos mais forte que O Céu de Suely. É memorável, especialmente pelos enquadramentos e pela complexidade das atuações, se não é excepcional.

Praia do Futuro se divide em três capítulos, uma escolha dispensável, mas que não representa nenhum tipo de problema para a narrativa. No primeiro deles, Donato, um salva-vidas da praia do futuro, em Fortaleza, falha em resgatar um turista alemão do afogamento e acaba se envolvendo com Klemens, seu companheiro de viagem. Nos dois atos seguintes, o salva-vidas abandona sua vida no Brasil e decide ficar na Alemanha, até ser procurado pelo irmão mais novo que deixou em Fortaleza.

Aïnouz acerta ao construir seu filme todo em cima dos personagens e dos bons atores que tem em mão. Não se trata de uma história épica ou repleta de reviravoltas, mas de um raio-x daqueles três homens, de quem eles são e de como se relacionam uns com os outros. Wagner Moura é a âncora do filme e sua atuação é excelente, mas a grande surpresa é a vulnerabilidade e delicadeza de Clemens Schick.

O próprio diretor notou que se trata de um filme de contrastes: terra e água, masculinidade e doçura, exterior e interior, e Shick parece concentrar em sua pessoa todos esses paradoxos. O homem alto, forte e tatuado aparece como a figura mais sensível, mais dolorida e romântica de todo o filme e se opõe ao pequeno, mas arraigado, Ayrton.

Jesuíta Barbosa é outro destaque no elenco do filme: após sua exuberância em Tatuagem, o papel aqui é contido, tenso, é necessário expor uma vida inteira em poucas falas. A riqueza de suas expressões e o muito que ele faz com o pouco que lhe foi dado o apontam como um futuro grande ator e a melhor revelação do cinema nacional.

O filme pequeno, íntimo, ganha na rigidez das interpretações e dos planos. Além de três personagens que parecem contidos por um espaço emocional fechado demais, os enquadramentos são geométricos, repletos de linhas paralelas e cores primárias. Aïnouz sempre foi de uma decupagem mais fluida, mais sentimental, e contou de suas dificuldades com a exatidão do diretor de fotografia alemão. Entretanto, é um bom conjunto: a rigidez serve à narrativa e seu contraste com a direção retoma mais uma vez a ideia de contradições do longa.

Praia do Futuro é, sobretudo, um filme esteticamente marcante. Os belos planos, os atores, as paisagens. A sequência inicial é perfeita ao apresentar a intensidade primitiva que está ali, mas que se desmancha e se complica até o último momento do longo, lírico, delicado, emocional.

Aïnouz sempre teve uma ligação forte com o corpo: seu cinema é material, físico; a dimensão corporal dos personagens é muito bem aproveitada e não por acaso as cenas de sexo ou violência são as melhores aqui. O sexo ao mesmo tempo terno e forte do casal de protagonistas funciona como um bom resumo da relação que constroem.
Surpreende um pouco que Aïnouz seja mais delicado em sua abordagem do sexo do que o foi Hilton Lacerda: Praia do Futuro é tão velado quanto Tatuagem é explícito, mas funciona em ambos os casos. Um diretor sentimental tratando o sexo como algo cru e um diretor cru, poetizando suas cenas de sexo.

O que há em comum entre os dois filmes e, por coincidência entre eles e Hoje Quero Voltar Sozinho, é que embora se tratem de filmes com protagonistas homossexuais isso não gera os conflitos do roteiro. Donato é, nas palavras de Wagner Moura, “um personagem complexo, ele é muita coisa, entre elas é homossexual”. Isso não é interessante apenas do ponto de vista humano, mas narrativamente quebra expectativas, foge de clichês de tema e constrói tensão onde o espectador não esperava.

Praia do Futuro é realmente um filme sobre a tensão entre um ser e seu espaço. Entre os demônios de Donato e seu papel como filho, irmão, bombeiro. É sobre a paixão de Konrad pelo homem que não é nada disso e a vontade de um personagem de ser esse homem que não é nada. De não precisar mergulhar para se sentir livre. Também é dos filmes que precisam de alguns dias para que toda a sutileza das questões apresentadas se articule, toda a vida interior dos personagens que é intuída, expressa nas atuações, nos olhares.

Tudo isso são boas coisas, é bom um filme que faça tanto uso de recursos imagéticos ao invés de palavras. Também é bom ver o cinema brasileiro aprendendo a olhar para dentro dos personagens, produzindo filmes pessoais, íntimos e diversificando a temática da produção. Ismail Xavier poderia apontar que ainda há mar, e sertão, nesses filmes recentes, mas também há cidade e vida interior. Praia do Futuro fica atrás se comparado a Madame Satã, ou mesmo a Tatuagem, mas é um bom filme, competente, interessante e uma vitrine para três ótimos atores.

2 comentários para “Crítica: ‘Praia do Futuro’

  1. Esse filme é uma merda. Mais uma produção vagabunda como a esquerdalha brasileira procura fazer. A gaiola das Loucas tem uma temática bem melhor.

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