Vício Inerente

em 18 de junho de 2014

Informações

  • Autor: Thomas Pynchon
  • Tradutor: Caetano Waldrigues Galindo
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 464
  • Ano de Lançamento: 2010
  • Preço Sugerido: R$61,00

O meu interesse imediato por Vício inerente, além do flerte com a vulgaridade e humor de Pynchon, deu-se porque um dos meus diretores favoritos, Paul Thomas Anderson, levará aos cinemas a história de Doc Sportello. Com um elenco competente (inclua aí Joaquin Phoenix, Jena Malone, Josh Brolin e Benicio Del Toro) e a benção do autor, o filme estreará em dezembro deste ano. A leitura da obra não me decepcionou e deixou-me a impressão de ser o livro mais leve de Pynchon que li.

Larry “Doc” Sportello é um detetive particular de trinta anos viciado em surf music e maconha. Um belo dia, sua ex-namorada de colégio bate à sua porta para pedir ajuda: procura o seu atual namorado, um magnata casado do ramo imobiliário da Califórnia. Vício inerente inicia-se com esse clichê e exibe vários outros ao longo da trama, como o policial do departamento de Los Angeles chamado Pé-Grande, o típico agente da lei que odeia o detetive particular por motivos superficiais, ou ainda um sujeito dado como morto ressurgido do além para ajudar na investigação.

Mas o que vem a seguir parece bem mais que um simples thriller detetivesco em clima noir. A começar pela ambientação no começo dos anos 70, o envolvimento de neo-nazistas, Panteras Negras e de um misterioso grupo, monstro, entidade, seita ou sindicato de dentistas chamado Canino Dourado.

Sim. Os livros de Pynchon sempre tiveram um humor peculiar, por assim dizer, que permeia o seu jeito um tanto erudito e pedante de escrever. Pynchon é um gênio da escrita, mas isso não o impede de se divertir e brincar com nomes inventados (Dawnette é um dos meus favoritos) e piadas infames (confundir Denis com pênis por culpa do sotaque californiano). Engana-se aquele que pensa que encontrará um detetive cujas gags durante a trama serão baseadas em seu hobby de fumar maconha. Não. Existem sim os maconheiros que darão o ar cheech-chongesco de Vício inerente, só que “Doc” tem seu poder de dedução ampliado pela cannabis e está mais para aquele tipo de detetive sabichão misturado com Clouseau.

 

‘Mas como é o Sherlock Holmes, ele cheirava coca o tempo todo, bicho, ajudava a resolver os casos’.
‘É mas ele… não era de verdade?’
‘O quê. O Sherlock Holmes não era –’
‘Ele é um personagem inventado nuns contos aí, Doc

 

A cada novo personagem apresentado na trama, uma nova ou talvez a mesma linha de investigação se abre para problemas bem maiores que um simples caso de adultério ou desaparecimento. Os personagens de Thomas Pynchon, se não bastassem os nomes e apelidos com trocadilhos infames, aparecem e somem na trama. E eles são muitos. Acreditem, muitos. Uns parecem simples coadjuvantes, outros alucinações do detetive. Mas todos participam de forma relevante, mesmo que micro, na investigação de “Doc”.

Essa pluralidade de personagens e subtramas pode virar uma armadilha se você esperar um livro de mistério com pistas jogadas para montar um quebra-cabeça. A investigação de “Doc” se desenrola em diversos outros casos.

Não existe quebra-cabeça. Assim como o olho humano tenta corrigir uma forma que lhe parece assimétrica, a cabeça de um leitor viciado em thrillers, quando se depara com um livro de investigação, é devorá-lo a fim de solucionar o mistério junto ao protagonista. Esta trama está mais para um labirinto móvel. E isso é o que torna Vício inerente tão peculiar. Não é um Pynchon true como muitos dizem. Tem tudo que o autor adora fazer, um pouco mais leve, mas não menos confuso, e bem, bem divertido.

6 comentários para “Vício Inerente

  1. De certa forma eu espero muito mais por um thriller excêntrico vindo da mente do PTA que uma adaptação do romance. Tem muita, muita bizarrice desconexa que o PTA não consegiuria (em minha humilde opinião) adaptar para a tela sem resvalar no surrealismo, que não parece ser a intenção. Ou não, sei lá

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