Crítica: ‘O Homem Duplicado’

em 19 de junho de 2014

Informações

  • Título: O Homem Duplicado (Enemy)
  • Diretor: Denis Villeneuve
  • Roteiro: Javier Gullón
  • País: Canadá / Espanha
  • Ano: 2013
  • Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent

Está na hora de começarmos a nos perguntar se o Saramago é um autor que funciona no cinema. À primeira vista, suas histórias sugerem um potencial para filmes conceitualmente bem originais, mas até então não tivemos um diretor que conseguisse fazer muito com isso. Cegueira tentou tratar a premissa fundamentalmente absurda com naturalismo, o que só deixou evidente o quanto os acontecimentos do livro não refletem de forma alguma o que aconteceria na vida real caso milhões de pessoas ficassem de repente cegas.

Parece heresia procurar defeitos nas obras de um dos autores mais aclamados da língua portuguesa, mas o fato é que, desconsiderando a inventividade da prosa, as narrativas do Saramago não funcionam muito além do espectro alegórico. Isso funciona em literatura, mas adaptações cinematográficas provavelmente precisavam de alguém com a coragem de um Kubrick, alguém que partisse da premissa básica para criar algo completamente diferente.

O Homem Duplicado até tenta ser isso, mas não vai tão longe quanto deveria. O filme não é uma adaptação tão fiel quanto a de Meirelles; o diretor Denis Villeneuve e o roteirista Javier Gullón tomam mais liberdades com o livro, mas eles não parecem saber para onde levar a história. O resultado é um filme vago, com diversas possíveis interpretações e elementos simbólicos que podem significar qualquer coisa, ou nada.

Passado numa Toronto constantemente nublada, O Homem Duplicado acompanha um professor de História (Adam) que descobre a existência de um ator (Anthony) fisicamente idêntico a ele em aparentemente todos os aspectos. O filme estrela Jake Gyllenhaal (com quem o diretor trabalhou no recente Os Suspeitos) nos dois papéis principais. Jake não é o ator mais complexo do mundo, mas ele dá o melhor de si; o filme falha em elementos tão fundamentais que as atuações acabam sendo irrelevantes.

O primeiro problema é o fato de que os acontecimentos simplesmente não são muito interessantes: Adam fica obcecado com Anthony e entra em contato, com o objetivo de marcar um encontro. Anthony a priori recusa, mas eventualmente concorda. Os dois homens se encontram, coisas acontecem e, quando a trama finalmente parece começar a levar a algum lugar, o filme acaba. Alguns detalhes parecem ter um significado simbólico, como as aranhas de CGI que vemos em certos pontos. A presença de Mirtilos também deve ser importante, já que Anthony gosta da fruta, mas Adam não. Ou seria o contrário?

Essa dúvida é proposital. Um grande esforço é feito para gerar ambiguidade sobre a situação. Estamos realmente lidando com sósias, ou estamos vendo o mesmo homem vivendo duas vidas? Temas psicossexuais são estabelecidos desde a primeira cena, onde Anthony (ou seria Adam?) assiste a uma performance erótica em um clube underground. As reações da namorada de Adam (Mélanie Laurent) e da esposa de Anthony (Sarah Gadon) às atitudes de seus respectivos companheiros sugerem que algo está errado com tudo isso; o filme claramente está mostrando uma realidade colorida pelo subconsciente do(s) protagonista(s).

Uma possível interpretação é que se trata de uma história sobre adultério, sobre um homem levado a criar uma nova persona para racionalizar a vida dupla que leva. Uma das cenas que mais parece corroborar essa leitura envolve Adam (ou seria Anthony?) visitando sua mãe (Isabela Rosselini, desperdiçada em um papel ingrato). Mas há mais coisas a se considerar. Como no livro, o fato de que “a história se repete” é frisado com bastante ênfase nas aulas de História onde Adam fala sobre regimes totalitários. Estaríamos vendo a ilustração de um ciclo inescapável (tagline: “You can’t escape yourself”) não só na vida de um homem, mas de todo o gênero masculino?

Eu provavelmente estou fazendo o filme parecer mais interessante do que é. Nada disso é ruim em teoria, mas há um abismo entre intenção e execução aqui. Não tenho problemas com filmes ambíguos que deixam mistérios sem solução. Um dos melhores dos últimos anos, Sob a Pele, também deixa um monte de coisas sem explicação, mas a confiança do Jonathan Glazer na direção faz toda a diferença; ali, uma mudança sutil na trilha sonora reconfigura toda a cena sem que o menor movimento de câmera seja necessário. Também se trata de uma adaptação, mas o livro é utilizado meramente como ponto de partida para criar uma experiência sensorial e irrevogavelmente cinematográfica.

Villeneuve tenta criar um clima de suspense em O Homem Duplicado, mas suspense precisa de perigo, ou no mínimo da ideia de perigo. Se você não faz ideia de qual é a suposta ameaça, se você nem sequer entende o que está em jogo, qual é o ponto de inserir uma trilha sonora sinistra no meio da cena, como se algo estivesse acontecendo? O resultado final não é sequer visualmente interessante. A fotografia, que eu decidi apelidar de de “50 tons de amarelo,” é possivelmente uma homenagem a A Dupla Vida de Véronique, mas, infelizmente, o Villeneuve não é Kieslowski.

 

Avaliação: ** de *****

11 comentários para “Crítica: ‘O Homem Duplicado’

  1. Eu li o livro e vi o filme. Saramago nunca gostou da ideia de ver suas obras no cinema, porém quando decidiram filmar a obra Ensaio sobre a cegueira, o autor ficou impressionado e emocionado com a transposição; quem não leu o livro e assiste Ensaio consegue “enxergar” a mesma mensagem do livro. Já em O Homem Duplicado as mensagens não foram transmitidas. Jake Gyllenhaal encarnou verdadeiramente os dois personagens, o professor de história e o ator secundário de cinema. Senti que o filme tentou e se esforçou para ser fiel ao livro, o que em parte conseguiu, passou para a tela o que estava escrito, mas não a mensagem Saramaguiana. A aranha que aparece em alguns trechos do filme e eu não entendi pq ela estava lá, não está em nenhuma página do livro, nem em sentido metafórico e nem literário. A principal mensagem da obra escrita, que é a perda de identidade no mundo globalizado e a eterna busca pelo eu, não passaram nem perto das telas dos cinemas. Este filme é um filme de arte, não é um filme comercial, porém ficou devendo demais para a genialidade de Saramago. Se tivessem terminado o filme, como o livro terminou, bem como sumido com aquela aranha metafórica, o filme teria feito muito mais sentido para quem
    não leu O Homem Duplicado.

  2. Gostei do filme. Achei que ele faz um vôo paralelo à trama do livro e apenas volta, em alguns momentos, ao relato original.
    Discordo quando você diz que “elementos simbólicos que podem significar qualquer coisa, ou nada”. Se são elementos simbólicos, eles representam alguma coisa e, se estão postos em um filme ou livro, têm um significado, mesmo que possa ser apenas um corte ou quebra da ideia norteadora do enredo. Se o elemento está no filme faz parte da sua simbologia: sempre terá um significado podendo ser mais evidente ou mais complexo ou sutil.
    Quando você afirma que “o filme falha em elementos tão fundamentais que as atuações acabam sendo irrelevantes” penso justamente o contrário: o filme é tão aberto a interpretações que torna Jake Gyllenhaal o centro de tudo. O idêntico fica somente no corpo, a linguagem corporal o torna “o outro”. Não se trata de caricatura, mas de uma interpretação corporal e atuação perfeitas.
    Se voltarmos ao livro de Saramago, podemos nos deparar com as mulheres – a esposa, a amante, e mesmo a mãe que, para mim, são a aranha tecedora da teia onde Tertuliano está preso. Podemos ver o professor querendo se afastar da amante, mas cada vez mais atado a ela. A mãe, onde ele busca o apoio, o deixa ainda mais vulnerável, jogando-o novamente para a amante. A mulher do ator busca e atrai o duplicado, e empurra o seu marido na direção do perigo. Assim, os duplicados tentam agir sozinhos, mas, apenas caminham nas teias de suas mulheres-aranha. Essa aranha, inexistente no livro, aparece no filme e reforça o suspense.
    A cena final do filme é esplendida (o professor é por fim capturado) e pode ser entendida como a releitura do final do livro. O homem finalmente está à mercê daquela (s) mulher (es). No filme, a boca da aranha na porta da cozinha – no livro, a aliança que a mulher coloca no dedo do professor. No livro, a presença da mãe e da mulher no funeral do ator. A vida de Tertuliano está realmente na mão das mulheres.
    Quanto à Isabella Rossellini; ela é o centro da decisão, o oráculo. Irrepreensível!

    • Acho que a interpretaçào do autor do texto é mais realista que a sua. Não li o livro, por isso falo só pelo filme (que deve ou deveria ser completo em si mesmo, inclusive em termos de sentido). A aranha, no final nào aparece em postura ameçadora ou de captora, mas sim acuada, como se temesse o professor. Talvez o livro tenha algum sentido, mas o filme não.

      • Não creio que ela tenha defendido a co-dependência do filme em relação ao livro. Pelo contrário, aliás. Acho que essa relação está mais forte na crítica de Pinder, que achou necessário pontuar isso logo no começo do texto, meio que para dar abertura à frase de efeito “uiuiui, só Kubrick faz(ia) as coisas direito”. Não li o livro (e, no momento, não é uma das minhas prioridades, apesar do xará), mas a falta de completude da adaptação de Villeneuve é uma interpretação de vocês. Tá completinho, na medida da proposta do filme, que não parece querer entregar tudo de bandeja nem abrir mão de testar as sensações do telespectador a certas cenas.

        E falar de realismo pra um filme como esse é complicado, não? Certamente é mais realista, assim como estar com preguiça e de saco cheio de pensar sobre o filme depois é uma atitude realista, né? Realismo é o parâmetro máximo de uma avaliação desde… Ué, desde quando mesmo?

        Ficou a impressão de uma “questão de gosto”. Eu gostei bastante do filme e deixei ele fermentando na cabeça depois de vê-lo, mas também tenho uma preguiça enorme de tanta coisa que tanta gente curte, então entendo perfeitamente a situação. Fiquei feliz pelo comentário porque, ufa, não fui o único que parece ter visto outro filme. Mas é sempre legal ler uma crítica como essa, pra ter uma ideia do que é alteridade: o que você vê como qualidade pode ser um defeito horroroso aos olhos do outro.

        • O filme reúne Ótimas atuações, estética interessante com o amarelo onírico que nos convence de que pode ser que nada seja real e uma trilha sonora que dosa bem o silencio necessário à eterna e esdrúxula nossa busca por sentido e explicação no cinema ( nos engana fazendo pensar que vai se explicar e felizmente não o faz). Por fim, esta (aparentemente também eterna) mania de buscar o livro no filme é absolutamente patética. São linguagens diferentes e nem sempre o diretor se propõe a isto. Quero ler o livro só por ser um Saramago, mas comparações para mim devem se limitar a ter ou não boas soluções e nunca à pretença fidelidade ao texto. Este é o tipo de filme com argumento( encontro com um sósia) já repetido inúmeras vezes na literatura e no cinema, mas que consegue aqui, uma solução estética intrigante com as suas múltiplas interpretações. Gostei e pronto. Deixe Kubrick morrer em paz , sempre vivo( é claro) na sua obra grandiosa!

  3. Gostei da analise da Olga.
    Me pareceu muito coerente. Só vi o filme e realmente só consegui entender pela explicação dela.
    NESSE CASO, ÓTIMO FILME!

  4. Também só fez sentido para mim após ler a postagem da Olga. E da mesma forma coclui que é um ótimo filme.

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