Crítica: ‘Malévola’ – e a sororidade no Cinema

em 23 de junho de 2014

Informações

  • Título: Malévola (Maleficent)
  • Diretor: Robert Stromberg
  • Roteiro: Linda Woolferton - baseada na história dos irmãos Grimm
  • País: EUA
  • Ano: 2014
  • Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, entre outras

Permita-me um pouco de otimismo: parece que novos tempos se avizinham, influenciados pela ascensão das minorias, por sociedades mais igualitárias e abandono de preconceitos servis. Evidente que mudanças assim não ocorrem de uma hora para outra, nem mesmo atingem todos os lugares de uma só vez. A História caminha a diferentes velocidades em cada canto do mundo, e grandes mudanças são sempre processuais, sofridas, dengosas. Mas até o Cinema já começa a mostrar-se influenciado por esses novos tempos, e se as produções alternativas (o “cinema de arte”) largaram na frente graças à percepção mais apurada, as grandes produções, e especialmente Hollywood, começam a recuperar o tempo perdido, apostando em histórias menos óbvias e até mesmo com consideráveis toques de subversão às “normas e aos bons costumes”.

Assim, Malévola, dos estúdios Disney, dirigido por Robert Stromberg e estrelado por Angelina Jolie, surge como um importante exemplo do novo olhar sobre o protagonismo feminino, encontrando espaço na prateleira cinéfila ao lado de outros filmes recentes igualmente engajados, como Valente (2012) e Frozen (2013), ambos também da Disney (e isso não me parece coincidência, o Géledes explica melhor).

Felizmente os exemplos não se restringem a esse estúdio, e em diversos gêneros as mulheres têm conquistado cada vez mais centralidade – tendo cada vez mais sucesso na empreitada. Ainda lembro de Jodie Foster botando pra quebrar em Valente (2007), raro exemplo de filme de ação realista com uma protagonista. Obras mais recentes, como Jogos Vorazes (2012) (e seu irmão Divergente, de 2013) e Gravidade (2013), são bem sucedidos exemplos de mulheres à frente de obras de ação, aventura e até sci-fi.

Cate Blanchett, vencedora do Oscar de melhor atriz do ano passado por Blue Jasmine (2013), criticou em seu discurso executivos de Cinema que “ainda acham que filmes estrelados por mulheres são vazios e desinteressantes” – e terminou avisando: “Eles não são superficiais ou desinteressantes. A audiência quer vê-los e, de fato, eles também são muito rentáveis”. Ela tem muita propriedade no que fala, já que seu filme foi o mais rentável da carreira de Woody Allen.

Mas como toda inovação, esse novo cenário tem gerado incompreensão e revelado velhos preconceitos. Há quem diga que Malévola é um filme misândrico, que destila ódio aos homens e retrata as mulheres como essencialmente boas. Houve até um crítico que torceu (?) para que a trama pendesse para um desfecho lésbico, dada a proximidade entre as duas protagonistas. Todo seu escrito está contaminado por um fetichismo babão, além de incompreensão e preconceito, enfim, de machismo.

Não há como confundir as intenções de Malévola, até porque trata-se de um blockbuster hollywoodiano de $180 milhões de dólares1 feito para crianças e adolescentes e, sobretudo, para lucrar estrondosamente. É por isso que os blockbusters têm, tradicionalmente, histórias mais leves, às vezes rasas, trabalhando no máximo com metáforas melhor ou pior arranjadas.

A metáfora de Malévola é evidente, forte e muito corajosa: é sobre estupro. A fada do reino dos Moors é uma garota órfã, mas feliz e integrada ao belo ecossistema ao seu redor. Vez ou outra ela e seus companheiros encantados têm que defender seu território dos humanos conquistadores – seres sombrios e tristes que vivem no reino vizinho. Mas um dia a pequena Malévola (uma atriz mirim não apenas muito parecida com Jolie, mas também, curiosamente, com a cantora neozelandesa Lorde) começa uma amizade com um humano, Stefan, e eles logo viram namorados. Mas a criança torna-se um adulto ganancioso e se afasta de Malévola para galgar uma carreira no reino humano, até que encontra uma chance para alçar-se ao trono, se estiver disposto a matar a amiga de infância. Assim, o rapaz finge uma reaproximação da amada e corta suas exuberantes asas durante a noite. A partir daí, Malévola faz jus ao nome e torna-se uma sombria e vingativa fada (bruxa), lançando uma maldição à herdeira do antigo amor, Aurora (a adorável Elle Fanning, irmã de Dakota), que ao completar dezesseis anos espetará o dedo numa agulha, mergulhando num sono profundo do qual só um beijo do amor verdadeiro poderá resgatá-la.

Malévola é, portanto, uma mulher traída, abandonada e, sobretudo, abusada por alguém em quem confiava e amava. Ela não acredita em amor verdadeiro, portanto sua maldição será eterna. Só daí já tira-se uma grande empatia com qualquer plateia. Angelina Jolie, com quase 40 anos, convence muito bem tanto como a jovem e delicada fada da primeira fase do filme, quanto como entidade assustadora (mas ainda sensível) na metade final – em parte pela ajuda do excelente trabalho de efeitos especiais, especialidade do diretor e que pode ser conferido neste vídeo. Assim, sua vilã-heroína, por mais que isso soe contraditório, tem a dose certa de caricatura e alcança um nível que eu não via desde Cruella De Vil, épica personagem de Glenn Close em 101 Dálmatas (1996).

Malévola vigia à distância, interferindo através do adorável corvo-humano Diaval (Sam Riley), o crescimento de Aurora até os dezesseis anos, quando sua maldição se concretizará. Porém, a simpatia que adquiriu ao longo dos anos pela menina a faz repensar a vingança. Daí supor que em algum momento a história virará um romance lésbico é um salto de exagero despropositado. A relação entre as duas é claramente maternal e ganha uma bela representação. Quando o crítico do R7, André Forastieri, critica o roteiro de Linda Woolverton – experiente autora de A Bela e a Fera (1991), O Rei Leão (1994) e Alice no País das Maravilhas (2010) –, na verdade parece criticar a ausência d’um herói masculino que apareça como o salvador da fada amarga e da jovem amaldiçoada. Exato oposto, o roteiro de Linda tira sarro justamente desse clichê romântico historicamente constituído, e quando o “príncipe encantado” aparece, não apenas é uma figura bem sem graça, como seu beijo presumidamente salvador não muda em nada a condição de adormecida da bela princesa.

Claro que muitos clichês se mantêm: Aurora, infelizmente, termina o filme com seu principezinho de cabelo alisado. Há também de se considerar o estereótipo de heroínas sempre loiras e brancas. Será que teríamos a mesma empatia se a bela Aurora fosse negra? Por que princesas têm de ser brancas? A própria Disney questionou isso em A Princesa e o Sapo (2009), com sua primeira princesa negra.

Mas revoluções rápidas, com foice e martelo na mão, são casos raros (e geralmente se provam desastrosos). Verdadeiras mudanças são paulatinas. Assim, Malévola, que levou 900 mil brasileiros às salas de Cinema apenas em seu primeiro fim de semana em cartaz2,cumpre muito bem seu papel de dar um passo em direção à igualdade que vale a pena desejar à sociedade.

  1. Fonte: IMDB.com
  2. Fonte: Divirta-se.com

3 comentários para “Crítica: ‘Malévola’ – e a sororidade no Cinema

  1. Angelina é a minha Musa! Simplesmente a amo e os filmes que ela ven fazendo nesses últimos anos. Todos ótimos e com ela no comando de papéis femininos e fortes! Eu amei “Malévola” também!

Deixe uma resposta para Vinicius Volcof Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.