Sem medo de estar sozinha

em 21 de julho de 2014

Um mês atrás, quando eu estava naquele já famoso ônibus (mais precisamente uma van) entre Belgrado e Sarajevo, logo depois que entramos na Bósnia, o motorista parou em um posto de gasolina. Uma mulher entrou, seguida por quatro crianças, falou algo com o motorista, desceu, entrou de novo, sentou no único lugar lá no fundo e sentou as crianças no chão. Em seguida subiram mais duas mulheres e um garoto com os olhos mais azuis do mundo, todos ficaram em pé no “corredor” da van.

Sentado ao meu lado estava um sérvio que há anos vivia no Canadá e sorriu e balançou a cabeça quando contei o que estava fazendo. “Você é como as minhas filhas”, ele me disse, “por que vocês não podem simplesmente ir pro Caribe e ficar quietas em uma praia?” Eu ri e contei que já tinha ido ao Caribe, cruzar Cuba de carro. 

Quando as crianças se acomodaram no chão, o garoto de olhos azuis se equilibrou e o ônibus partiu, ele me disse: “well… This is Bosnia”. Eu fiquei quieta por alguns instantes, observando e então respondi “this is Brazil as well”. “Mesmo?”, ele me perguntou. Bom, talvez não o fato de você comprar uma passagem para um ônibus que no fim é uma van que não te deixa exatamente na cidade em que você quer ir, mas no anexo dela que fica em uma federação autônoma onde vive toda uma minoria étnica de um país (República Srpska, google  pra vocês), mas o improviso, a desorganização, a bagunça.

Conto para ele do ônibus boliviano cheio de cabras, do passeio a cavalo completamente ilegal no Peru, da delegacia cubana e de como adoro viajar pela América Latina. Adoro o sentimento de que as coisas nunca funcionam realmente como deveriam, você sempre tem que estar um pouco preparado para criar uma saída.

Tenho a teoria de que crescer em algumas partes do mundo te dá uma certa vantagem evolutiva como viajante. Você já vive em um trânsito caótico. As coisas já são desorganizadas e meio erradas na sua vida comum. Você já está acostumado a lidar com transporte público confuso e indecifrável. Por exemplo, sempre imagino que a pessoa capaz de dirigir no Cairo, naquele trânsito que inclui búfalos, acharia São Paulo um poço de harmonia. Eu, nascida brasileira, achei o leste europeu quase uma volta pra casa.

Me perguntam muito se não tive medo de fazer o que fiz, sair pelo mundo sozinha em lugares como a Sérvia e a Eslováquia. Ou dizem que sou muito corajosa por isso. Quase sempre dou de ombros. Achei que fosse ser sequestrada no trem noturno, fora isso poucas coisas me pareceram mais perigosas do que voltar para minha casa andando depois da meia-noite.

Aparentemente, a perspectiva de estar sozinha quando algo sai do controle apavora muita gente. Acho que os momentos em que mais tive medo foram nas paradas de ônibus nos Bálcãs, quando o motorista falava algo em bósnio/croata e desaparecia me deixando sem saber se seria largada pra trás no tempo de ir ao banheiro. Não era da possibilidade de ter que pedir carona que eu não gostava, mas de que a minha mala ia seguir viagem sem mim. Como sobreviver sem as minhas roupas?

Ouvi no tom de algumas pessoas que eu estava sendo arrogante, prepotente, ingênua, todas aquelas coisas que atiram nos jovens que acham que nada pode acontecer com eles. Eu sempre soube que coisas poderiam acontecer comigo. Pelo amor de deus, eu perdi meu passaporte na segunda semana! Mas eu sempre tive uma certeza de que de alguma forma meu cérebro foi treinado para muito rapidamente achar uma solução, e vejo esse treinamento nos muitos anos de azar e América do Sul.

Nenhum ônibus croata levou o tempo que me disseram que ia levar. Em Praga rodei mais de uma hora com indicações confusas para o museu do Kafka (que apropriado). Quase fiquei para fora do trem da Eslováquia. Aprendi a ignorar a tabela de horários dos trams na Sérvia. Não fui a Montenegro porque a internet não me dizia de jeito nenhum como seria possível chegar lá. Mas a incerteza, o sentimento de descoberta e ir improvisando no caminho me foram muito queridos.

Acho curioso que agora estou na Suécia e ela me parece uma terra muito mais estranha do que países ex-comunistas de alfabeto cirílico. A Escandinávia me parece estrangeira. Do formato das casas aos rostos das pessoas, tudo me dá uma sensação de não pertencer que eu ainda não tinha sentido nessa viagem. Algo de que gosto e detesto em mim mesma é como quase não sinto a sensação de deslocamento, de estranheza; todo lugar me parece familiar, estou em casa em quase todas as cidades. Mas aqui, nesses lugares lindos onde o sol não chega a se pôr, não estou.

Há uma parcela de tédio. Tudo muito bonito, mas parece haver poucas chances de surpresa. Talvez seja a consciência de que é minha última semana de viagem, aquele momento estranho em que você ainda está fora, mas já pode começar a fazer planos para a volta, quando sua mente já começa a lembrar que quando chegar em casa precisa comprar iogurte. Ou talvez seja só que tudo parece mesmo muito certo, muito seguro: até a balsa para a ilhota onde está o túmulo do Bergman já é toda coordenada com um ônibus. Onde está o risco de perder o último catamarã e ter que dormir na praia?

Choro o fim da aventura. Mas pensando bem, sabe-se lá quem a gente encontra indo visitar um sueco deprimido enterrado em uma ilha.

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