A barreira de aparecer no meio literário – entrevista com Bruno Liberal

em 7 de novembro de 2014

Bruno Liberal nasceu em Goiânia, no estado de Goiás. Aos quatro anos de idade mudou-se com a família para Petrolina, sertão de Pernambuco. Lá se formou em Economia e deu início paralelamente à carreira de escritor, publicando em 2012 a seleta de contos Sobre o tempo (editora Multifoco). Mas foi no ano seguinte que se destacou, na primeira edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, sendo o grande vencedor, na categoria contos, com o livro Olho morto amarelo (Companhia Editora de Pernambuco).

Nessa obra, Bruno Liberal revela-se um ficcionista notoriamente hábil e talentoso ao nos apresentar em suas breves narrativas doses dicotômicas de violência e poesia, reunindo personagens solitários, psicóticos e excêntricos – vítimas da banalidade urbana –, dentro de uma atmosfera onírica confinada por insights.

A seleta apresenta influências da literatura pop e brutalista, angariando também o gênero fantástico e moderadamente intimista. Cada palavra está em seu lugar e, por isso, o autor não peca pelo excesso, mesmo quando metaforiza passagens ou não teme malabarismos estéticos com a linguagem. Destaque para os contos: “Zunido Amargo”, “Sara e os pôneis”, “Olho morto amarelo”, “Aquário”, “Caro Pedro” e “Juro por Deus que era para ser um final feliz”.

Em entrevista exclusiva para o Posfácio, Bruno Liberal fala sobre o processo de produção dos contos de Olho morto amarelo, sua rotina como escritor e a importância dos prêmios literários que revelam novos talentos pelo país.

 

 

Como surgiu o processo da seleta Olho morto amarelo?

Surgiu de um silêncio brutal, de um vazio de sete anos sem ler ou escrever ficção. Decidi retornar um dia e mergulhei na literatura com tudo. Olho morto amarelo foi escrito em quatro meses intensos para dar tempo de participar do Prêmio Pernambuco de Literatura.

 

Apesar de seus contos falarem de temas diversos, é possível notar o choque de gêneros que oscilam entre pop urbano e doses de realismo mágico. Pode falar um pouco sobre essa dinâmica entre realidade x sonho que permeia seu último livro?

Não existe nada mais surreal que a própria vida. Sou ainda muito comedido em retratar eventos com uma expressão surreal. Tento aproveitar as contradições humanas dentro desse contexto e o que aparece com esse viés surrealista pode muito bem ser uma realidade crua. Os sonhos trazem à tona sentimentos muito profundos e se encaixam perfeitamente nessa narrativa de estranhamento que toma de assalto alguns contos.

 

Olho morto amarelo não é a sua primeira obra publicada. Me fale sobre quando começou a escrever.

Comecei a escrever durante a faculdade de economia em Feira de Santana – BA. Tinha muito tempo livre, não trabalhava e estudava à noite. Comecei a ler tudo de ficção que a biblioteca da universidade possuía. Muitos clássicos. Dois livros me marcaram de forma definitiva: Ensaio sobre a cegueira, de Saramago; e Memórias do subsolo, de Dostoievski. Naturalmente comecei a escrever. Meu primeiro livro reúne textos dessa época.

 

Além de escritor, você é economista. Pode falar um pouco dessa sua atividade, e se existe algum tipo de ligação com a atividade como ficcionista?

Não vejo uma relação direta. É claro que todo escritor é carregado por tudo que possui de conhecimento, toda formação intelectual, teórica, empírica. O olhar sobre a vida vai ganhando densidade com suas experiências.

 

Como soube que havia ganhado o Prêmio Pernambuco de Literatura? Qual foi a sua primeira reação?

Não acreditei. Pensei que poderia ser algum erro de digitação. Li inúmeras vezes a notícia do resultado do prêmio. Até pensei que estaria na disputa para o prêmio regional, mas ganhar o regional e ainda o grande prêmio, concorrendo com o pessoal de Recife, estava longe das minhas expectativas.

 

Qual é a importância de existirem prêmios como esse em que se investe em novos talentos literários?

Esse tipo de prêmio baseado em obras inéditas e identificadas com pseudônimos permite uma equalização na disputa com escritores de renome. Isso é muito importante para oxigenar o mundo literário. Permite que apenas a obra seja analisada e seu resultado dedica-se exclusivamente à qualidade literária do texto. Pelo viés tradicional, um editor publica um autor baseado em diversos parâmetros, mas principalmente pela capacidade de vender livros. Esse é o negócio da editora e um iniciante geralmente não possui uma base de leitores que viabilize o “negócio”. Nesse sistema fica extremamente difícil para novos talentos vencer a barreira de aparecer no meio literário.

 

Muitos contos de seus livros me chamaram a atenção, seja pela sua segura técnica narrativa quanto pelas temáticas adotadas, que circundam o universo de loucura e inverossimilhança entre a psique das personagens. Dois contos, em particular, não me saíram da cabeça, no caso, “Sara e os pôneis” e o que dá título ao livro, “Olho Morto Amarelo”. Poderia falar mais sobre eles?

Sara é uma mulher atormentada pelas decisões que tomou durante sua vida. Talvez um tema que traga certa união aos contos. O personagem de “Olho morto amarelo” é muito estranho. Surgiu de um sonho psicodélico que tive com uma árvore que possuía olhos. Essa árvore me perseguiu durante anos, no entanto consegui me livrar desse pesadelo transportando-o para o conto.

 

O que você acha de quando classificam o conto como um subgênero da literatura?

Acho uma bobagem. É uma visão pequena baseada em preconceito mercadológico. Tenho observado uma mudança significativa nesse aspecto e o conto vem ganhando força.

 

Como é a sua rotina de escrita?

Caótica. Tento escrever um pouco todo dia, mas não consigo estabelecer horários. Tenho um emprego convencional que me toma o dia inteiro. À noite fico com meus filhos para minha esposa estudar. Entre uma coisa e outra corro para o computador e tento escrever o máximo. Deixei de me importar com barulho e desencanei de esperar o ambiente ideal.

 

Qual dos contos de Olho morto amarelo, em particular, é o seu preferido e por quê?

Não tenho um preferido, todos me tocam de uma forma especial. Dou o exemplo de “Juro por Deus que é um final feliz”, sobre um pai que esquece a filha de seis meses dentro do carro. Era um medo que me assolava na época com minha filha muito nova. Esse conto me ajudou a superar o pavor de um acontecimento semelhante comigo.

 

Parece que você assinou há pouco tempo um contrato com a Confraria do Vento, que irá publicar seu próximo livro. Pode falar um pouco sobre isso?

A Confraria do Vento é uma editora que respeito bastante. Cada livro é pensado com muito carinho pelos editores e trabalhado de uma forma diferenciada no cenário nacional. O livro que irei lançar chama-se “O contrário de B.”, e possui 13 contos. Deve sair no primeiro semestre do próximo ano. O próximo passo é um desafio que me impus. Comecei a escrever um romance, mas não tenho qualquer compromisso externo com esse projeto, nenhuma pressão para concluir. Estou curtindo essa mudança de paradigma, mas ainda é muito difícil não pensar no formato conto. Vamos ver o que vai sair disso.

 

Uma frase de um escritor ou de algum livro favorito.

Uma frase de Lavoura arcaica, do Raduan Nassar: “tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a dor arenosa do deserto.”

 

 

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