Não importa o quanto a gente pague de espontâneo, pensar por que a gente faz o que faz costuma ser uma indagação cheia de nuances e descobertas. Exemplo: este mês decidi ler apenas livros que uma amiga — a Diana do título — me indicou. Por quê? A resposta mais simples (“porque Diana é dez”) não explica muito, seria apenas completar a indagação com a sugestão automática para “Diana Passy”1 no Google.

A resposta mais completa faz ponto em pelo menos três paredes do pinball que tenho na cabeça. A primeira foi a decisão de ser mais amigo dos meus amigos e realmente ler o que me recomendavam e emprestavam. Sou um procrastinador contumaz de leituras e, sim, tenho medinho de não gostar de alguns desses livros — ah, o desejo de agradar. Demorei, mas uma hora percebi: tudo que me indicam é menos pelo desejo de concordância nas impressões e mais pela vontade de ter com quem conversar a respeito. É sempre boa a conversa que vem depois do “ei, li aquele livro que tu me falou”.

“This painting commemorates the moment a friend actually read a book I recommended.” (Mads Horwath/The New Yorker. No copyright infringement is intended)

Outro ponto: o impulso também veio da resenha de Felippe para Tudo o que nunca contei, de Celeste Ng. Lembrei na hora de quando todos leram Pedro Páramo, um dos seus livros favoritos, e de como rolou a vontade de fazermos isso de novo, todos lendo a mesma obra, com a indicação de favorito de outro amigo (o meu seria A máquina, de Adriana Falcão, que li algumas dezenas de vezes). Foi Pips quem sugeriu: dava pra fazer isso com Tudo o que nunca contei, um dos favoritos da Diana. Então pelo menos esse eu queria ler.

E, finalmente: teve o estranho caso duma rapidinha de final de ano, leitura recomendada por Diana num dos nossos brunchs sabáticos. Foi uma indicação casual, mas eu baixei o e-book; quando terminei Finna (novelinha de Nino Cipri que adorei e dificilmente teria conhecido por outros meios), fiquei me perguntando por que raios não priorizava deliberadamente as indicações de Diana? Quais tesouros não perdi e não encontraria depois no Goodreads enigmático dela?

Estava escrevendo a coluna do mês passado, quando comecei a rascunhar uma lista com outras indicações dela que lembrei, dadas num almoço de amigos, na correria da Flipop, entre panquecas com xarope. Cheguei rapidinho em cinco títulos e pedi mais cinco no zap porque meu TOC já tinha decidido o título da coluna. Ela deu uma olhadinha do meu Goodreads antes de fazer a curadoria, mas meu uso inadequado da ferramenta fez ela me recomendar três livros que eu já tinha entre os meus favoritos. 

Vamos pela ordem de leitura: O circo da noite, de Erin Morgenstern, li há muitos anos. Não li no lançamento, mas lembro que fui um dos primeiros a pegá-lo emprestado na Biblioteca Pública do Paraná. Foi na sorte: não tinha como reservar livros e esse era bastante disputado. 

O universo criado pela autora é encantador e misterioso, o desenrolar da história de amor parece uma dessas lendas que todos conhecem, épicas, antológicas: o amor de Julieta e Romeu, igualzinho ao meu e seu. Eu lembro de me pegar imaginando as cenas como num filme — seria caro tanto efeito especial, coisa de filme de super-herói — , mas de também desejar justamente que não virasse filme — menos do que imaginei e ficaria decepcionado pelo potencial não aproveitado por conta de baixo orçamento. 

É um livro que você termina ainda com o gosto da pipoca doce, lembrando dos melhores momentos, os malabarismos mais mágicos, como ao sair de um circo de verdade. Talvez pensando em ver se ainda teria ingresso pra sessão seguinte. Sei que estou sendo vago, já descobri que não leio mais querendo saber de cor as histórias. Mas também sei desse encantamento, e de como foi bom dividir com alguém, comentando no Twitter, que também tinha amado a narrativa2. No final, fico até feliz de não lembrar muito: quando reler, vou ter a chance de redescobrir essa magia toda.

As águas vivas não sabem de si, por sua vez, eu comprei no lançamento, em 2016, um dos últimos que peguei com desconto de livreiro. “It was the best of times, the worst of crimes“, como escreveu Dickens: me sentindo seguro financeira e emocionalmente, pedi demissão da livraria abusiva e um mês depois vim a Natal visitar meus pais, preparando-me pra sair do armário no último dia de estadia. O livro foi um dos que me acompanhou nessa viagem.

Lembro bem de Corina e do estranhamento de não saber rotular direito a escrita de Aline Valek. Uma hora parecia ser biologicamente realista, na outra tinha um quê de ficção científica. O que num momento parecia um estudo essencialista sobre a memória, no seguinte virava um debate sobre a capacidade de distinguir delírio e assombração. Gostei do livro e das conversas entre os microcosmos sufocantes e incertos: a ambientação do romance, numa estação no meio do oceano, e da vida, numa casa próxima à praia.

De novo, lembro menos da história e mais da sensação: de se reconhecer na introspecção do livro e se sentir acompanhado. Fiz o caminho inverso de muita gente que já acompanhava as cartas da autora, mas a ordem dos fatores não altera o produto: um prepara o caminho do outro. Se você gostou do estilo do romance, vai gostar das suas bobagens imperdíveis também3.

Finalmente, Os sete maridos de Evelyn Hugo de uma hora pra outra virou o livro favorito de muita gente no Twitter. O frisson deve ter começado muito antes, mas ganhou força no Brasil quando virou o livro do mês da TAG Inéditos. Mesmo sem ler sinopse, pedi emprestado para uma amiga assinante e levei em mais uma viagem.

Fui surpreendido com o quanto a narrativa me prendeu: li metade do romance durante o voo, coisa de 200 páginas em pouco mais de três horas. Uma atriz dos tempos de ouro de Hollywood que resolve contar toda sua trajetória para uma jornalista iniciante (e para ela apenas!), enquanto um leilão de seus vestidos antológicos é preparado. O romance promete décadas de fofocas deliciosas, interrompidas de vez em quando pela impertinência duma jovem querendo entender sua própria importância na narrativa, a razão de ter sido a escolhida para escrever aquela biografia. Tinha algo de O Diabo veste Prada nessa relação.

É isso até que não é mais: é, afinal, uma história de amizade (escondida no título) e uma história de amor (escondida do título). Você até esquece da premissa e dos mistérios que prenderam sua atenção lá no começo: era tudo uma preparação pra gente se envolver sem restrições com a personagem do título, demasiadamente humana. E se faço a linha misteriosa é porque acredito que todo mundo deveria ter a chance de ler esse sem saber muita coisa a respeito.

Comecei assim meu projeto de fevereiro, quando tentei ler 7 livros nos seus 28 dias. Um livro a cada quatro dias. Nada mau para quem estava recuperando o fôlego das leituras. Se fui bem-sucedido, isso contarei nas duas próximas colunas.

  1. Ela faz uma boa apresentação de si mesma a partir do minuto 3:15 desse podcast aqui. Esse episódio é bem legal e tem várias pessoas do mercado editorial falando sobre carreira literária.
  2. Não achei os tweets, mas conversei muito com Anica a partir do post sobre o livro em seu blog.
  3. Aliás, a edição “para atravessar o isolamento” também foi uma excelente companhia de viagem uns dois meses atrás, quando cansei de surtar sozinho em São Paulo e vim ficar uns meses com a família.