por Carolina Silvestrini

Fazer a adaptação de um livro para o cinema tende a ser um dos trabalhos mais difíceis que existe, porque adaptar significa invariavelmente ajustar e selecionar – e selecionar significa excluir. Daí surge o conflito: como selecionar as partes mais “importantes” da obra mantendo-se ainda assim fiel a ela?

Helter Skelter, de Mika Ninagawa, como toda adaptação, sofre. Mas sofre ainda mais por tentar resumir em duas horas o conteúdo de um mangá trabalhado em nove volumes. Não há seleção alguma e até mesmo a maioria dos diálogos é retirada palavra-por-palavra do mangá. O resultado? Vertigem. O que até faz um certo sentido, já que  “helter-skelter” significa exatamente “confusão”, e, pode acreditar, o filme faz justiça ao título.

Mas não funciona. 

Lilico é uma supermodelo e atriz reconhecida, acima de tudo, por sua beleza, uma espécie de ídolo, um objeto de adoração. Ela é a estrela de diversos comerciais, séries e filmes, e capa de revistas como Vogue e Sweet (uma famosa revista de moda japonesa). Porém, logo na primeira sequência do filme – em que uma montagem rápida mostra adolescentes ensandecidas, revistas de moda, produtos de beleza e, finalmente, a própria Lilico envolta em gaze – fica claro que a beleza da protagonista é construída. Coisa que a chefe (e criadora) dela Lilico, Tada Hiroko, admite poucas cenas depois. Lilico é quase um Frankenstein moderno, uma criação artificial da ciência estética cujas investidas contra a decadência acabam por transformá-la definitivamente em monstro.

O conflito principal do filme se dá quando a Lilico está em casa, diante do espelho, e descobre um hematoma em seu rosto. Aí tem o início o colapso do ídolo – agravado pela chegada de uma nova modelo, Kozue Yoshikawa –, contra o qual Lilico lutará durante toda a trajetória do filme, através de chantagens, traições e crimes, com a ajuda (forçada) de sua assistente, Hada.

Paralelamente, o promotor Asada Makoto investiga o suicídio de duas ex-modelos, encontradas cobertas de hematomas parecidos com os de Lilico. Ele descobre que o ponto comum entre as duas suicidas é a clínica estética onde passaram por cirurgias de beleza, cujo principal tratamento é um líquido injetável feito de placentas obtidas ilegalmente. Contudo, todas as provas que permitiriam um processo contra a clínica são circunstanciais. Ele encontra então em Lilico a testemunha perfeita.

Enquadrada num universo de cores excessivas e de simbologias quase forçadas ao espectador (como borboletas, simbolizando as metamorfoses de Lilico, e penas vermelhas, acompanhando a insistente metáfora do promotor Asada, que diz que, para agradar a todos, Lilico está “perdendo suas penas”), a trama fica espremida. O excesso de informação visual e narrativa chega mesmo a causar um desconfortável cansaço mental.

Mesmo antes de saber que Helter Skelter era uma adaptação, já soube que era uma adaptação. Que havia outra mídia, completamente diferente, forçando uma barreira para se enquadrar na mídia cinematográfica, e que não havia dado certo. O filme de Ninagawa não é propriamente um filme, mas o próprio Frankenstein (ou a própria Lilico), feito de retalhos diversos, tentando se passar por humano.

Helter Skelter dá muito material para análise – sobre a transitoriedade da fama, por exemplo, que é uma quase-possessão de um corpo pelo status de ídolo; o significado da beleza na sociedade atual; o impacto mental sofrido pelas mulheres-ícone, etc. –, mas sem dar ao espectador tempo de desenvolver nenhuma dessas análises. É um filme que envolve e confunde, mas não atinge, diferentemente do mangá. É uma pena.