Metáfora

em 18 de março de 2014

Se o olho mágico já revela a visita indesejada, é só ao abrir a porta que percebo que o infeliz porta, de fato, galochas. Não fossem estas sinal suficiente de sua decrepitude, vale descrever a camisa rasgada, os óculos sem uma das lentes, a testa que sangra, a alça desprovida de mochila no ombro, algo que parece a torta estrutura duma antena parabólica numa mão e, infelizmente, três folhas de papel reciclado na outra.

Acho que qualquer pessoa teria medo do objeto metálico e cheio de pontas que traz em sua mão esquerda, mas eu temo as malditas folhas. Desde que se mudou para o mesmo bairro que eu, ele anda três quadras todos os dias para me mostrar uma nova ideia entre suas “mal traçadas linhas”. O chavão não é meu: ele sempre o repete. Usa papel reciclado, pois sente que assim reduz o impacto de seus rascunhos no meio ambiente. Se eu sugerir o papel adequado às merdas que escreve, a amizade acaba.

Nem pergunte.

Não pergunto. Mas ele vai…

Sabe o que me aconteceu?

…falar de qualquer jeito. Por horas e horas e horas. Até eu sacar que aquilo tudo dá um conto.

Eu vim de galochas porque a moça da previsão do tempo mandou. aham Na real, ela não mandou: só disse que estavam previstos temporais. Como prevenir é melhor do que remediar, você bem que podia prevenir alguns dos clichês, né? menos trabalho pro revisor além das galochas trouxe um guarda-chuva, que nem posso mais chamar assim, porque não guarda mais nada. A primeira quadra foi tranquila: tirava o casaco quando pegava sol, botava quando um prédio fazia sombra e dava pra sentir o vento gelado, tirava quando tá, eu já saquei: preciso mesmo saber quantas vezes você tirou e botou? a sombra da casa do outro lado da rua não me atingia, botava quando chegava nas partes com sombra, et cetera e et cetera. Até aí, tudo bem, ok: já, já chega a parte que “daria um conto” né? Na segunda quadra, começou uma garoa fininha, daí eu abri o guarda-chuva, mas, como ela era tão fininha e eu era o único de guarda-chuva aberto na rua, fechei logo em seguida, mas, de repente, ai, lá vamos nós de novo começaram a cair pingos de verdade e eu abri o guarda-chuva, mas depois percebi que tinham caído de um ar-condicionado e eu me senti mais idiota ainda e fechei rapidão ele, mas daí começou a chover forte mesmo e todo mundo que tava sem guarda-chuva começou a correr e aí eu abri o guarda-chuva e atravessei a rua pra enfrentar mais uma quadra até aqui.

Ele respira um pouco, finalmente. Fico aliviado porque o relato já está na terceira quadra. Ou seja: só falta um terço da história.

Foi então que hmmm, um “foi então” no lugar de “daí” ou “aí”, maravilha apressei o passo: sabes bem como odeio tempestades. O barulho das gotas d’água no tecido impermeável aumentava gradativamente, e crescia junto a ansiedade por encontrar o seu prédio logo, ao virar a esquina. No entanto, no meio da quadra, caiu algo logo na minha frente , que julguei ser um pássaro. Mas era um sapo. E não foi o último a cair. já entendi: você viu o filme Magnólia, sonhou com ele e achou que a ideia era sua Numa rua sem marquises, só pude me desviar e utilizar o guarda-chuva como proteção. Assim que a quadra acabou e virei a esquina, deparei-me com o que parecia ser o início desta última quadra, novamente. Em vez de sapos, choviam cordas. Grossas cordas de juta, creio eu. Algumas com nós nas pontas, mãos prontas para um soco. A mesma dor resultante, ao menos. Correndo, cheguei à esquina e, ao contorná-la, a quadra se reiniciava. Pude decorar o nome de todos os estabelecimentos da face única do quarteirão. As chuvas, no entanto, são mais difíceis de listar. Choveu amarelo, e as nuvens pareciam vacas urinando. Choveram alabardas e foi então que perdi a mochila e, quase, a vida. Choveram cães e gatos: estes mais perigosos do que aqueles, ao caírem com as garras estendidas. Choveram aprendizes de sapateiro, ainda costurando solas de coturnos. Choveram velhinhas com porretes nas mãos. Choveram trolls fêmeas – as saias, o batom e os cílios com rímel denunciavam o sexo. Antes, choveram alguns rapazes sem nada em especial e temi que toda aquela maluquice consistisse num preâmbulo para algum clipe do Village People – mas, de pronto, choveram as trolls e fiquei mais tranquilo. Choveram pernas de cadeiras. Outras chuvas se sucederam, mudando sempre que virava à esquerda, na esquina. Confesso que não me recordo de todas. Lembro, no entanto, que compreendi tudo quando começou a chover canivetes: poucos fechados, a maior parte exibia algum apetrecho: abridor de garrafas, cortador de unhas, tesouras, lâmina serrilhada, bússola. Um saca-rolhas quase me arrancou o olho. ”Chover canivetes” eu sei o que significa. E a circunstância de ver canivetes caindo de fato lembrou-me da aulinha sobre metáforas que você me deu.

“Sim: que metáforas são figuras de linguagem diferentes da comparação e da símile, pois não dizem que algo ‘é como’, ou ‘se assemelha a’, outra coisa, mas estabelecem uma relação direta entre aquele algo e esta outra coisa.”

Aí que eu desconfiei de tudo e gritei CHEGA DE METÁFORAS! Daí parou tudo. E eu consegui virar a esquina e entrar no elevador do teu prédio e pegar minhas mal traçadas linhas dobradas do bolso, que nem tava tão molhado assim. Ah, aí vi que o guarda-chuva tava todo arrebentado.

“Mas que bom que tudo deu certo no final, né?”

Tudo deu certo VÍRGULA. Por trás de toda metáfora tem um escritor. E tem um escritor que tá querendo me matar! No elevador eu fiquei pensando com meus botões quem daria bola pra mim, pra me incomodar desse jeito. Não fazia ideia até perceber que a parte mais doida do que me aconteceu uma hora antes ficou com umas frases esquisitas quando eu comecei a falar. Como se alguém só quisesse saber daquela parte mesmo e roubar pra usar depois. Aquela palavra, preá, perâmbulo… prêambulo! Então: foi a gota dágua.

*

Já que ele me representou no conto pelo itálico, vou manter a coerência: foi aí que matei o arrogante filadaputa.

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2 comentários para “Metáfora

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