A bolha

em 19 de março de 2014

As ofertas estão em todos os lugares. Para qualquer jovem casal é irresistível não apaixonar-se por um desses novos empreendimentos com churrasqueiras, áreas de lazer em comum, piscinas e saunas, a academia logo no térreo, a varanda lacrada à prova de balas e paredes em tonalidades de branco estéril e amarelo hepatite. Um saldão de novas moradias a preço de banana. E podem até pechinchar parcelas por trinta anos direto com a construtora, pagando mais da metade do preço de um milhão de reais na planta, antes mesmo do terreno estar assentado.

Mas peço que me ouçam por um instante. Algumas linhas não lhes farão mal e vocês não perderão a visita aos pré-decorados. Antes de fecharem com a construtora, visitem apartamentos usados e deem preferência àqueles cuja data de construção seja do período pouco antes da ditadura. Não somente pelo charme de seus halls de entrada ou seus elevadores com portas manuais. Há muito mais nesses idosos imóveis do que a aparência “vintage”.

Meus sábados no último ano se dividiram entre cuidar da casa e visitar imóveis. A procura era por um apartamento no centro de São Paulo para comprar. Entre as exigências estavam uma cozinha de tamanho respeitável, uma possível varanda (facilmente substituível por uma janela grande na sala) e uma localização privilegiada pelo transporte público. Além, claro, de espaço. Muito espaço.

Em uma dessas visitas, vocês talvez conheçam o Ian. Dançarino de musicais adaptados da Broadway que fez um belo pé de meia em turnês pela Ásia e Austrália. Depois de idas e vindas, cansou das turnês e pretende se dedicar a uma nova profissão: professor em escola pública. Comprou um apartamento na República, centro de São Paulo, reformou da maneira que sempre quis. Trocou a sala de lugar com o quarto, fez uma cozinha tamanho família – para um solteiro é extravagante – e recebe familiares em um quarto improvisado nos fundos. O preço era quase simbólico. Só precisava recuperar aquilo que investiu para pagar a outra parte do apartamento já adquirido.

Perto de Higienópolis conheci a cabeleireira Célia. O apartamento era no primeiro andar de um prédio baixo e em uma pequena caminhada chegava-se à Santa Casa ou à Consolação. Era um pouco longe do metrô, mas o preço forçava a visita. Célia deixava o pequeno rádio de pilha na cozinha tocando sermões de uma rádio evangélica enquanto recebia as visitas dos interessados em seu imóvel. Ela pouco falava. Contava laconicamente o porquê de ter pintado a parede de um quarto, trocado o azulejo do banheiro, entre outros pequenos detalhes. Sentei no sofá por pedido informal das pernas. Esse ato tão simples de repouso soou para a dona do apartamento como um convite a ouvir-lhe. E ouvi. Contou sobre suas viagens ao exterior (graças a Deus), sobre a sorte de conseguir criar os filhos quase sozinha (graças a Deus) e sobre o ex-marido que a deixou sem nada.

– Embora com uma moça melhor, Deus sabe.

Célia venderia aquele apartamento para pagar a faculdade da filha, que iria morar com o pai, e o resto seria usado para recomeçar seu salão em outro lugar. Talvez no interior, ou no exterior, caso consiga renovar o passaporte – não se planejou, estava nas mãos de Deus.

Perto do Minhocão existe um jovem casal, unidos pelo matrimônio há cinco anos. O irmão da esposa mora com eles. Eles ficam no primeiro andar e comem pão com queijo no café da manhã. Abrem a porta para os visitantes do sábado interessados naquele apartamento. A moça esconde o braço que lhe falta – o que torna insistentes os olhares involuntários. Os cômodos soam como devem soar: de um casal recém-casado que quer se mudar. Eles não tem histórias próprias, mas falam do vizinho da frente. Casado, sete filhos, a mãe morando junto e o apartamento em reforma. Entramos, curiosos, e vimos uma espécie de cortiço. O banheiro tinha um vaso sanitário não instalado. A cozinha era inclinada como um escorregador. O quarto das crianças era rabiscado.

– Ele não deixava as crianças saírem. Ficavam brincando aqui dentro, não iam a escola. Às vezes dava para ouvir eles rezando. Saíram daqui depois que a polícia derrubou a porta.

O odor era de roupa guardada molhada.

Lá na Alameda Itu, entramos em um prédio pouco chamativo indicado por um corretor que não me acompanhou. Ao passar pela pesada porta de madeira, aberta por uma senhora de 90 e lá vai anos chamada Alzira, que carrega junto ao corpo seu cilindro de oxigênio, deparei-me com um templo de totens tomando a sala como um todo. Eram Budas e Ganeshas para um lado, santos católicos para outro, Iemanjás e Oxuns perto das plantas, e quadros de Jesus Cristo disputando por um espaço na parede junto a cavalos em uma praia. Alzira disse, sem eu precisar perguntar, que não, não era religiosa.

– Não, não sou religiosa.

Ela só achava bonito e poderia deixar lá caso eu quisesse. O plano da filha de Alzira era levá-la para morar na praia, em Santos, um desejo antigo que poderia ser realizado agora. A moradia no litoral estava garantida há mais de um ano, mas as duas precisavam se desfazer daquele apartamento de 40 anos e evitar despesas adicionais. Alzira não tem netas. Apenas a filha e o apartamento. Ninguém ficaria com ele depois, tampouco com a decoração de sua sala.

São Paulo está nessa enxurrada de saldões de imóveis. Um mais em conta que o outro. Fica difícil dar atenção às moradias semi-usadas ante os novos bairros de 4 torres e 8 espaços de convivência tão grandes que exercitam a sociabilidade cada vez mais antissocial. E que de pouco servem para descobrirmos os nomes e histórias de nossos vizinhos.

2 comentários para “A bolha

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