Sobre homens e ilhas

em 26 de novembro de 2014

“Nenhum homem é uma ilha” é um verso da Meditação XVII de John Donne, poeta inglês do século XVI. Também é um dos clichês preferidos da humanidade, repetido há tanto tempo que se torna difícil não acreditar que exista ali alguma verdade. No entanto, é uma tremenda mentira.

Alguns homens são, sim, ilhas. Alguns homens por quem passei eram definitivamente ilhas.

Nem toda ilha é minúscula, perdida e inalcançável no meio da imensidão do atlântico. Nem toda ilha tem por população apenas um pobre náufrago e um índio chamado Sexta-feira. Algumas ilhas são habitadas por cinco mil pessoas e podem ser alcançadas por simples oito horas de ônibus até Angra dos Reis, seguidas de uma hora e vinte em um catamarã.

Ilha Grande tem 193 km², é entupida de pousadas, hotéis, restaurantes e turistas estrangeiros. Não é escondida, difícil de alcançar e nem corre o risco de ocultar qualquer tesouro pirata. Ainda assim, estando lá, o isolamento se torna, de alguma maneira, o norte da sua experiência.

A questão sobre uma ilha, e sobre pessoas que são ilhas, é que ela pode estar próxima, mas está irremediavelmente separada. Entre Angra e Ilha Grande existem apenas doze quilômetros de distância, mas há uma diferença enorme entre essa distância em terra ou no mar. Eu poderia repetir um milhão de metáforas feitas pela história da literatura a respeito do mar como algo insondável, enigmático, temível. O mar, sob a forma de uma baleia branca  ou do risco de um naufrágio, sempre esteve como a fronteira da natureza onde o homem pisa apenas de forma muito hesitante.

Para termos de comparação: o ponto mais alto da terra (no caso, o Everest) foi alcançado 2552 vezes mais do que o ponto mais profundo dos oceanos (a Fossa das Marianas, em algum lugar perto das Filipinas). Não me lembro de muitas crianças que aprendam que devem temer a areia, as árvores ou mesmo animais da mesma forma que pais apavorados em cidades litorâneas lhes ensinam que devem temer o mar. O mar é sempre algo a ser abordado com ressalvas, é sempre importante lembrar que ele está no controle, não você.

Estar em uma ilha é, portanto, estar cercado da impossibilidade de controle por todos os lados. Você pode estar pertíssimo do continente, uma distância caminhável em cerca de duas horas. Mas você está separado do continente.

Ilha Grande é, além de, óbvio, uma ilha, um parque de conservação ambiental. Isso quer dizer que seu interior não pode ser cruzado por estradas nem povoado por mais do que alguns casebres e pousadas ecológicas. Sobram assim duas formas de locomoção para o habitante, mesmo que temporário, da ilha: barcos ou trilhas. Nenhuma das duas exemplos de praticidade.

Durante os quatro dias em que estive lá, quase arranquei um pedaço do meu dedão em uma trilha, depois quase tive um espasmo mortal dos meus pulmões fumantes em outra trilha e passei mais ou menos 40 minutos em uma negociação com um barqueiro que superou até minha paciência muito treinada em diversos bazares árabes.

Não é a primeira vez que tenho a experiência de estar em algum lugar onde se deslocar é algo pouco óbvio. Em abril estive em Pipa, em uma pousada que ficava literalmente isolada quando a maré subia. De repente todos os seus horários, planos e vontades ficavam condicionados a algo totalmente externo, e a possibilidade de sair ou não do lugar era variável.  Em Ilha Grande, eu estava em uma praia pequenina, composta apenas das espreguiçadeiras e mesas de plástico colocadas pela minha pousada, e a sensação de isolamento era enorme.

Para alguém que vive há anos em São Paulo, saber que é simplesmente impossível chegar em algum lugar é uma situação estranha. Eu já estive as voltas com dificuldades outras vezes, já desisti de ir a Montenegro porque os ônibus naquela parte do mundo gostam muito pouco de respeitar cronogramas, já tive a complexa travessia da Sérvia pra Bósnia, mas tudo isso é muito diferente da sensação que me dava aquela enseada encravada em uma ilha cuja única saída era praticamente o mar.

Uma ilha pode ser razoavelmente alcançável, algumas ilhas são até mesmo países inteiros, mas ainda assim, chegar nelas é algo que te faz pensar, algo menos óbvio que qualquer deslocamento dentro do continente. Quando fui a Malta não escolhi quantos dias ficaria lá, simplesmente aceitei a frequência dos voos. Afinal, eu não poderia partir de ônibus ou trens ou mesmo bicicleta. Eu poderia, no máximo, pegar um barco até a Sicília.

Algumas pessoas, como eu comecei dizendo, são sim ilhas. Elas são alcançáveis, mas estão irremediavelmente separadas de todo o resto. Chegar a elas pode não ser difícil, mas é pelo menos um pouco inconveniente. Viajando, eu sempre tive a sensação de ser um pouco ilha – você fala com pessoas, conhece gente, interage, mas está tão claramente separado. Viajar sozinha por muito tempo foi para mim como a experiência de ser uma pequena ilha tentando ser autossuficiente: claro que você interage, mas seria ideal conseguir resolver-se em si mesmo.

De volta, eu quase me admiro com a facilidade com que cruzo 5,2 quilômetros (informação do google maps) entre Santa Cecília e o Itaim. Um ônibus e uma Rua Augusta. E menos reflexões sobre a possibilidade de alcançar outros seres humanos.

Um comentário para “Sobre homens e ilhas

  1. Me identifiquei. Não por ser de difícil acesso, mas por odiar a sensação que as vezes estou.
    Como a vida cria barreiras nas nossas relações, principalmente as familiares, parece as vezes que estamos separados por um continente, quando outrora você dividia o mesmo espaço.

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