Tá tendo muita Copa na Bósnia

Então eu cruzei pro outro lado da Europa

Em Budapeste, há sapatos na beira do Danúbio. Sapatos de homens, mulheres, um par de botinhas de criança, sapatos de salto, botas descosturadas, um único pé abandonado de uma sandália. Sapatos de bronze modelados com base nos que foram deixados pra trás por pessoas atiradas no rio durante o Holocausto.

Eu detesto museus do Holocausto. É preciso lembrar, eu sei disso, repito para mim mesma, repito para quem quiser ouvir, repito quase como um mantra: é preciso lembrar, ou, mais precisamente, é preciso não esquecer. Ainda assim, parte de mim rejeita a ideia de entrar em um museu cujo objetivo é fazer eu me sentir mal por algumas horas.  Leia mais

Como eu perdi meu passaporte?

Não entre em pânico. Lição que já me foi útil enquanto encarava os rótulos de um supermercado húngaro. Não entre em pânico. E não perca o passaporte, mas se perder, não entre em pânico.

Don’t panic é a maior lição da literatura. Esqueça todo o resto, de O pequeno príncipe a Goethe, ninguém te dará um conselho tão sábio quanto este. Não entre em pânico e tenha sempre uma toalha ao alcance que tudo vai ficar bem, seja você um mochileiro das galáxias, da Europa ou de qualquer universo conhecido.

Pelo menos foi isso que eu tentei pensar quando percebi que não tinha mais um passaporte.  Leia mais

Como se perder em um micro país

Malta é um pequeno país composto por algumas ilhas entre a Sicília e o norte da África. Das duas ilhas principais, a menor delas eu pude ver inteira do alto do avião, a maior tem 23 km de diâmetro. Como bem notou um espanhol com quem eu dividia uma garrafa de vinho no sábado a noite, se você quiser correr uma maratona, precisa atravessar o país duas vezes. Ainda assim, o que eu mais fiz por lá foi me perder.

Confesso minha parcela de culpa. Eu realmente, realmente, preciso começar a salvar um Google maps de onde preciso ir antes de sair sem rumo do aeroporto. Mas eu sempre confio que um endereço e um balcão de informação me levarão ao lugar certo. Bom, nem sempre.  Leia mais

Uma mochila quebrada e uma igreja medieval

Dois dias atrás, eu estava sentada no chão do hostel contemplando minha mochila quebrada. Por qualquer motivo que fosse, queria escrever minha próxima coluna sobre a mochila quebrada. Me parecia poético, prosaico, o que quer que seja, a matéria de que ensaios são feitos, quem sabe? Se pode sobre feira de exposições no meio-oeste americano, por que não uma mochila quebrada?

Ao mesmo tempo queria falar sobre como ao visitar só Paris, que foi toda derrubada e reconstruída por Napoleão no século XVIII, esquecemos que a Franca é um país fundamentalmente medieval. Sobre como e possível derrubar e mascarar toda uma historia e deixar dela apenas um museu e um bairro de ruazinhas enoveladas porque ali morava judeus então não precisa reconstruir não.

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Sobre a importância emocional dos aeroportos   

Quando eu era criança, aeroportos eram possivelmente os lugares que eu mais detestava. Mais que a escola, mais que o dentista, mais que ir tomar vacina. As filas, o tédio sem fim, a falta de lugar para sentar e o desconforto do único lugar possível para se sentar (o carrinho de bagagens), ter que carregar minha mochila, sempre pesada, enquanto minha mãe perdia horas experimentando maquiagens e perfumes…

E tudo isso apenas para entrar em um avião e enfrentar mais infinitas horas de tédio.

Por isso me surpreendi muito quando percebi que havia desenvolvido um grande afeto por aeroportos. Hoje em dia gosto muito deles.

Percebi isso enquanto subia a escada rolante de algum aeroporto que agora não me lembro qual é. Chutaria Ezeiza, em Buenos Aires, mas não tenho certeza. E isso porque, e está aí parte do motivo para eu gostar deles, aeroportos são todos iguais. Leia mais