A Divina Comédia dos Mutantes

em 18 de março de 2009

Ser louco não bastava nos Mutantes. Não adiantava apenas pensar ser Deus. Para a maior banda de rock que o Brasil já teve, ser louco era a ponta do Iceberg. O que começou como loucura pela música, pela cultura hippie e pelo amor quase terminou, em 1982, como uma trágica tentativa de suicídio, causada por essas loucuras vividas.

Carlos Calado abre o livro “A Divina Comédia dos Mutantes” falando sobre o ano novo de 1982, quando Arnaldo Baptista quebra a janela de vidro da ala psiquiátrica do Hospital do Servidor Público. Resultado: Edema pulmonar e cerebral, setes costelas fraturadas, lesões pelo corpo, enfim, o anúncio de um possível coma. Rita Lee, ex-Mutante e ex-do Mutante, saiu às pressas de casa sua casa, no bairro Paraíso, quando soube da notícia. No caminho diversas lembranças sobre Arnaldo vinham à cabeça.

Calado começa pelo fim e volta aos primórdios, bem antes dos Mutantes surgiram, para contar a história de cada integrante e como chegariam a formar o trio. A começar por Sérgio e Arnaldo e os Wooden Faces, lembrando das brincadeiras, apelidos e tardes ouvindo música, um típico retrato de meninos da classe média dos anos 60. Dona Clarisse, a mãe dos irmãos Baptista, era uma talentosa pianista que até gravou “Senhor F…”, do álbum de debute da banda, e o Dr. César, o pai deles, era jornalista, escritor e tenor. Com uma família dessa, seria muito fácil conseguir explorar a música e qualquer outra arte debaixo do teto dos pais. A história de Rita vem em paralelo, seus pais se apaixonando, as brigas com suas irmãs e seu carisma irrepreensível que faziam todos gostar daquela ruivinha sardenta.

A ruiva, como boa beatlemaníaca, foi ver um show dos Wooden Faces, que cantavam ie-ie-ie. Rita e Arnaldo apaixonaram-se e seguiram um namoro firme que depois virou um casamento turbulento devido ao paradoxo de amor livre e ciúme (sem ressaltar as drogas entre esses extremos).

A amizade se tornou musical e os três formaram O Kojunto que meses depois viraria Os Mutantes graças a uma sugestão de Ronnie Von, inspirado por um livro de Stephen Wul chamado “O Império dos Mutantes”. Por quase um ano foram do elenco fixo do programa até a TV Record, que o transmitia, mudar a direção artística. Após a dispensa convites de diversas emissoras, artistas (Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rogério Duprat) e festivais apenas fizeram crescer a popularidade do grupo que gravou álbuns de diversas fases passando da tropicália ao progressivo – fugindo também de suas mais fortes influências.

Como toda banda que abala os alicerces de uma geração, eles começaram a entregar-se cada vez mais suas inspirações a piras com LSD e outros tipos de tóxicos, distanciando-se uns dos outros e criando diferenças irreparáveis. Rita Lee saiu da banda em 1972 depois da gravação de “Mutantes e seus Cometas no País de Baurets” (dedicado ao amigo da banda, Tim Maia, que chamava os cigarros de maconha de baurets) para dedicar-se a carreira solo, apesar de seu primeiro álbum “Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida” ser creditado apenas a ela, todos Os Mutantes gravaram e ajudaram nas composições. A banda se rompeu e teve diversas outras formações, apenas Sérgio era fixo.

Extravagantes, excêntricos, loucos, nonsense e inefáveis, Os Mutantes conseguiram seu espaço desafiando a estética e os ouvidos da música, admirados por Kurt Cobain e Devendra Banhart. E mesmo com Calado despejando curiosidades, como o método de deixar o cabelo ruivo de Rita Lee e até mesmo os jantares na casa da família Baptista (onde regurgitar era um hábito) , durante as histórias e evidenciando, além da loucura e do desprezo para qualquer tipo de rótulo, a genialidade da banda, ainda assim Arnaldo dizia, e tinha razão; “Ninguém entende a gente e isso é ótimo”.

CALADO, Carlos. A Divina Comédia dos Mutantes. São Paulo: Editora 34, 1ª Reimpressão, 2006. 358 págs. Preço sugerido: R$ 50,00

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