Gatos Empoleirados – O verdadeiro ensaio sobre a cegueira

em 16 de novembro de 2011

Pensei que ao morar em outro país eu aproveitaria cada minuto para circular pelas ruas, conhecer pessoas e lugares obscuros. Longe disso. Essa semana, que marca minha despedida de NY, eu acabei optando por permanecer em casa e sem grandes aventuras – para me acostumar com a ideia de que logo menos esse não será o meu lar. Diferente de grande parte das pessoas que estudaram comigo, planejei vir a essa cidade e após terminar o curso assistir a algum show que sempre tive vontade. A banda escolhida da vez foi o Foo Fighters e creio que ela dispensa apresentações. Desde que conheci sou fã devoto e acredito ser uma das poucas bandas que tenho todos os álbuns físicos e que me pego cantando do nada. Os músicos liderados pelos ex-baterista do Nirvana, Dave Grohl, tinham um show agendado para o dia 13 de novembro, quase duas semanas após eu terminar o curso, mas mudei minha passagem porque já tinha o ingresso em mãos. Não falarei do show aqui, se quiserem saber detalhes vejam minha resenha no Judão.

Muitos dos conselhos que alguém recebe quando viaja para o exterior é aproveitar coisas que não estão sempre a disposição no Brasil, algumas delas são os diversos concertos que rolam por aqui e são para todos os gostos: Blondie, Katy Perry, John Forgety, o próprio Foo Fighters e muitas outras. Comparado com o Brasil, o custo-benefício é incrível, fiquei num lugar ótimo no Madison Square Garden pagando apenas 60 dólares. E os ingressos de cambistas – sim, eles estão entre nós – variam de 80 a 120 dólares. Fazendo a conversão – algo que eu não aconselho a ninguém, pois parece que os gastos são à toa – sai mais em conta do que assistir qualquer show da área VIP em São Paulo, por exemplo.

Bom, como a última semana em NY, eu não sabia exatamente o que fazer: turistar? fazer compras? ou simplesmente torrar o meu dinheiro em bebida? Uma sentença do conto “Forever Overhead”, de David Foster Wallace, presente em Breves entrevistas com homens hediondos, latejava na minha cabeça: ”You can’t kill time with your heart. Everything takes time. Bees have to move very fast to stay still.”. Esperei o tempo enquanto eu decidia meu destino nos sete dias decorrentes entre um livro ou outro – entre os que eu adquiri estão The Broom of the System do DFW (notaram que ele está em todas ultimamente) e Não há nada lá do Joca Terron que eu trouxe do Brasil – e assistindo as intermináveis maratonas na televisão americana – só de zapear os canais: Saga Crepúsculo, Buffy – A Caça Vampiros, Harry Potter, How I Met Your Mother, That’s 70’s Show, entre outros.

Após treinar a procrastinação (ouvi uma lenda de que é esporte em alguns países), marquei com o Daniel um Happy Hour depois da aula dele. Entre uma bebida e outra, eu prometi escrever um roteiro para um dos projetos que ele iria realizar na NYFA e que eu não estaria presente para acompanhar as gravações. A história é sobre um menino mudo – ele não sabe que é mudo – que ao desmaiar andando pela rua um dia acaba ganhando o dom de conversar com seu gato, Bug (inseto). Todavia, o bichano não é uma das melhores companhias, além de recitar Borges a todo momento, o felino aconselha que a única maneira do menino conhecer a verdade sobre o mundo é se ele matar a mãe, Norma. Após aprovado por toda a equipe do Daniel, me senti aliviado de ter o “trabalho” reconhecido, apesar de não receber um centavo por isso.

De qualquer forma, permaneci em repouso após as inúmeras visitas da última semana e depois de escrever um roteiro em cerca de um dia. A mulher que aluga o apartamento para mim, Nadja, estava fora do país e eu nem me dei conta do tamanho entra e sai que realizei para satisfazer os passeios turísticos junto da minha família. Ao pisar no apartamento, ela me falou sobre um projeto alemão que ronda o mundo muito interessante, chamado Dialogues in the dark.

Dialogues in the dark é um experimento onde os seus participantes pagam para ficarem cegos durante uma hora e meia, mais ou menos. Com todos os pagantes vendados, uma pessoa os guia pela cidade para ensiná-los a usar os outros sentidos que ainda restam. Devo dizer que é muito perturbador, porque a partir do momento em que você não tem visão, não consegue direcionar sua atenção para um ponto específico. Tudo está ao seu redor: sirenes, buzinas, gritos, metrô, vento e muito mais, tudo ao mesmo tempo, no mesmo local – tudo tentando se comunicar com você. Ou mesmo tocar simples objetos ou comida (café, milho e feijão) e tentar distingui-los apenas com o tato e olfato. Então a prova de fogo chega quando o participante deve sentar num bar e pedir a bebida (verificar se está certa) e pagar (e verificar se o troco está certo apenas tocando as cédulas e as moedas). Acabei conhecendo a cidade sem os meus olhos – se acostumar com a escuridão é indescritível – e também quase enlouqueci com o bombardeio de ruídos produzidos pela cidade. Uma experiência muito boa para quem tiver a oportunidade de estar em algum lugar do mundo em que o programa seja executado.

Por mais clichê que pareça, somos obrigados a concordar que quando perdemos algo é que damos valor a ele. Eu ainda não estou dando muito valor a Nova York – ou o tanto que ela merece -, mas com certeza sentirei falta de tudo que aconteceu por aqui (desde às visitas até as doze horas de aula) e pelos amigos formidáveis que fiz sem muito esforço – indianos, venezuelanos, americanos e brasileiros. E agradecê-los pelas ótimas conversas de bar ou de corredor.

Portanto, semana que vem não haverá coluna, Gatos Empoleirados volta a ser mensal como todas as colunas do Meia Palavra – quem sabe eu não mudo de ideia e a transformo em semanal mesmo e falo sobre São Paulo, meu lar.

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