John Steinbeck

em 27 de fevereiro de 2012

Hoje faz 110 anos que John Ernst Steinbeck Jr. nasceu. Em 27 de fevereiro de 1902, na cidade de Salinas, estado da Califórnia, o filho de John Ernst Steinbeck e Olive Hamilton vinha ao mundo.

A infância de um dos mais conhecidos autores estadunidenses se desenrolou basicamente na propriedade familiar dos pais, onde ele aprendia tanto a lida agrícola com o pai, quanto recebia a educação formal pelos métodos severos da mãe, complementado pelo ensino na Salinas High School. Os tenros tempos de sua infância são a base de muitas de suas histórias, onde ele explora o caráter bucólico e idílico da vida rural.

Em 1919 Steinbeck termina os estudos na Salinas High School e parte de lá para a Universidade de Stanford para estudar Jornalismo, embora saia de lá em 1925 sem ter concluído o curso e conquistado um diploma. Steinbeck chegou a viver em Nova York por algum tempo, vivendo de bicos, morando de favor em casas de amigos e buscando seu lugar ao sol no mundo do jornalismo. As tentativas de se estabelecer como repórter na metrópole não dão certo, que volta à Califórnia e trabalha em diversas atividades ligadas ao campo enquanto continua escrevendo nas horas vagas.

O talento narrativo de Steinbeck e sua capacidade de contar histórias é algo que se manifestou desde os tempos de colégio, onde seu dom para articular tramas e construir enredos já era notado por alguns professores. Durante o tempo que ficou na universidade, Steinbeck bebeu mais das fontes literárias do que propriamente das jornalísticas. Ele leu muitos livros, alimentou-se da tradição literária norte-americana, desde Walt Whitman e Thoreau até os mais recentes Fitzgerald e Hemingway, e inclusive chegou a deixar de assistir às aulas de seu curso para comparecer às disciplinas onde pudesse se nutrir dessa que vinha cada vez mais se tornando sua paixão.

No final da década de 30, Steinbeck conheceu sua primeira esposa, Carol Henning, com quem vem a casar em janeiro de 1930. Os dois viveram uma vida frugal na casa do pai de Steinbeck em Pacific Grove, próxima ao mar, local onde Steinbeck, além de escrever com alguma disciplina, passava boa parte do tempo conversando com os grupos de vagabundos e mendigos que perambulavam pela localidade.

O casamento fora financeiramente possível porque, entre pequenas contribuições para jornais, Steinbeck tinha conseguido reunir vários pedaços de uma história sobre o bucaneiro Henry Morgan, e, em 1927, publicado seu primeiro romance: The Cup of Gold (O berço de ouro, no Brasil). O livro obteve pouco sucesso, mas abriu alguns caminhos para Steinbeck, que conseguiu trabalhos como jornalista, escrevendo, entre outros jornais, para o San Francisco News, jornal pelo qual irá viajar pelos Estados Unidos (num velho caminhão de padaria) para cobrir a situação dos despossuídos que se avolumavam pelas rodovias no rescaldo da Grande Depressão.

A experiência de conviver e conversar com esses sujeitos – tidos pelo senso comum como indesejáveis e preguiçosos – afetou profundamente o autor, como pode ser percebido na coletânea de artigos The Harvest Gypsies (Os Ciganos da Colheita, sem tradução). Tamanha foi a impressão que esse contato causou em Steinbeck, que depois de ter escrito três romances sobre as belezas da vida rural californiana (As Pastagens do Céu, O Menino e o Alazão e Ao Deus Desconhecido) e um sobre o dia-a-dia de um grupo de vagabundos (Boêmios Errantes), ele resolve escrever um livro onde a situação de miséria a que esses sujeitos são submetidos seja denunciada e mostrada em toda a sua crueza e injustiça.

Se com Boêmios Errantes, publicado em 1935, Steinbeck chamara a atenção da crítica de maneira mais contundente do que com suas obras anteriores, em 1936, com a publicação de Luta Incerta, ele definitivamente fez com que os holofotes se voltassem para ele. Não necessariamente por seus méritos literários nesse caso, mas porque, no abismo econômico em que estava o capitalismo estadunidense, o autor falara de forma simpática a respeito das idéias comunistas. Vale lembrar que a Crise de 1929 causou um turbilhão de questionamentos nos Estados Unidos, suscitando em diversos lugares movimentos de contestação e manifestações que reivindicavam mudanças, de modo que a direita e os grupos conservadores logo se armaram para evitar a radicalidade de qualquer um desses movimentos. Não à toa que Steinbeck tenha causado tanto rebuliço com o livro. Ele não cantava loas ao comunismo, mas naquele contexto a simples menção desse tema – e a menção de Steinbeck estava longe de ser desfavorável às tais ideias e incertezas que lhe seguem – assumia proporções grandiosas.

Em 1937 foi publicada uma de suas obras mais conhecidas, Ratos e Homens, que conta a história de dois trabalhadores agrícolas com dramaticidade e pungência. O livro fez sucesso pela atenção demandada ao autor por conta de seu livro anterior, mas foi em muito ajudado pela adaptação teatral que contou com a participação de Burgess Meredith. De qualquer forma, a novela de 37 se mantém como uma das melhores obras do autor.

Já contando com crédito junto a sua editora e com uma solidez maior no que diz respeito a suas condições pecuniárias, Steinbeck lança uma coletânea de contos em 1938, O vale sem fim, uma verdadeira reunião dos temas recorrentes de suas obras através de histórias curtas. Esse livro era a última parada antes de sua opus magnus, As Vinhas da Ira, lançada em 1939, e que valeu a Steinbeck não só o Prêmio Pulitzer mas o reconhecimento amplo da crítica. Mesmo aqueles que costumeiramente repudiavam seus escritos admitiram que o romance em questão entraria para a história literária dos Estados Unidos cedo ou tarde.

Há quem diga que As Vinhas da Ira foi o primeiro e último grande romance de Steinbeck. De fato, o lastro mais pujante de suas idéias e de matéria-prima fora a década de 30. Ainda mais quando postos diante da década de 40, os anos 30 tem muito mais peso na obra do autor.

No início dos anos 40 Steinbeck parte com seu amigo Ed Ricketts, um biólogo marinho, para uma expedição pelo golfo californiano em direção ao sul, para explorar as regiões costeiras e recolher espécimes de animais marinhos para enviar aos laboratórios de estudos. A viagem lhe rendeu um diário, publicado em 1941 (mesmo ano em que sai também o filme-documentário The Forgotten Village [A Vila Esquecida, sem tradução]), que flerta com a Biologia e que constrói uma visão interessante sobre a raça humana e a natureza como partes constituintes de um todo e ligadas por infinitos e misteriosos laços.

O casamento com Carol já não mais andava às mil maravilhas, e em 1942 os dois se separam. 1942 também é o ano em que Steinbeck se casa com Gwyn Conger, mulher com a qual irá viver até 1948, e com a qual teve seus únicos filhos, Thomas Myles Steinbeck, nascido em 1944; e John Steinbeck IV, nascido em 1946.

A década de 40 encontrou John Steinbeck buscando uma forma de intervir na guerra, que se desenrolava desde 1939. O autor viajou para o teatro europeu de operações como correspondente de guerra, conviveu com os soldados e observou seu cotidiano e os horrores e experiências pelos quais passavam. O resultado desse “esforço de guerra” foram duas obras: Bombs Away (Soltar Bombas!, sem tradução), propaganda para o “esforço de guerra” e Once there was a war (Era uma vez uma Guerra, sem tradução), onde narra em forma de diário o que viu e sentiu a respeito do conflito e do cotidiano do exército em guerra.

Após voltar para os Estados Unidos, Steinbeck planeja mais uma viagem, dessa vez com Robert Capa para a União Soviética. Eles levam a cabo sua jornada em 1947, e os frutos de sua viagem podem ser vistos no livro Um Diário Russo, publicado em 48. Na volta para sua casa, Steinbeck encontrou Gwyn disposta a divorciar-se dele a qualquer custo, resolução que concluiu nesse mesmo ano. Também em 1948, para aprofundar a tristeza da separação com Gwyn, Steinbeck perde seu grande amigo Ed Ricketts, atropelado por um carro.

Steinbeck publicou outros livros na década de 40, mas, como ele mesmo disse, parecia que estava trabalhando somente em partes quando na verdade queria escrever uma obra que juntasse tudo isso, algo grandioso. Depois de vários livros considerados menores, como A Longa Noite sem Lua, A Pérola, A Rua das Ilusões Perdidas e O Destino Viaja de Ônibus, somente em 1952, dois anos depois de seu casamento com Elaine Scott (com quem ficou até o fim da vida), que Steinbeck voltou a ser aclamado pela crítica e pelo público por conta do certamente grandioso romance A Leste do Éden.

Depois do sucesso que o livro angariou, Steinbeck se envolveu em vários projetos, entre os quais merece destaque um que ele nunca chegou a publicar em vida, The Acts of King Arthur and His Noble Knights (Os Feitos do Rei Arthur e seus Nobres Cavaleiros), romance que buscava traduzir a célebre obra de Thomas Malory, Le Morte D’Arthur, para uma linguagem mais atual, buscando tornar mais acessíveis as formas arcaicas do inglês do século XV com as quais o livro fora escrito.

Durante a década de 50, vivendo um período de estabilidade como poucos de sua vida foram, Steinbeck e Elaine passaram boa parte do tempo em Nova York, viajando frequentemente à Califórnia e, inclusive, para a Europa. A Europa representou material para sua sátira O Curto Reinado de Pepino IV (parte 1parte 2) e também serviu de inspiração para que as histórias de Malory pudessem criar raízes mais consistentes na mente de Steinbeck.

Steinbeck também viajou para o Vietnã durante o conflito da década de 60 mas escreveu pouco material que tenha realmente ficado mais conhecido (há uma coletânea de escritos cuja publicação está prevista para 2012). Mais conhecida que essa foi sua viagem pelos Estados Unidos, conforme nos é relato em Viajando com Charley, um dos mais belos e sinceros livros de Steinbeck, onde ele se volta largamente à América e investiga o que ficou conhecido como um declínio moral da sociedade estadunidense, também retratado no livro de 1961, O Inverno de Nossa Desesperança. Steinbeck, como remanescente de um “mundo” que já não mais existia, o “mundo” dos anos 30, conseguiu investigar esse tema sem se tornar refém de pura indignação nem fatalismos. Uma esperança inspiradora e uma crença ferrenha na humanidade percorrem as estradas junto com Steinbeck e seu poodle Charley.

A década de 60 foi a época em que, depois de inúmeros anos concorrendo, John Steinbeck foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, fato ocorrido em 1962. A Academia Sueca concedeu a láurea a Steinbeck por “seus escritos realistas e imaginativos, que combinam o humor solidário e uma aguda percepção social.”

Apesar de sua sede de viver e aproveitar o tempo de que dispunha, Steinbeck começou a sofrer com os males da velhice, aliados aos agravos provenientes do hábito de fumar e problemas cardíacos, que culminaram em sua morte, em 1968, pelo entupimento da maior parte das suas artérias coronárias.

John Steinbeck, apesar de todas as críticas que lhe são dirigidas e as comparações (às vezes maldosas) a qual é submetido em relação a outros grandes escritores de seu tempo, em especial os conterrâneos William Faulkner e Ernest Hemingway, nos ganha pela sinceridade e pelo humanismo cativante que emana de todos os seus trabalhos. Seja falando de trabalhadores rurais, de modernos reis atormentados, de heróis da cavalaria ou simplesmente de vagabundos em busca de um pouco de vinho, Steinbeck consegue dar sentimento e vivacidade a seus personagens e aos temas nos quais toca. Apesar do aspecto “durão” e o jeitão meio “casca grossa” que sua aparência e seu comportamento às vezes nos lembram, sua obra é embalada por uma inquebrantável batalha contra a fraqueza e o desespero – como ele fez questão de lembrar em seu discurso na cerimônia do Prêmio Nobel – ao passo que se vale da literatura para trazer à tona a grandeza do coração e do espírito que a humanidade possui e que são suas armas para seguir em frente.

Eis aqui alguns dos valores primordiais para John Steinbeck, e fortes motivos para que todos leiam suas obras, para reconhecer os problemas existentes mas inspirar-se para encará-los de frente sem perder a candura.

* * *

O autor do texto pede que os leitores relevem os arroubos de defesa apaixonada pelo autor, por quem e por cuja obra tem profundo carinho e reverência. Para não alongar demais o texto, não comentei todas as obras e acabei deixando de lado diversos eventos da vida de John Steinbeck. Por conta disso, deixo além da vasta bibliografia produzida por ele, algumas sugestões de livros e materiais sobre o autor, biográficos ou não, que ajudam a compreender melhor quem era, o que fez e que herança nos deixou John Steinbeck.

Bibliografia do autor

1927 – The Cup of Gold (O Berço de Ouro, Record-BR)
1932 – The Pastures of Heaven (As Pastagens do Céu, Livros do Brasil-PT)
1933 – The Red Pony (O Menino e o Alazão, Record-BR)
1933 – To a God Unknown (Ao Deus Desconhecido, Ibrasa-BR)
1935 – Tortilla Flat (Boêmios Errantes, Record-BR)
1936 – In Dubious Battle (Luta Incerta, Record-BR)
1937 – Of Mice and Men (Ratos e Homens, L&PM-BR)
1938 – The Long Valley (O Vale Sem Fim, Record-BR)
1939 – The Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira, Record-BR)
1941 – The Forgotten Village – Life in a Mexican Village
1941 – Sea of Cortez: A Leisurely Journal of Travel and Research
1942 – The Moon is Down (A Longa Noite Sem Lua, Record-BR)
1942 – Bombs Away – The Story of a Bomber Team
1945 – Cannery Row (A Rua das Ilusões Perdidas, RioGráfica/Record-BR ou Caravana dos Destinos, Círculo do Livro-BR)
1947 – The Wayward Bus (O Destino Viaja de Ônibus, Ibrasa-BR)
1947 – The Pearl (A Pérola, Record-BR)
1948 – A Russian Journal (Um Diário Russo, Cosac Naify-BR)
1950 – Burning Bright (O Filho Desejado, Círculo do Livro-BR)
1951 – The Log from The ‘Sea of Cortez’
1952 – East of Eden (A Leste do Éden, Abril Cultural-BR ou Vidas Amargas, Record-BR)
1954 – Sweet Thursday (Doce Quinta-feira, Record-BR)
1957 – The Short Reign of Pippin IV: A Fabrication (O Curto Reinado de Pepino IV, Record-BR)
1958 – Once There Was a War
1961 – The Winter of Our Discontent (O Inverno de Nossa Desesperança, L&PM-BR)
1962 – Travels with Charley (Viajando com Charley, Record-BR)
1966 – America and Americans (A América e os Americanos e Ensaiso Selecionados, Record-BR)
1969 – Journal of a Novel: The East of Eden Letters
1975 – Viva Zapata!
1976 – The Acts of King Arthur and His Noble Knights
1988 – The Harvest Gypsies: On the Road to The Grapes of Wrath
1989 – Working Days: The Journals of The Grapes of Wrath
2012 – Steinbeck in Vietnam: Dispatches from the War

Outros Materiais sobre o autor:

Livros:

– Steinbeck: Uma Biografia – Jay Parini (Record, 1998)
– John Steinbeck – Warren French (Lidador, 1966)
– Boêmios Errantes – Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura (introdução por Kjell Strömberg e Brom Weber, Opera Mundi-BR)
– Steinbeck: A Life in Letters (sem tradução)

Links:

The Martha Heasley Cox Center for Steinbeck Studies (site bem legal com muitas informações sobre o autor e com publicações próprias com estudos sobre a vida e obra de John Steinbeck)

Vídeo do Discurso da Cerimônia de Atribuição do Prêmio Nobel (também conhecido como Discurso do Banquete [Banquet Speech])

Vídeo do Recebimento do Prêmio Nobel

 

2 comentários para “John Steinbeck

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