O verdadeiro personagem é o autor

“Com uma história dessas, o sujeito é forçado a virar um gênio. Ou isso, ou ele acaba rindo. Trancado num quarto de paredes espessamente estofadas pelo Estado.”

É assim, na introdução de A lanterna mágica, que Woody Allen define seu diretor preferido, aquele que em Manhattan ele afirmaria ser “o único gênio vivo”.

Ingmar Bergman é, indiscutivelmente, um gênio e um marco da história do cinema. Ao mostrar Hariett Andersson olhando diretamente para a câmera, em Monika e o desejo, ele influencia uma geração inteira e põe em movimento a Nouvelle Vague; O cavaleiro de O sétimo selo, jogando xadrez com a Morte por sua vida, é uma imagem que já foi apropriada até mesmo por um episódio de Animaniacs; seus closes muito próximos, os rostos imensos e assombrados em tela tornaram-se um recurso universal dos filmes que buscam mergulhar na alma de seus personagens, aparecendo, só em 2013, em Frances Ha e Azul é a cor mais quente. Leia mais

As quatro vidas do cachorro louco

Quatro vidas, quatro obras: isso é Vida, o volume de quatro biografias escritas por Paulo Leminski (1944-1989), autointitulado “cachorro louco”, ao longo da década de 1980. Inicialmente, faziam parte de um projeto editorial da editora Brasiliense, que publicou os textos separadamente, como quatro biografias independentes. O desejo do autor, porém, era que esses textos fossem um dia publicados em um mesmo livro, Vida, assim como ocorreu post-mortem pela editora Sulina e, neste ano, em reedição pela Companhia das Letras.

Apesar do uso do termo “biografia”, acredito que, para a maioria das pessoas, é realmente difícil comparar esses textos com as biografias que encontramos todos os dias nas livrarias. Leminski não parece ter se preocupado em dar alguma linearidade histórica ou fazer um percurso de vida, com detalhes da vida privada de cada biografado. Como é dito por Alice Ruiz na introdução do volume, esses textos “clareiam a visão da trajetória do poeta”, do próprio Leminski mesmo. Estão mais próximos da ensaística do autor, que trata de temas que são concernentes à sua obra (como em Ensaios e anseios crípticos), do que de um biografismo, de uma descrição da vida de alguém nos moldes clássicos, derivados da historiografia greco-romana. O poeta curitibano certamente tinha noção do que a sociedade considera que seja uma biografia; subverteu o gênero por sua própria vontade. Leia mais

Eduardo Coutinho na FLIP

Fumar e filmar são parecidos.

Foi na minha primeira semana no Rio de Janeiro que encontrei Eduardo Coutinho. Àquele tempo fazia pouco que me apresentaram seu Cabra Marcado para Morrer (1985), hoje reconhecido como obra máxima dos documentários brasileiros, iniciado na década de 60 como um longa de ficção, interrompido pelo Golpe Militar e finalizado duas décadas depois, com a reabertura política. Leia mais

Jack Kerouac: king of the beats (Barry Miles)

Na capa, uma fotografia em preto e branco, a mesma que está presente, invertida, do lado oposto do livro. Um carro rodando sobre uma estrada iluminada, delimitada por imensas margens, oceanos negros. Se você gira o livro nas mãos – partindo da capa, passando pelo miolo em papel pólen e chegando, por fim, à quarta capa –, percebe que as 420 páginas do volume conectam as duas estradas simetricamente dispostas, o que serve de metáfora visual ao que toda biografia que se preze almeja: unir as duas pontas de uma vida, tal como diz o narrador de Dom Casmurro, a vida de seu sujeito. Leia mais

Ana Cristina Cesar

Nosso país nunca me pareceu um campo exatamente bom para a poesia. Eu tinha uma visão de que existiam alguns poetas canônicos – muito bons, é verdade, mas que não me satisfazem e me significam menos do que eu gostaria – e nada mais. Felizmente, de uns tempos pra cá, eu tenho descoberto que isso é mentira. Não só existe uma pluralidade muito maior das vozes poéticas brasileiras, como várias delas são capazes de tocar, em mim, cordas que o nosso cânone não consegue – mas que poetas de outras nacionalidades conseguiam.

Andei falando de alguns deles aqui no Meia Palavra nos últimos tempos, como Roberto Piva e Fabiano Calixto. Existem outros ainda sobre os quais não falei – e quem sabe no futuro fale. Mas, por hora, fiquemos com a primeira poeta mulher brasileira (não gosto da palavra poetisa, quem sabe um dia escrevo a respeito da minha visão sobre questões de gênero e literatura, aí eu explico isso direito) que me prendeu a atenção (não que qualquer dessas coisas sejam realmente relevantes, ver o parênteses anterior – tenho uma relação igualmente complexa com nacionalidades): Ana Cristina Cesar. Leia mais

João Cabral de Melo Neto: o poeta?

9 de outubro de 1999: o dia do já anunciado, porém não menos triste, adeus ao meu poeta preferido. Coisa estranha. Estava o número 9 mais presente na sua ímpar vida de atração por números pares do que você imaginava. Você faleceu nove meses depois do dia nove de janeiro, quando completou mais um ano de vida. “Falecer” é um termo formal demais, um termo frio demais. Permita-me a correção: você, João Cabral de Melo Neto, conforme a perspectiva rosiana, não morreu, ficou encantado, porque “as pessoas não morrem, ficam encantadas.

Talvez o termo “encantado” possa, de certa forma, ofender-te, meu amado poeta, por isso, peço licença a Guimarães para substituir essa palavra, momentaneamente, por “incomunicáveis”. Mas a verdade é que eu também não acredito que as pessoas quando deixam essa vida fiquem “incomunicáveis”. Satisfeito, agora, poeta da comunicação?

Não, o termo não é satisfatório, porque o imortal, que ocupou a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras (cadeira que tem, como patrono, Tomás Antônio Gonzaga, o poeta de Marília) comunica-se conosco por meio de sua obra. Além disso, eu o chamei de poeta, o que não o deixaria satisfeito, embora ele tivesse essa pedra-palavra no seu encalço.
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Marina Tsvetaeva

Por mais mazelas que a sociedade russa do começo do século XX tivesse, é louvável a participação feminina não só na Revolução, como também na literatura – mesmo nos casos contrarrevolucionários. Alguns dos maiores nomes da poesia russa no século XX são femininos: é o caso de Anna Akhmatova e de Marina Tsvetaeva.

Tsvetaeva nasceu em 1892, três anos depois de Akhmatova. Filha de um professor universitário de artes, Ivan Vladmirovich Tsvetaev, e de uma pianista de origem germano-polonesa, Maria Alexandrovna Meyn, Marina cresceu em um ambiente materialmente confortável e culturalmente rico. Com isso ela identificava-se profundamente com a aristocracia polonesa. Casou-se em 1912 com Serguei Yakovlevich Efron, com quem teve três filhos: Ariadna (1912), Irina (1917) e Georgy (1924).

Apesar do nome e da riqueza do início de sua vida, nem tudo foram flores na vida de Tsvetaevna: Irina viria a morrer em Moscou, durante a grande fome que se seguiu à Revolução e mais tarde, vivendo na Tchecoslováquia, viveria em penúria. Leia mais

John Steinbeck

Hoje faz 110 anos que John Ernst Steinbeck Jr. nasceu. Em 27 de fevereiro de 1902, na cidade de Salinas, estado da Califórnia, o filho de John Ernst Steinbeck e Olive Hamilton vinha ao mundo.

A infância de um dos mais conhecidos autores estadunidenses se desenrolou basicamente na propriedade familiar dos pais, onde ele aprendia tanto a lida agrícola com o pai, quanto recebia a educação formal pelos métodos severos da mãe, complementado pelo ensino na Salinas High School. Os tenros tempos de sua infância são a base de muitas de suas histórias, onde ele explora o caráter bucólico e idílico da vida rural.

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Wysława Szymborska (02/07/1923 – 01/02/2012)

A Polônia, apesar de todas as vicissitudes históricas e de uma auto-imagem nacional um tanto confusa, foi o berço de grandes personagens históricas. Lá nasceram Chopin, Madame Curie, João Paulo II. Czesław Miłosz também é outro polonês de peso. Ontem, juntou-se a esse verdadeiro panteão a poeta Wysława Szymborska: aos 88 anos, a vencedora do Nobel de Literatura de 1996 faleceu depois de uma longa doença – tendo, inclusive, sido operada no ultimo mês de novembro. Segundo o secretário de Szymborska, porém, a poeta morreu em sua casa em Cracóvia, de forma tranquila.

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Whole Lotta Led Zeppelin – A história ilustrada da banda mais pesada de todos os tempos (Jon Bream)

Nunca fui um fã-fanático, um cego que idolatrava o quarteto Page, Plant, Bonham e Jones, contudo sempre que ouvia suas músicas na rádio ou queria música pesada e dançante – as minhas favoritas – colocava Led Zeppelin na radiola. Muito da história da banda eu conhecia através de pequenos documentários apresentados na MTV quando ainda rolavam os “Fim de Semana Especial – coloque uma banda aqui” que contavam um pouco sobre algum álbum específico ou um concerto que tenha sido um sucesso. E claro que os emblemáticos hinos como All My Love, Rock n Roll e Stairway to Heaven eram sempre os destaques. Leia mais

Anna Akhmatova

A Rússia foi um dos países que teve um modernismo tardio: ao contrário dos centros culturais, que consistiam da França, Inglaterra, Áustria e Alemanha, a grosso modo países como a Rússia, Polônia e Itália só foram ‘despertar’ para a arte moderna no final do século XIX, ou ainda no começo do século XX. Quando o fizeram, porém, passaram por uma espécie de movimento compensatório, com ideias e movimentos muito mais radicais em seu desprezo pela tradição e proposição da estética do novo, vide o futurismo italiano.

Entre o mar de artistas, poetas e dramaturgos com ímpetos revolucionários, alguns poucos se destacaram. Os que o fizeram, notadamente, foram aqueles que não se associaram a grupos (pelo menos não por muito tempo) ou que não se comprometeram com ideais estéticos fechados. Witkacy, com seu estilo ímpar, que conjugava um pouco de dadaísmo, um pouco de expressionismo, um pouco de futurismo e muito de coisa nenhuma, é considerado até hoje um dos maiores escritores de língua polonesa, bem como Bruno Schulz e Witold Gombrowicz.

De maneira semelhante, na Rússia uma das figuras literárias de maior destaque foi Anna Andreyevna Gorenko – que, a pedido do pai, publicou sob o pseudônimo de Anna Akhmatova. A adoção do nome Akhmatova, por si só, já é simbólica: o nome é uma russificação do sobrenome da avó de Anna, teoricamente descendente de Genghis Khan. Vale lembrar que, nos últimos dias do Império Russo – época em que ela começou a escrever- tal herança seria vista mais com desconfiança do que com interesse. Leia mais

Cláudio Manuel da Costa e eu

Sabe aqueles poetas de que a gente só ouve falar no colégio e que de tantas inversões de período e floreios nos traumatizam para a eternidade? Pois bem, resolvi dar mais uma chance a um deles, e talvez fosse melhor para Cláudio Manuel da Costa que tivéssemos ficado apenas na lembrança da escola. Caiu-me na mão Perfis brasileiros – Cláudio Manuel da Costa (Laura de Mello e Souza, Companhia das Letras, 2011, 272 páginas) e antes que eu te assuste mais do que pretendo, adianto que a ideia aqui não é duvidar da competência do poeta mineiro para o verso clássico (ainda preciso revisitar seu célebre Vila Rica para ver se engulo), mas apenas constatar que se Cláudio Manuel não me fisgou no colégio não foi apenas por incompetência  da professora: a vida do cara foi patética.

Não que a minha existência seja lá essas coisas, mas depois de passar pelas biografias de Rimbaud, Maiakovski,Twain, Proust, Kerouac, Faulkner, Dostoievski, Lispector, Leminski e até Kafka e Mann, confesso que saber como foi a vida de Costa me assustou. É claro que a vida dos escritores (inclusive os que citei) dificilmente compete com suas obras — seria covardia comparar a criação com essas realidades em grande parte banais –, mas a agitação interna e consequente produção literária dos grandes tendem a preencher o marasmo existencial a que até os gênios (e, talvez, principalmente eles) estão fadados. Não no caso de Cláudio Manuel da Costa e aqui vai por quê:

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