Ubik (Philip K. Dick)

em 16 de abril de 2012

Philip K. Dick era um nome completamente desconhecido para mim até o mês passado. Confesso que nunca me interessei por ficção científica, nem mesmo no cinema (lembro vagamente que caí no sono em Minority Report depois de terminar de comer toda a pipoca que tinha no saco). Simplesmente não era pra mim… Era o que eu achava. Até encontrar Ubik.

Lendo esse livro senti como se um novo mundo estivesse sendo construído diante dos meus olhos, que demoraram à assimilar o que estavam vendo. A narrativa começa como se eu já conhecesse esse outro mundo, era preciso somente relembrar. É aí que vemos o primeiro truque de Philip K. Dick: ele não nos apresenta ao mundo que ele criou, nos abandona lá dentro como num choque de realidade, para, aos poucos, ir revelando o que quer nos fazer ver. O estranhamento, então, vai sendo sublimado diante de um enredo que prende o leitor do início ao fim.

Runciter Associados é uma empresa especialista em neutralizar ações telepatas invasivas ou indesejadas. No mundo de Ubik, as ações dos telepatas são fundamentais, pois através delas é possível ver o futuro, revelar segredos de empresas, antever ações de determinada pessoa e poder alertar corporações (ou quem os contratar) lhes dizendo o que futuro guarda para que tomem decisões corretas. Os anti-talentos não fazem previsões, eles somente neutralizam, barram a ação telepata, devolvendo a quem os contratar a privacidade e segurança.Glen Runciter é o dono da companhia, que tem como conselheira sua esposa Ella, que está em meia-vida. No futuro construído por PKD, não precisamos lidar com mortes bruscas. Toda pessoa, quando morre, pode ser colocada em uma manta que a conserva em meia-vida: seu corpo já não se move, mas contatos, conversas, são possíveis graças aos métodos de comunicação desenvolvidos. A meia-vida não é eterna, mas é como se prolongasse a despedida. Runciter é muito apegado ao restinho de vida que ainda sobra à Ella e a consulta a cada grande decisão que tem de tomar.

Joe Chip, braço direito de Runciter, atua como um avaliador dos anti-talentos, isto é, cabe a ele testar aqueles que querem entrar na equipe, medir seus alcances e de avaliá-los segundo os interesses da empresa. É Joe que avalia e inclui Pat Conley no time de Runciter, uma garota com um anti-talento nunca antes visto por qualquer especialista, e que, sem ele mesmo notar, o domina completamente.

Runciter recebe uma proposta de ação na Lua. É uma atividade de alto risco e muito interessante financeiramente. Como de costume, ele corre para consultar Ella, mas não consegue, pois o contato com sua esposa tem muitas interferências de outro meia-vida, Jory, um jovem com grande força de atividade. Mesmo assim, Glen Runciter decide reunir seus melhores anti-talentos (inclusive a novata e misteriosa Pat) e parte para a Lua. Chegando lá, o grupo é atacado, Glen morre e Joe passa a liderar a volta à Terra. Porém, um desafio mais improvável deve ser enfrentado: entender porque os objetos ao redor daqueles que estiveram na Lua estão envelhecidos, estragados e ultrapassados. E, mais importante, como reverter essa ação envelhecedora desconhecida.

Conforme o livro avança, percebemos que todas as epígrafes dos capítulos referem-se aos usos mais insólitos de Ubik, um elemento não conhecido por nós, que não apareceu no enredo e que parece ser qualquer coisa: remédio para dor de estômago, hidratante capilar, um tipo de manteiga. Até que o mesmo se transforma numa lata de spray com as letras U-B-I-K grafadas, e dessa lata depende a vida de Joe e dos melhores anti-talentos que a Runciter Associados já teve.

Os principais personagens dessa ficção, apesar de viverem em um outro tempo, são muito parecidos com qualquer um de nós, e nisso percebemos outro truque de PKD. Runciter e Joe não têm poderes telepatas ou qualquer anti-talento. Eles são espertos, é verdade, mas parecem entender tão pouco da história em que vivem quanto qualquer um de nós, como se eles também sentissem o estranhamento de ver um mundo se formando à sua volta. À medida em que eles vão caminhando rumo ao desconhecido, nós os seguimos, juntando informações, transpassando décadas, sendo surpreendidos pelos fatos e confiando em qualquer informação, agindo de forma tão inocente quanto Joe e Runciter.

K. Dick envolve-nos em diversos outros truques durante todo o livro até nos levar a sua cartada de mestre: o final, sobre o qual eu, claro, não vou comentar. Mas posso garantir que se deixar levar pela astúcia de um ficcionista tão completo como PKD é um mergulho prazeroso em águas, pelo menos para mim, tão desconhecidas. E surpreendentes.

Ubik

Autor: Philip K. Dick

Tradução: Ludimila Hashimoto

Editora: Aleph

Páginas: 240 páginas

Preço sugerido: R$42,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Aleph

Sobre a autora: Editora assistente da hora que acorda até a hora que vai dormir, Raquel (prefere Raq, tá?) Toledo ainda encontra tempo para ser mestranda em literatura russa pela USP e não dispensa uma noitada boa, um cinema, um botequim. Viciada em livros, amante do rock’n’roll.

6 comentários para “Ubik (Philip K. Dick)

  1. Pingback: Meia Palavra (resenha e sorteio!) | Da Editora

  2. K. Dick é ótimo!

    Mas, agora que você já se enfiou na FC, corre ler os irmãos Strugatsky, Raquel! O Stalker, do Tarkovsky, é baseado num livro deles. E eles vão daí pra cima. 🙂

  3. Pingback: Estrelinhas sazonais « Isaac Sabe!

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